Essa é a maior entrevista pegadinha que eu já vi. Antes
tinha olhado rapidinho, só reparei a primeira pergunta, e vi que tinham
umas poucas, aí pensei... rapidinho... Pô cada pergunta capiciosa heim.
Pergunta curtinha de fazer e complicada de responder. Mas vamos lá seu
Picareta.(O picareta em questão, é o Davi Marski, que fez as perguntas... rsrsrs)
1. Quantos anos você tem e a quanto tempo você escala ? Como você começou a escalar ?
Atualmente tenho 39 anos, e comecei a escalar com 21. Assim, hum deixa eu ver... escalo há 18 anos por hora.
2. Quais os tipos de escalada você pratica, ou que mais gosta de escalar (ou que realmente não gosta) ?
O que mais pratico é sem dúvida a escalada em rocha. Dentro desta, um
pouco de tudo, móvel, esportiva de grau moderado, fenda... Na verdade
ao longo do tempo já transitei com mais intensidade em um ou outro tipo
de escalada, como por exemplo na época que morei nos EUA me dediquei
muito ao artificial, modalidade que é muito raro fazer atualmente. Acho
que o que "mais gosto" de escalar tem haver com muitas coisas além do
tipo de escalada em si. Já fiz esportivas que eu pirei, achei linda, da
mesma forma que já subi em uma montanha gelada e pirei, achei lindo e
curti um monte. Isso tem muito haver com a beleza da linha que você
escala (que de certa forma é bastante subjetivo) e com o seu estado de
espírito no momento da escalada. Uma modalidade que pratico é a
escalada em muro, na resina. É algo que não me atrai muito, que eu vejo
mais como uma forma de treino e evolução física do que um fim por si
só. Mesmo assim, desfruto bastante escalar na resina.
3. Considerando que através da
escalada/montanhismo realizamos muitas viagens e mantemos contato com
outros povos, outras culturas, há algum aprendizado em especial que
você pode nos transmitir ?
Esta é uma pergunta bastante difícil de responder de uma forma curta.
Existe muita coisa envolvida em realizar uma viagem com espírito de
aventura, seja para escalar ou para outro tipo de aventura. Já antes de
começar a escalar, sempre tive muito gosto por viajar, basicamente para
locais de Natureza intensa, e depois de começar a escalar a isso se
aliou a busca pelas montanhas e escaladas nas trips. Sem dúvida, se
você quer realmente se dedicar à escalada, está meio implícito que você
vai viajar e é através disso que você evolui a sua escalada. Seja indo
pela primeira vez ao Cipó, pra Urca, ou para os Andes, Patagônia,
Himalaya... É nas trips que você vai experimentar estilos de via
diferentes das de casa. Rocha diferente. Climas e ambientes diferentes.
E é onde você tem algo que quem começa a escalar não valoriza muito,
mas depois de muitos anos escalando "no quintal de casa", você dá um
enorme valor onde você vai chegar em um pico e pode escolher
simplesmente qualquer uma das vias e ela será à vista para você,
diferente do quintal, onde frequentemente conhecemos todas agarras da
maioria das vias. Para mim um escalador que busque ser completo e ter
uma evolução, além de treinar obviamente, tem que buscar o "a vista".
Mandar uma via linda a vista é realmente um gostinho todo especial.
Bom, eu sou suspeito para falar de viajar e escalar, pois isso é o que
eu mais gosto de fazer, e já estive em mais de 10 países escalando e em
muitos points alucinantes desse Brasilzão. Em resumo, recomendo total,
vamos viajar galera, que é o bicho.
4. Para você, o que é mais importante :
a superação individual, a escalada de graus mais altos, a busca por
novos desafios ou você vê a escalada como um meio de vida, uma forma
contemplativa de estar em contato e em movimento com a natureza ? Em
outras palavras, porque você escala ?
A pergunta começa da maneira adequada para ela: "para você o que é mais
importante", pois acredito que a busca dentro da escalada e montanhismo
é totalmente individual. Pessoas diferentes buscam coisas diferentes
escalando. Dentro da minha tragetória da escalada, olhando para trás,
vejo que já priorizei algumas coisas e em outras épocas priorizei
outras. Para mim hoje a escalada é uma forma de se conhecer melhor e de
ter motivação para realizar coisas. Há gente que pratica a escalada sem
o objetivo de se colocar perante desafios e trabalhar para superá-los.
