K2 (8611m) também conhecido como Chogori
A Montanha das Montanhas

Localização: Karakoram Baltoro Mustagh,
Paquistão
35°53'N 76º31'E

Fama é a sombra de uma paixão que fica sob a luz.
Khalil Gibran

Vida significa aventura. Amar é arriscar. A pessoa que não se arrisca não vive realmente.
Charles Houston

Somente quando eu estiver seguro de mim mesmo e não mais questionar quem sou, serei verdadeiramente minha própria pessoa.
Max Stirner

Chogori - "O cume solitário"

Em 1979, um ano depois de ter escalado o Everest sem oxigênio, fui para o K2 - ou Chogori, como é conhecido pelos Baltis locais. Não fui somente por querer fazer uma ascensão sem oxigênio deste oito mil metros, mas sim por me sentir pronto para avançar mais um de meus 'passos'. Meu novo plano era tentar a segunda montanha mais alta do mundo com um pequeno grupo e por uma rota difícil. E para isto, escolhi o Pilar Sul, aquela aresta que se precipita do cume numa linha reta até o Glaciar Godwin-Austen, e a qual batizamos de 'Magic Line'.

'Desenhar uma linha' como esta em uma grande montanha, para tentar revelar uma possibilidade de ascensão não considerada até então, não é simplesmente um processo técnico, é um ato de criatividade que me fascinou por muitos anos. Você não consegue ver a linha, é claro, mas independente disso ela está lá, existe. Uma vez concebida, se transforma numa 'linha viva' - o nada se concretiza em algo porque foi imaginada sua existência; a rota força ela própria a se tornar uma escalada.

Junto comigo nesta escalada do K2, estavam os escaladores italianos Renato Casarotto e Alessandro Gogna, o tirolês do sul Friedl Mutschlechner, o alemão Michl Dacher e o austríaco Robert Schauer. Nosso acompanhante oficial era Mohammed Tahir, e Joachim Hoelzgen. Um jornalista da revista de negócios Der Spiegel, também veio conosco.

Perdemos muito tempo na viagem. Naquele tempo não se podia viajar de ônibus ou jipe de Rawalpindi, mas somente de avião da capital paquistanesa até Skardu, o ponto inicial da expedição. Isto envolveu muita espera, mas então, quando finalmente alcançamos o Glaciar Baltoro no começo de junho, foi somente para encontrá-lo coberto em neve profunda. Estávamos muito mais atrasados do que planejamos quando chegamos ao pé da montanha.

Nossa idéia original era dar a volta para o oeste do K2 e estabelecer o Acampamento Base atrás de Angelus, um dos cumes subsidiários naquele lado da montanha. De lá, esperávamos cruzar os glaciares Savoia e Negrotto até a cresta ou col entre Angelus e o K2, onde está o início do Pilar Sul.

Armamos um acampamento intermediário no Glaciar Godwin-Austen, no mesmo local que em 1954, 25 anos antes de nós, a grande expedição italiana acampou para fazer a primeira ascensão do K2. Nos movendo desta 'base sul' para o nosso proposto Acampamento Base, um de nossos carregadores morreu num acidente.

Eu havia estipulado quando saímos naquela manhã que nenhum dos homens deveria sair fora da trilha formada, porque eu sabia que o último trecho da rota era muito perigoso. Havia muitas gretas à esquerda e à direita do caminho. Eu estava na frente procurando por uma passagem segura quando um carregador, desrespeitando o aviso, se desviou um pouco fora da rota e caiu em uma das gretas. Estávamos todos lá, para ajudar, e imediatamente tentamos um resgate. Robert Schauer rapelou até o homem, mas ele já estava morto. A queda deve tê-lo matado.

É frequentemente sugerido que expedições devam ser abandonadas quando um membro morre. Isto é algo que jamais fiz, em parte porque os acidentes em que estive envolvido - no Nanga Parbat em 1970 e Manaslu em 1972 - ocorreram já no final da expedição, quando o final era só uma questão de tempo. Em qualquer caso, eu não acredito que seja de qualquer benefício para a vítima que uma expedição seja abandonada depois de sua morte. Existem algumas equipes que desistiriam se um sahib - um de seus membros europeus - sofresse um acidente, mas que não deixariam de seguir depois da morte de um carregador. Nunca fui capaz de entender tais anacronismos.

