A coisa que a Dona Inês não falou
Por Luiz Makoto Ishibe

Tenho a impressão de que nunca fui uma pessoa muito alinhada com esse tal de senso comum. Basta dizer que decidi ser um alpinista profissional no Brasil dos anos 80. Desde moleque imaginava que o mundo pudesse ser diferente em vários aspectos. As contradições e conflitos entre o que me era dito e o que via na minúscula fração do mundo que me era acessível eram evidentes. Imagino que as crianças de hoje sofram muito mais do que eu com toda a facilidade de acesso à informação.

Quando digo isso, não me refiro aos assuntos complexos, mas aos conceitos que deveriam ser básicos, como a democracia. De um lado se fala em justiça, mas então ficamos sabendo que há pessoas morrendo de fome enquanto outras, ligadas aos órgãos públicos, estão desviando dinheiro que supostamente deveria ser gasto para atenuar o sofrimento dos necessitados. E com o passar do tempo acabamos descobrindo que estas coisas acontecem até com pessoas que conhecemos ou que são relativamente próximas de nós.

Essas pequenas coisas me aborreciam bastante, a ponto de chegar a considerar seriamente a possibilidade de morar em algum país estrangeiro. Conhecia gente, tinha contatos e possibilidade de trabalho. Era só cair fora.

Um dia estava conversando sobre essas coisas com uma senhora chamada Dona Maria Inês, e ela me disse: "Makoto, se você é contra alguma coisa, a primeira coisa que você deve fazer é evitar ser vítima dela, pois só assim você terá forças para enfrentá-la.

A Dona Maria Inês não tem idéia de quanto ela me influenciou. O mais irônico de tudo é que faz anos que não a vejo, mesmo sendo uma das pessoas em quem freqüentemente estou pensando. Quando a minha mãe morreu, ela me mandou uma miniatura de barquinho de cristal. Tenho a certeza de que ela fez isso para me lembrar de que não podemos nos deixar abater com acontecimentos naturais da vida, por mais duros que sejam. Temos que continuar remando, se queremos chegar em algum lugar.

Hoje a Dona Maria Inês é responsável por grande parte do trabalho da minha vida. Sou contra a pobreza, ignorância, hipocrisia, mediocridade e tantas coisas mais além das questões éticas. Tenho constatado que é realmente difícil lutar pra não ser vítima de questões dessa natureza.

Custei um tempo para interpretar o conselho da Dona Maria Inês. Um dia me dei conta da frase “a primeira coisa...”, sendo que ela nunca me falou do segundo passo. Hoje entendo que a forma mais fácil de manifestar indignação é protestando. Vemos exemplos acontecendo em questões como ambientalismo, injustiça social, controle de criminalidade e violência, ética na política e tantas coisas mais.

Se você tiver a capacidade de romper as barreiras impostas por essas questões, vencer o sistema e conseguir passar para o outro lado, a sociedade passa a te considerar uma pessoa sensata e produtiva. O pobre que virou empresário, o favelado que virou cientista ou acadêmico, a seringueira que virou ministra e assim por diante.

O problema é que a maioria das pessoas com sucesso dentro do sistema, mesmo tendo a origem numa casta de excluídos, acabam se acomodando com o “lado bom da coisa”. Tudo bem, não ser vítima da questão e vencer dentro do sistema é o primeiro passo. E é aí que entra o segundo passo sobre o qual a Dona Maria Inês nunca falou: mesmo estando na situação de poder gozar do lado bom das suas conquistas, manter a retidão dos princípios e dizer – “eu tenho a capacidade de superar estes problemas dentro dos moldes tradicionais, mas ainda assim sou contra e tenho uma proposta alternativa”.

Um dia um amigo me falou que tudo isso era um tipo de “wishful thinking” (algo como a eterna busca dos sonhos). Pois digam o que quiserem. Se eu não acreditar no meu taco, quem vai acreditar? Mão na massa, rapazeada, que a vida é curta demais para perder tempo com discussões improdutivas.


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