Outros não, buscam, dentro dos limites pessoais de cada um, sempre
estar se colocando perante um novo desafio. Enfim, pessoas são
diferentes mesmo e não acredito que haja um jeito certo ou errado de se
encarar a escalada. Cada um que encare como for, estando feliz e se
divertindo, acho que é essa a idéia. A intensidade com que cada um
pratica também varia, e pode inclusive variar ao longo de nossa vida de
escalador. Acho isso perfeitamente natural. Eu pessoalmente acho que
dentro da minha busca na escalada e na montanha é importante eu
fomentar, alimentar, desafios. Sobre a escalada ser um estilo de
vida... bom, não sei se é um "estilo", mas definitivamente ela permeia
a minha vida. Sem a escalada certamente minha vida seria diferente.
Outro ponto fundamental para mim é o contato com a Natureza. Adoro a
Natureza, seja o mangue, o Mar, a caverna... Mas onde eu realmente me
sinto em casa e super abençoado é na Montanha. Assim a escalada e a
proximidade com a Natureza para mim são indissociáveis. Essa associação
que de certa forma faz com que a escalada na resina não seja um fim em
si só, pois falta um ingrediente fundamental que é a Natureza.
5. Para as novas gerações de
escaladores, muitos deles oriundos de ginásios e academias "indoor",
que mensagem você deixaria ?
Putz, sei lá, na verdade a mensagem não é para os escaladores de
ginásio, nem para os de rocha, mas sim para todo mundo, escalador ou
não. Minha preocupação é que grande parcela da humanidade se distanciou
da Natureza, vê ela como algo a parte onde ele como humano "está" ou
"vive". Essa é uma percepção errada, pois na verdade *fazemos parte*,
somos uma célula de um organismo muito maior. Muitas pessoas já não
conseguem olhar para uma água limpa de um rio desviando, envolvendo,
uma pedra e observar isso por mais de 10 segundos e ver a beleza e a
força que está por trás disso tudo. As pessoas não conseguem mais
perceber/sentir a energia que está fluindo ao seu redor, e até mesmo
dentro dela própria. Dentro desse contexto, eu diria que quem só escala
na resina de certa forma está fazendo uma opção que não a leva de uma
forma muito direta à se integrar novamente com essas energias da
Natureza através da escalada. Mas é importante deixar claro que sempre
as escolhas de cada um é algo pessoal, e não estou querendo dizer que
acharia melhor que ele fosse pra rocha. Cada um tem que saber qual o
melhor pra si. Apenas considero que ir pra rocha é uma oportunidade de
comunhão com a Natureza e aprendizado, e que é super favorecida pela
escalada (e por outras atividades também). Existem outros caminhos de
buscar essa ligação com a Natureza que o Homem já teve, a escalada não
é a única.
6. Para você, "escalada é ...."
Acima de tudo a escalada é parte da minha vida. Uma parte bastante
importante. Difícil até tentar racionalizar o porquê disso. Algumas
coisas são obvias, como a galera e o tipo de relação humana que se
constroi rapidamente com outros membros aqui da nossa egrégora. Quem
não tem aquela história que viajou pra não sei onde, e ficou hiper
brother de algum outro escalador, que fizeram coisas juntos, um ajudou
o outro... Assim, escalar para mim é algo que tem uma dimensão humana
forte, reforçada por essa questão da parceria, da confiança mútua.
Escalar é uma forma de se colocar frente a situações desconhecidas e/ou
que você não tem domínio completo como o que você tem sobre o controle
remoto da sua TV, entre outros exemplos... Assim mexe com sua
imaginação, com sua criatividade, com sua postura perante os desafios e
problemas. Escalada é um caminho de auto conhecimento, pois através
dela você não tem como negar para sí mesmo coisas que você pode negar
ou ocultar de todo mundo. Muitas vezes isso é como um tapa na sua cara.
Essa é boa, escalar é muitas vezes um tapa na sua cara. Escalar é
também um esporte, mas se me perguntarem isso eu nego, pois senão daqui
a pouco vão conseguir fazer uma lei que você vai ter que ter um prof de
Educação Física para escalar... Escalar é um esporte, mas não é um
esporte qualquer, e tem muitas coisas que o tornam muito diferente de
outras modalidades esportivas.
Quem quiser saber um pouco mais das minhas escaladas e atividades convido a visitarem meu site:
http://MauricioClauzet.Pro.br
Buenas olas
ToNTo
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Em 2007 o Tonto fez uma tentativa de escalar o Makalu, a 5a. maior montanha do mundo.
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Confira um breve relato da expedição, sob a ótica do Maurício Clauzet e publicado no site da empresa de roupas técnicas para montanha "Solo":
Com o apoio da SOLO, que providenciou um guarda-roupa completo para mim, fui em 2006 realizar um sonho, que era tentar escalar no Himalaya, alguma das 14 montanhas que tem mais que 8000m de altitude.Toda expedição foi uma grande aventura, mesmo antes de se tornar real e ainda estar no campo mental da vontade... em meados de 2006 o Irivan Burda e o Waldemar Niclevicz me convidaram para participar de uma expedição para escalar o Makalu (8413m, a quinta montanha mais alta do mundo, atrás do Everest 8611m , K2 8611m, Kanchenjunga 8586m e Lhotse 8516m). O esquema seria de uma expedição barata, low profile, e que cada um pagaria uma parte do racha dos custos da expedição com recursos próprios. Enfim, cada um que se vire para pagar a sua parte.
O começo da aventura foi não ter nem o tempo nem o dinheiro para ir na expedição, só a fé de que tudo dá certo no final, se não deu certo ainda. No fim tudo foi se acertando, sai do trabalho, tive parte dos custos coberta por um patrocinador, a Axia Consulting, o restante eu pude cobrir do meu próprio bolso. Tive o apoio da Solo que resolveu toda minha questão do vestiário, fora as peças muito específicas, como o macacão de pluma. E quando me dei conta estava embarcando para Kathmandu.
Em Kathmandu encontrei o Irivan e a Márcia, e cuidamos dos finalmentes organizacionais da expedição, pesquisamos e compramos o equipo que faltava, oxigênio, estacas de neve, corda...
Sobrou um tempinho e nós três aproveitamos para fazer um trekking clássico do Nepal, o trekking do Vale de Lang Tang. Lindo, e foi ótimo para respirar um pouco de ar da montanha e sair do agito e barulheira de Kathmandu. Este vale é lindo, e nosso ponto final foi o vilarejo de Gyaltsan Gompa (3900m). Aproveitamos para subir uma montanha próxima, o Tserko Ri, com 5000m.
Voltando para Kathmandu, foi bem corrido, fomos buscar o Waldemar no aeroporto, organizar toda tralha, e depois dias depois estávamos voando em um pequeno avião para Tumlingtar, a 400m de altitude, onde começa a longa caminhada de 122Km, que nos tomou 10 dias, até o Campo Base do Makalu, a 5700m de altitude.
A caminhada foi dura, também pegamos trechos com tempo ruim, nevasca, frio, chuva... Mas ao mesmo tempo estávamos vendo um Nepal super tradicional. Esta caminhada não está nos trekkings famosos e clássicos do Nepal, como o do Everest, o do Anapurna e o próprio Lang Tang. Percorremos lugares que não vivem do turismo, simplesmente porque não há turistas, apenas umas poucas expedições por ano. Incrível passar por vilarejos onde a molecada ficava espentada por você ter pelos na perna. É um outro mundo, e lá você é o E.T.
Até o quarto dia de caminhada, passamos por alguns vilarejos. Do quarto dia em frente, cruzamos 3 passos de mais de 4000m, e daí para frente não há mais vilarejo algum. Só acampando e carregando todas suas provisões. E que não é pouco, pois além de todo equipo de escalada, ainda é necessário levar toda infra estrutura do campo base (cozinha, barraca refeitório, etc etc) e comida para os 2 meses que vamos ficar fora. Na ida foram 54 carregadores. Cada um leva em torno de 25 a 30Kg. Alguns levam mais que 30Kg!!! É impressionante, e sempre levam a carga em um cesto que é carregado através de uma fita apoiada na testa.
O Campo Base do Makalu, a 5700m, é um dos campo base mais alto de todos os 8000m. O último dia de aproximação, que sai de 5000m e vai até 5700m é bem sacrificado e vai por uma trilha indefinida sobre uma mistura de glaciar e moraina. É um trecho perigoso, pois quando esquenta o dia blocos e pedras se desprendem do gelo e vão diretamente na direção de onde passa o caminho. É bom passar cedo, no frio da manhã, e rápido, sem enrrolar nem parar. Na ida quase me dei mal, estava caminhando por uma encosta inclinada e subi em um bloco do tamanho de uma geladeira. O bloco inteiro então girou e começou a descer a piramba. Eu caí de costas no pedregulhal da piramba, e por sorte a mochila amorteceu a queda e a geladeira de granito não passou rolando por cima de mim. Isso porque a gente nem tinha chegado ao campo base... e fiquei imaginando as consequencias de por exemplo quebrar uma perna alí, a 6 dias (com 3 passos) do vilarejo mais próximo, ou há 2 dias do lugar mais próximo que o helicóptero pode pousar. Nessa hora senti o real comprometimento da escalada que estávamos começando, e ficou muito claro que é fácil abotoar o paletó de madeira em um 8000m. Não pode dar mole de jeito nenhum.
O campo base é alucinante. Em um promontório de pedra no meio do glaciar. De um lado a vista incrível do Makalu. De outro todo cordão de montanhas do vale Barum, e atrás um glaciar meio em cascata com seracs de mais de 30 metros e formas incríveis. Super astral, principalmente porque estávamos sozinhos lá e assim ficaríamos, pois nesse ano a nossa expedição seria a única a tentar o Makalu. Por um lado era fantástico estar lá só a nossa expedição, por outro lado significava mais trabalho duro, pois todo trabalho de levar as cordas para cima e fixá-las nos trechos mais perigosos ou técnicos em geral é dividido entre todas expedições, e no caso, faríamos tudo sozinhos. Outro ponto é o de abrir o caminho e manter ele aberto. No nosso caso, cada vez que nevava, tínhamos que gastar bastante energia abrindo novamente o caminho na neve fofa, que em uma montanha com mais gente também acaba sendo um trabalho mais distribuído. Por outro lado, este ano o Everest recebeu 51 expedições e a maioria delas expedições grandes, de muitos escaladores e sherpas, não apenas 5 como a nossa. Aí já é o extremo oposto, onde você encontrará todas cordas fixadas e o caminho sempre aberto e marcado, mas por outro lado acho que é difícil desfrutar da paz da montanha assim com tanta gente, e surgem outros perigos também pelos "congestionamentos" nos trechos mais duros e técnicos.
No Makalu pode-se optar por 3 ou 4 acampamentos para cima do Campo Base. Nós optamos por 3. E logo inciamos o trabalho de abrir o caminho e instalar o Campo 1. Depois disso baixamos e ainda mais uma viagem para abastecer o Campo 1 com mais material e tentar equipar com cordas o Makalu La. "La" significa passo ou colo em Nepalês, e este é um grande obstáculo na escalada do Makalu, uma encosta mixta, de rocha gelo e neve, íngreme e que vai de aproximadamente 6700m até os 7300m do colo. Nesse dia consegui chegar até próximo dos 7000m e o Irivan e o Waldemar conseguiram subir mais e fixar mais cordas, trabalho duro, pois o tempo deteriorou bastante e nevava e ventava. Apesar da garra dos 2 ainda ficaram longe do topo do Makalu La. O clima não colaborou muito nesta temporada, e praticamente todos dias começavam azuis, lindos, mas entre meio dia e 3pm já estava fechado e para cima dos 6500m sempre nevando. Essa foi a rotina de todos dias.
Na terceira subida ao Campo 1, com a expectativa de chegar ao Makalu La e colocar o Campo 2 lá nos 7300m, o tempo piorou muito e temos nevasca a noite inteira, assim decidimos descer ao Campo Base e não conseguimos fazer nada para adiantar no Makalu La.
Em uma dessas idas e vindas para o Campo 1, em um lugar que já havíamos passado muitas vezes, o Irivan cai em uma grande greta, e foi um grande sufoco. Por sorte não rolou nada sério, mas poderia ter sido muuuuuuuito sério. Anjo da guarda forte o do Irivan, e grande cagada nossa de andar desencordado no glaciar... Mas no entanto, no fim, para escalar um 8000m vai haver situações em que você terá que andar desencordado no glaciar... Eu mesmo fiz esse mesmo caminho depois não só desencordado como sozinho. Desnecessário dizer que fiz, mas fiz com o cú na mão.
Nosso tempo já está se esgotando, e já temos uma data marcada que vão chegar os carregadores par irmos embora. Essa será a última ida ao Campo 1... E ou sai o cume agora, ou não sai mais neste ano. Eu já tinha consciência que para mim seria virtualmente impossível o cume do Makalu naquela altura do campeonato. O Irivan e o Waldemar estavam bem melhor que eu fisicamente, escalando mais rápido e com uma disposição de encarar subir mesmo com o tempo deteriorado que eu na minha condição não estava encarando mais. Meu plano era subir o máximo que eu conseguisse mas ao mesmo tempo que ao desistir que eu não comprometesse uma boa tentativa dos 2, que quem sabe teriam alguma chance. Esperava chegar até o Campo 2, no topo do Makalu La a 7300m pelo menos.