A morte de nosso carregador chocou todos nós. Passamos a notícia à seus parentes e reportamos o acidente às autoridades competentes em Rawalpindi. Imediatamente tomei a decisão de chamar todos para fora do Glaciar Negrotto, de volta ao nosso Acampamento Base sul. Lá, estaríamos à salvo de outros perigos.

K2 é a segunda montanha mais alta do mundo, mas talvez a mais difícil. Percebemos que teríamos que abandonar nosso plano de escalar a 'Magic Line', se não quiséssemos ser derrotados antes de começar. Não havia mais tempo suficiente para todo o trabalho de preparação; e o ponto de onde esperávamos nos lançar para nossa tentativa provou não ser bom. Além disso, sabíamos que uma expedição francesa iria chegar em poucas semanas com um objetivo similar em vista. O orçamento deles era dez vezes maior que o nosso, e eles tinham muito mais escaladores. Se, estando no meio do caminho para o Pilar Sul, fôssemos forçados a descer para dar passagem a eles, tudo que teríamos feito seria preparar o caminho para eles. Não me agradava a idéia de dividir uma primeira ascensão desta maneira. Eu teria que renunciar à rota. Com exceção de Renato Casarotto, que queria ficar com o nosso plano original mesmo sendo naquele momento o mais fraco entre nós, os outros concordaram que deveríamos transferir nossa atenção para a Aresta Abruzzi, a rota da primeira ascensão. Ainda tínhamos a chance de fazer algo novo: o K2 nunca havia sido escalado por uma equipe tão pequena como a nossa.

No lugar de arestas encontramos cordas deixadas dois anos antes por uma expedição japonesa, mas a maioria das proteções teve que ser colocada novamente. Levantamos três pequenos acampamentos avançados, e fixamos cordas até o topo da Pirâmide Negra a 7400m, assim poderíamos ser capazes de encontrar nosso caminho de volta mesmo na mais violenta das tempestades. De lá, em 11 e 12 de julho, no primeiro período de bom tempo, e em estilo alpino, Michl Dacher e eu escalamos até o cume do K2, com um único bivaque na rota.

Este bivaque foi acima do grande ombro, não muito longe do ponto onde em 1954 Walter Bonatti e o carregador hunza Mhadi passaram a noite ao relento, um ao lado do outro, depois de carregar para cima o suprimento de oxigênio para o esticão final da equipe que escalaria até o cume.

A noite foi fria, mas a manhã trouxe um esplêndido dia. Michl e eu saímos da barraca e escalamos a rampa propensa a avalanches que leva ao gargalo. Esta estreita passagem entre uma protuberância vertical de gelo e uma rocha íngreme nos forçou a escalar saindo para a esquerda até alcançarmos o pé da enorme pirâmide com cume coberto de neve.

Levou horas para trabalhá-la. Era um dia maravilhoso, sem uma nuvem. Como uma foto em preto e branco, a montanha e os vales iam se deitando abaixo de nós. Não havia verde, nem vermelho e nem amarelo, somente o azul do céu. Quanto mais alto escalávamos, mais intenso o azul se tornava, até quase ficar preto. Mas onde estava o cume? Quando já havíamos desistido de alcançá-lo, de repente, vimos que estávamos quase lá, numa aresta levando por um caminho plano. A aresta do cume! Um pouco mais tarde estávamos em pé no ponto mais alto sob a luz da tarde.

Não ficamos lá por muito tempo. Antes de escurecer, havíamos voltado pela mesma rota para nosso último bivaque. No dia seguinte caminhamos com dificuldade, descendo através de neve profunda e nuvens espessas na direção do Acampamento 3. No caminho encontramos com Gogna, Schauer e Mutschlechner que estavam esperando por nós. Eles esperavam ir ao cume, mas desistiram da idéia quando o tempo piorou. Juntos descemos ao Acampamento Base.

O trecho da descida do nosso bivaque até o Acampamento 3 se mostrou o mais crítico da expedição. Michl e eu poderíamos facilmente nos perder na névoa. Estávamos sob constante ameaça de avalanches, e fortes rajadas de vento nos arrastavam enquanto descíamos pouco a pouco. