para saber mais sobre Huaraz , confira também  este artigo escrito pelo Davi Marski.
escrito por  Josué Villela e  Victor Alencar

De 05 a 13 de setembro de 2009

Em mais um dos capítulos em que os sonhos se realizam... Este começa a ser escrito! Uma viagem que se traduz em muito mais do que se deslocar de um lugar para outro... uma viagem em que o destino é muito menos importante que o trajeto... um desligamento aos obstáculos e prisões auto-impostas... Um desligamento aos medos e preconceitos herdados...

Um deixar para traz! O amanhar dos pensamentos... redefinição de prioridades, às vezes sobrepostas pelo cotidiano autopropelido!
Mas não que seja nela depositada toda a esperança ou o peso do último recurso...

A busca já se iniciou há tempos... Como tudo que carrega em seu bojo o sentido de algo grandioso... ela será apenas um símbolo! Uma lembrança que representará todas as outras que compõem a caminhada, o caminho e o andarilho...

(Victor Alencar)

1º.    DIA - Deixamos Huaraz às 05:00h da manhã, pois era o único ônibus que saía na parte da manhã, ao custo de S/ 15,00. O destino final do transporte era Llamac, uma pequena e simpática cidade bem perto do início do trajeto. Por orientação de alguns amigos que fizemos durante a aclimatação conseguimos um precário transporte de Llamac para um vilarejo chamado Pocpa por S/ 7,00, onde as pessoas não pareceram tão amistosas, olhando com estranheza e interesse.
Prosseguimos caminhando pela estrada de terra que margeia o rio Llamac com destino à Quartelhuain, de onde realmente se inicia a trilha. O trajeto não necessitava ser feito a partir daquele ponto, e até mesmo indico que uma condução privada seja contratada para levar até Quartelhuain, pois assim se inicia a trilha com mais energia e não se perde em beleza natural, já que a única vantagem que percebemos foi imensa hospitalidade dos funcionários da Mina Pallca, que se localiza no meio do caminho.
Finalmente chegamos bastante cansados ao primeiro camping do trajeto. Quartelhuain é uma área que se localiza entre duas imensas cadeias de montanhas, possui um pequeno curso de água, duas pequenas casinhas de compensado com um buraco dentro que servem de banheiro. A área também conta com um camponês que cuida da segurança. Por esta estrutura paga-se S/ 15,00.
Montamos nossa barraca bem rápido, pois estava se formando uma chuva que mais tarde vimos ser de puro granizo! Todo o chão ficou coberto de gelo formando uma imagem muito bonita apesar do baita frio. Felizmente a barraca agüentou muito bem o castigo!
Após a chuva fizemos algumas fotos e tratamos de fazer comida quente, o que foi absolutamente compensador! Preparamos as coisas e fomos dormir.
Durante a noite passamos perrengue somente com a água que estava congelante e com o nariz que fechava completamente, isso nos fez tomar precauções nos outros dias como esquentar a água e colocar o cantil dentro do saco de dormir, e para o nariz pingávamos descongestionante e colocávamos uma coisinha chamada respire bem que fazia jus ao nome!


- Acampamento 1º dia - Quartelhuain - (4.157m) - Latitude  10° 9'15.43"S Longitude  76°55'23.73"O.

Confira mais fotos em : http://www.orkut.com.br/Main#Album?uid=9401589567011766919&aid=1252744230