Saímos do Campo 1 como de costume super cedo, 4am. Dia querendo amanhecer, limpo, vento médio e constante e super frio e azul como toda manhã. Saímos encordados os 4, eu Irivan, Waldemar e Pemba Sherpa. No começo da rampa mais ígreme do Makalu lá, a cerca de 6800 eu tive que parar. Não seintia muito frio no corpo como um todo, mas minhas mãos estavam duras de frio. Quando fui abrir a mochila percebi que estava com problemas de coordenação com as mãos. Não conseguia fazer encostar o polegar no indicador, parecia simplesmente que a mão era de outra pessoa e não a minha, ela não obedecia. Percebi que a situação estava meio complicada, e que seria complicado eu prosseguir assim, pois como conseguiria manusear a corda e os equipamentos dalí por diante no Makalu La? Decidi que ia voltar, e me ajudaram a desencordar. Eles tinham pressa pois sabiam tudo que iam ter que encarar ainda hoje para chegar no lugar do Campo 2, fora a história do tempo sempre melar no fim do dia. Assim os 3 seguiram para cima e eu ia para baixo. Tive que usar as 2 mãos para abrir a fivela tridente da mochila e pegar mais uma luva. Depois eu vestia a luva mas não conseguia fazer um dedo entrar em cada buraco, sempre tinha um buraco da luva que acabavam entrando 2 dedos juntos. Fiquei um pouco preocupado de estar lá nessa situação, e agora sozinho. Estava levando o oxigênio na mochila, e resolvi que talvez fosse uma boa dar uma mamada e descer tranquilo pro Campo 1. Com muito custo consegui colocar a máscara, mas o pior é que por causa da mão não consegui abrir o registro do regulador. Nem usando as duas mãos. Nessa hora fiquei preocupado e tudo que pensei é que precisava chegar logo no Campo 1, no bote salvavidas que é a barraca........ E afinal estava lá sentado super incomodo e perigoso na piramba, e parado, o frio só tinha aumentado. Enfiei a máscara na mochila e me pus em marcha. No começo foi tudo bem, mas no final, já perto da barraca, eu estava já andando com um pouco de sacrifício. Cheguei na barraca, que felicidade, saí do vento e me enfiei com toda roupa que estava no saco de dormir. Percebi então que cheguei lá na beira da hipotermia. Tinha muito frio, e por causa do frio estava com dificuldade de controlar a respiração. Só fui realmente me sentir "quentinho", quando bateu o sol na barraca. Nessas Irivan, Waldemar e Pemba continuaram tocando para cima... E chegaram em meio ao tempo ruim e nevasca já de noite no topo do Makalu La para colocar a barraca no Campo 2. Nevou bastante durante essa noite. Eu permaneci no Campo 1, a 6600m, e no dia seguinte os 3 saíram com a barraca para tentar chegar ao Campo 3, a 7800m e assim estar em condições de fazer a tentativa de cume. Em função da neve fofa, ele avançam lentamente, e colocam um acampamento 3 intermediário não previsto, a 7500m. No dia seguinte resolvo descer sozinho do 1 pro base, e eles seguem mandando para cima, e finalmente plantam a barraca onde devia ser o campo 3 a cerca de 7700m. Meu caminho de volta ao Campo Base sozinho foi duro, pois estava com uma mochila hiper pesada, afinal já estávamos desfazendo o Campo 1... Tinha que trazer tudo que pudesse e que eles não fossem precisar ao retornar de cima para o Campo1. Nessa minha volta sozinho, enfiei uma perna em uma greta e depois em outra até a cintura. Senti o risco e o medo de não chegar até o Base... No fim tudo deu certo e cheguei ao Base me arrastando de cansado com minha mochila porpeta de chumbo.
No Base com a Márcia passamos a acompanhar pelo rádio os caras lá em cima. No dia seguinte Irivan e Waldemar partiram 4am em direção ao cume. No entanto, eles logo perceberam que com o tanto de neve fofa que havia, e assim a velocidade lenta que eles avançavam, que não seria viável o cume. E assim voltaram.
Bom, contando assim parece tudo muito simples e tal, mas na real é muita história e é uma experiência riquíssima. Infelizmente é muito pouco descrever 3 meses de uma aventura como essa em 1 ou 2 páginas. Foi tanto tempo que na volta, lugares que passamos caminhando no gelo e na neve, no branco total indo para o Base, na volta viraram um lindo bosque de Rododendros e um monte de sague suga.
Fico muito grato de termos todos voltado com vida e inteiros da expedição, e se não saiu o cume, boas, a experiência vivida já vale por si só, mesmo sem cume.
Para mim a aventura ainda continuou... depois do Nepal, no caminho de volta para o Brasil, ainda parei na Espanha e fiz uma trip de bike por 3 meses nos Pirineus, as montanhas que definem a divisa entre Espanha e França, mas isso já é outro capítulo!
Buenas olas
Maurício Clauzet "ToNTo"
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