2º.    DIA - Acordamos em Quartelhuain com o costumeiro frio matinal dos Andes, a imagem era bela e vasta, podendo se avistar com mais clareza a cadeia de montanhas que atravessaríamos. Levantamos e fizemos o nosso café da manhã, que na verdade era uma refeição completa, pois decidimos acertadamente que o melhor seria almoçarmos de manhã, comermos algo frio e prático na ora que seria a do almoço e jantarmos outra refeição quente.
Levantamos acampamento, arrumamos os equipamentos e finalmente saímos cometendo nosso primeiro erro e aprendendo nossa primeira lição. A informação que tínhamos era que este primeiro trajeto não era um dos mais difíceis, aliado a isso a empolgação do primeiro dia fez com que arrogantemente subestimássemos a dificuldade do caminho.
A subida é extremamente estafante, com um inclinação considerável por trilha de pedregulhos e ilusões de distância, fazendo com que se tenha a impressão de que falta pouco para o topo, quando se chega neste ponto avistado, nota-se que em verdade não passa de um terço do caminho ou metade, gerando grande frustração.
Este foi o primeiro erro que logo veio acompanhado da nossa primeira lição: "Abandonar todas as expectativas quanto ao destino! Tendo a consciência de que a cada passo que se dá, está no lugar que quer estar!" Mais leves pelo peso das expectativas abandonadas seguimos o caminho em direção ao próximo camping, Laguna Mitococha.
Chegamos exaustos, porém humildemente realizados mais ou menos às 17:30h, montamos acampamento, nos alimentamos, e durante a noite até a hora de dormimos permanecemos em silêncio refletindo o ocorrido do dia.

- Acampamento 2º dia - Laguna Mitococha - (4.257 m) - Latitude 10°11'39.51"S  Longitude 76°53'42.22"O.

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Fragmento do Diário de Victor Alencar - Dia 06 de Setembro de 2009

Todo o necessário para as necessidades básicas na mochila... protegido do frio cortante que varre a planície coberta pelo gelo, que caiu durante toda a noite... Estamos aos pés do que seria uma cadeia de montanhas aparentemente intransponível! De longe a trilha se assemelha a um caminho de formigas! Primeiro dia... me senti forte o suficiente para embriagar-me da inocente arrogância dos amadores... Olho com deboche o obstáculo que se ergue diante de nós...
Ao iniciar o primeiro desafio senti que carregava um peso estranhamente maior que a soma de todos os equipamentos e ainda o de meu corpo... mas tinha pressa! Iniciamos...
Subíamos.... E nada mais fazíamos naquela manhã! Subíamos... Os músculos reclamavam o descanso... A mente reclamava o topo!!! Subíamos... "- O topo parece perto!!!" era apenas o topo do que seria um quinto do que tínhamos a percorrer... Frustação...
A tarde chega inclemente.... E não chegávamos! Subíamos... e nada mais fazíamos naquela tarde! A arrogância se esvaecia na imensidão... "- Como fui tolo!!!" Subíamos... a exaustão estava próxima! próxima demais!!! "- Agora sim!" "- O topo é logo depois daquela rocha!!! "Chegávamos ao topo apenas de um terço da distância... Desespero... Os pensamentos se desorientavam! "- Isso não é para mim!!!" "- É somente o primeiro dia!" Subíamos... "- Desisto?" "- É isso!" "Eu não devia estar aqui!? " Paramos incrédulos diante de nossa inocência de estarmos onde deviam estar homens fortes... nos sentamos... os músculos, desconfiados, tremem duvidando a falta de movimento...
"- Não!"
Não me entrego à exaustão... Entrego-me à montanha! Fecho os olhos e sinto percorrer na face o lânguido sussurro.... Amanha-se nos ouvidos... Finalmente ouço!
Abro os olhos assustado! Deixo cair o estafante excesso de peso que carregava... ergo-me... agora leve... Avisto a paisagem que me cerca... As lágrimas lavam o rosto! Estou lá! Plenamente estou onde quero estar... Dou um passo... Ainda estava onde queria estar!!! Com o rosto úmido e um sorriso pueril sigo percorrendo o trajeto... Subíamos.... E não acreditei na imensa euforia de estar onde queria a cada passo... os passos se aceleravam... Ando incrédulo onde andam os homens sábios e seus humildes aprendizes!!! Inadvertidamente fui acometido por um êxtase libertador!!! A força do vento aumenta em direção oposta... Olho em volta... Estou no topo!
De lá... observo bem de longe o peso excedente... lá de cima em meio à paisagem... e agora... petrificadas... minhas expectativas abandonadas fazem parte dela!!! Abaixo minha cabeça em reverencia... Aceito o primeiro aprendizado... Faço uma pilha de pequenas pedras... E finalmente entendo do que são feitas as montanhas!!!
Desço....



3º.    DIA - Pela manhã, ao acordarmos na Laguna Mitococha fomos surpreendidos com a lona da barraca congelada e um frio que ainda superou ao da chuva de granizo da noite anterior, no entanto, o nascer do sol revelou uma bela paisagem.
Após nos alimentarmos bem, comendo inclusive algumas laranjas super doces presenteadas por um dos trabalhadores da Mina Pollca, levantamos acampamento e seguimos em direção ao nosso próximo destino, a Laguna Carhuacocha. O trajeto se inicia voltando uma parte do caminho pelo qual se chega à laguna e posteriormente segue por uma subida íngreme à direita pelo Passo Carhuac (4.650 m), porém menos dificultosa, cercada de belas serras cobertas por vegetação rasteira bem verde e com o trajeto permeado por pequenos cursos d'água e musgo.
Segundo o mapa e ainda os camponeses que encontramos no caminho, existem dois caminhos diferentes, um deles pelo qual percorrem as mulas e cavalos, de menor dificuldade apesar de ser mais distante, porém não é tão belo quanto o segundo, que possui um maior número de lagunas e é mais próximo dos picos nevados.
Durante a empreitada permanecíamos olhando fixamente para a pequena trilha que se seguia, afim de nos concentrarmos na força física que nos era exigida. Ao pararmos em um dos pontos do caminho para admirarmos a paisagem que havíamos passado, refletimos sobre o que nos motivara a fazer a trilha e sobre o significado daquilo, o que nos fez então diminuirmos o passo e apreciar o lugar que estávamos a cada passo, tornando o trekking bem mais agradável, amenizando o cansaço.
Percebemos o que seria a nossa segunda lição: "Penoso não é apenas não enxergar o que o cerca, mas ter apenas uma breve visão do que poderia ter sido".
A laguna somente é avistada de cima de uma encosta, propiciando uma vista surpreendentemente bela, sem dúvida a mais majestosa de todo o trekking, com uma laguna de cor azulada e de dimensões consideráveis, avistando-se ao fundo os gigantes e mais famosos picos da Cordilheira Huayhuash, o Yerupajá (6.634m), Yerupajá Chico (6.089m), Jirishanca (6.094m) e Siulá Grande (6.344m).

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Fragmento do Diário de Viajem de Victor Alencar - Dia 07 de Setembro de 2009

Terceiro dia de viajem... Cansado, porém maravilhado com as paisagens que avistava! Humildemente leve seguia em frente à empreitada... Um grande esforço físico era exigido por aquele lugar, que apesar de mágico era absolutamente inclemente!
A consciência do pouco espaço para erro que ambiente nos deixava, e do quanto ainda havia pela frente a percorrer, mantinha sempre o olhar concentrado e focado no caminho que se desnudava a cada metro.
Durante o percurso aproveitava os breves momentos de descanso para apreciar a beleza dos lugares pelos quais havíamos passado com um olhar misto de encanto e nostalgia... Em uma desses momentos... Enquanto me permitia sair daquele estado de concentração obsessiva... Senti uma dor lancinante ao virar o pescoço para traz!
A dor oportuna me fez novamente olhar para e frente e instintivamente ao redor do lugar em que estava, quando me veio à mente um pensamento simples e aclareador típico das epifanias! Com a visão mais clara, apesar do olhar mareado, fui tomado mais uma vez por um êxtase de liberdade!
Ao reiniciar a caminhada, estando a cada passo onde queria estar, passava agora a sorver, mesmo que trôpego, todo o esplendor do momento, sendo parte de tudo o que ocorria em volta, me sentindo pedra tão fundamental quanto qualquer outro elemento que compunha aquela paisagem indefectível!
Quanto vazio pode ser preenchido ao se dispor apenas a enxergar o ambiente que se está inserido, de forma a perceber o quanto a própria existência ocupa intrinsecamente, e de forma perfeita, o seu lugar!!!



- Acampamento 3º dia - Laguna Carhuacocha - (4.150 m) - Latitude 10°14'29.66"S Longitude 76°51'35.33"O


4º.    DIA - Sem dúvida nenhuma esse foi o dia mais espetacular de todos! Acordamos apreciando a vista surpreendentemente magnífica da cordilheira, especialmente a parte dela com as suas montanhas mais belas e famosas.
Esperamos a barraca descongelar enquanto fazíamos nossa primeira refeição quente do dia, levantamos acampamento e começamos a percorrer a trilha que margeia a Laguna, que levava a uma séria de lagunas menores, mas de beleza exuberante.
Durante o trajeto até a base do Passo Siulá (4.800m), ouvíamos constantemente, nas margens opostas, estalos estrondosos do gelo que cobria o Nevado Siulá Grande se partindo, e por duas vezes avistamos avalanches descendo a face e chegando às lagunas, explodindo em uma nuvem de espuma de gelo.
Da trilha, que passa acima das margens das lagunas conseguíamos até mesmo ver trutas nadando nas águas cristalinas formadas por degelo dos glaciários.
Passamos boa parte da manhã e o resto da tarde transpondo uma subida muito íngreme e exaustiva por um terreno pedregoso e instável, o Passo Siulá (4.970 m), sendo o segundo mais difícil trecho do trekking, depois da Quebrada Quartelhuain no primeiro dia, além de ser o segundo mais alto, depois do Passo Cuyoc no sexto dia.
Logo após iniciar a descida do topo do Passo Siulá avista-se o próximo camping na Laguna Carniceiro (4.468m), ou seja um desnível de mais de 500m de altitude, o que pode ocasionar algum desconforto pela diferença de pressão.


- Acampamento 4º dia - Laguna Carniceiro - (4.300 m) Latitude  10°18'42.84"S Longitude  76°50'48.85"O


5º.    DIA - Acordamos nas margens da Laguna Carniceiro com a vista de uma cadeia montanhosa ao fundo, nos alimentamos, levantamos o acampamento e damos início a uma caminhada relativamente fácil e curta pelo Passo Portachuelo (4.750m) em direção ao próximo ponto de referência, a grandiosa Laguna Viconga, a maior de todas as lagunas encontradas no percurso do trekking, contando até mesmo com uma pequena hidroelétrica.
A Laguna Viconga é incrivelmente profunda, na época do ano que realizamos o trekking ela estava bem abaixo de sua cota máxima, sendo que acima da superfície até a marca de seu nível mais alto dava o equivalente a vinte metros ou mais, sua água apresenta uma coloração azulada, não tanto quanto a Laguna Siulá, mas sua dimensão e sua profundidade causam um grande impacto, além de ser emoldurada ao fundo pela impressionante Cordilheira Raura, com mais de 10 montanhas acima dos 5.500 metros e inúmeros glaciários.
Apesar de a laguna servir como referência para a navegação, decidimos acampar em uma fonte termal que localizamos no mapa, o que se mostrou a nossa escolha mais acertada de todo o percurso. A fonte se localiza a uns três quilômetros fora da trilha, mas certamente compensa o pequeno esforço extra! Trata-se de uma mina de água aquecida por calor geotérmico cuja seu curso foi parcialmente desviado para uma pequena piscina construída ao lado da casa de um camponês.
O banho quente foi intensamente prazeroso, não só em relação à possibilidade de remediar o mau cheiro de dias de caminhada sem banho, mas também proporciona um relaxamento necessário aos músculos já tão desgastados pelo sobe e desce do relevo.
O acampamento é bem cômodo, em um vale verde com um curso d'água de fácil acesso, vistas belíssimas e ainda conta com um compartimento quadrado com laterais de compensado que serve de banheiro, um luxo se considerar o vento frio! rss


- Acampamento 5º dia - Fonte Termal - (4.376m). Latitude  10°25'7.36"S Longitude  76°51'27.35"O


6º.    DIA - Acordamos bem cedo e fomos direto tomar um bom banho matinal na fonte termal! Como já era rotina, nos alimentamos, arrumamos as coisas, acomodamos as mochilas e pé na estrada rumo ao tão famoso Passo Cuyoc!
Apesar de lermos vários relatos de que o Passo Cuyoc, o mais alto do percurso com os seus 5.045 m de altitude, fosse a parte mais difícil e impressionante de todas, achamos menos intenso que a cadeia de montanhas do primeiro dia em Quartelhuain e menos belo que o percurso do Passo Siulá.
No entanto, andar próximo ao cume do Pico Cuyoc (5.550 m), passar por depósitos de neve eterna e vislumbrar as lagunas a impressionantes 4.900 m de altitude pagam o esforço.
Os últimos metros antes de chegar no topo é cheio de pilhas de pedras feitas pelos andarilhos, formando uma visão pitoresca e ao mesmo tempo linda, e é possível se deparar com uma placa em homenagem a um explorador que faleceu naquele lugar.
A descida é bem íngreme e perigosa, o solo é formado por pedras soltas e areia, ao completá-la chega-se em um grande vale com um tapete formado pela vegetação rasteira bem verde. O pôr do sol tinge as montanhas nevadas de um alaranjado forte formando uma paisagem surreal.


- Acampamento 6º dia - Quebrada Huanacpatay - (4.317 m) - Latitude 10°22'34.73"S Longitude 76°56'15.72"O


7º.    DIA - Logo ao acordarmos decidimos prosseguir sem nem mesmo fazer uma refeição mais completa, comemos castanhas e outras comidas frias que restavam, o que acabou sendo uma das más escolhas do dia e que nos custaria um tanto caro.
A caminhada estava tranqüila, o caminho cortava vales verdejantes e trilhas de baixo grau de dificuldade e de fácil orientação, cortando pequenos cursos d'água. A paisagem naquele lugar é muito acolhedora, com água por todo lado, cachoeiras imponentes, rochedos cobertos por musgos, muitas flores de cores variadas, animais e pequenos currais construídos com pedras e algumas árvores de pequeno porte.
Ao conversarmos com alguns camponeses e guias de outras expedições que encontramos, estes nos orientaram a sair por uma cidade chamada Catajambo, pois a trilha que levava até a Laguna Jahuacocha com saída para a cidade de Llámac, segundo os relatos, não era tão bonita, e como estavamos com intenção de escalar o Nevado Yanapaqcha (5.600 m) na Cordilheira Branca dentre alguns dias, estávamos preocupados com o tempo de duração da trilha.
Desta forma decidimos seguir o conselho e nos dirigimos para o que seria nosso próximo destino, o povoado de Huayllapa (3.500 m), pequeno e com construções rústicas, mas o único povoado com energia elétrica, que é produzida em uma pequena usina hidroelétrica construída ao pé de uma cadeia de montanhas.
Chegando naquele povoado, tínhamos feito o trajeto muito antes do tempo previsto, e ainda com muita energia de sobra, de forma que concluímos por não levantar acampamento lá e sim no próximo povoado, chamado Uramaza (3.321 m), para adiantar o percurso.
Quando chegamos em Uramaza já havíamos percorrido 15 Km, o detalhe é que, como já foi dito, ainda não havíamos comido nada de substancial, devia ser mais ou menos uma hora da tarde, mesmo assim, fazendo previsões que se mostraram completamente equivocadas, resolvemos que poderíamos percorrer o equivalente há dois dias em um só e prosseguimos a caminhada em direção à Catajambo.
Às cinco horas da tarde ainda caminhávamos, apresentando sinais de cansaço intenso, quando nossa água acabou, pois os cursos d'água estavam sempre muito abaixo do curso da trilha, no final de um abismo arriscado demais para descer.
A noite caiu e o mapa se tornou inútil, e com o pôr do sol veio o frio intenso e vento forte, pois estávamos em uma altitude considerável e muito expostos na lateral da cadeia de montanhas que devíamos atravessar para chegar até a cidade, no entanto, como ainda tínhamos o GPS e o relevo não era propício para montarmos a barraca, continuamos a caminhar.
Eram oito horas da noite, quando já apresentávamos sinais de desidratação e exaustão, ocorre um imprevisto que não havia ocorrido em nenhum outro momento: O GPS perde o sinal dos satélites! Provavelmente devido ao céu encoberto por nuvens negras carregadas, e nos estávamos finalmente desorientados.
Já era tarde e estávamos nos preparando para bivacar ali mesmo, usando apenas os sacos de dormir e a lona da barraca para nos protegermos do tempo, sentindo uma sede muito intensa e o estômago reclamando de fome. Mas apesar de tudo, nada se comparava ao medo da hipotermia, que nos fez combinamos de dormir sentados e vigiando um ao outro para que não dormíssemos.
Do nada começamos a ouvir no meio da escuridão passos de cavalo vindo em nossa direção, quando a imagem finalmente foi se formando, avistamos um senhor de idade de estatura diminuta montado em um cavalo proporcional ao seu tamanho. Ainda incrédulo fomos em sua direção para pedirmos informações, ele prontamente nos orientou em relação à cidade e nos fez perceber que havíamos andado quase seis quilômetros na direção errada.
Quando dissemos da nossa pretensão de esperar até o dia seguinte ali mesmo ele insistiu que não poderíamos suportar a exposição do tempo e que era melhor acompanhá-lo até Catajambo imediatamente, e que para ajudar-nos utilizaria o cavalo.
Tentamos andar por um tempo, mas depois acabamos aceitando o fato de que a exaustão não nos permitiria continuar, e assim fomos revezando no cavalo até finalmente e felizmente chegarmos ao destino.


- Albergue - Catajambo - (3.611 m) - Latitude 10°28'27.15"S Longitude 76°59'34.69"O


8º.    DIA - Chegamos em Catajambo já completamente sem forças, com dificuldades até para falar com o dono do albergue onde dormiríamos naquela noite. Não parávamos de agradecer a aquela figura que nos havia salvado! Logo após nos deixar sumiu em meio à escuridão e envolto pela névoa fria da noite, como que em uma cena de filme.
Bebemos muita água e fomos direto tomar um banho quente para limparmos os pulmões da espessa poeira que respirávamos graças ao vento frio e muito forte da montanha, em verdade, nossos rostos estavam irreconhecivelmente marrons.
Ao dissermos de onde havíamos chegado (Quebrada Huanacpatay), todos à volta ficaram impressionados e entraram em fila para nos dar broncas de como havíamos corrido risco, principalmente a esposa do dono da pousada, que logo após o sermão nos preparou um belíssimo prato de frango frito com batatas e arroz. Comida que não me lembramos de ter comido melhor em toda nossa vida! Será porque? Rsss
No outro dia acordamos de um sono muito pesado e fomos procurar condução para Huaraz, encontramos um ônibus que partiria as cinco da tarde, o que nos deu tempo de dar umas voltas, tirar fotos e familiarizarmos novamente com o ambiente urbano.
Depois de dez horas de viajem estávamos de volta a Huaraz e começamos a planejar nossa próxima aventura! Afinal de contas, como dizia Luiz Fernando Verísiimo: "...embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu..."

 



Porque só ouso responder pelo presente.... Por mais que os devaneios da mente em vão se amontoem num pequeno espaço de tempo... por mais que antigas angústias reclamem seus lugares.... por mais que tentem impor um ritmo descompassado.... que monumentos e totens autômatos um dia imaginados, em vão, persistam em desfocar o horizonte clamando a atenção dos olhares....
Ainda é pleno! Em vão... Porque tudo se movimenta ao sabor... tudo se movimenta com sabor... Porque quando se sorve esse movimento.... Até quando tudo ilusoriamente parecer estático... Ainda será pleno!


(Victor Alencar)
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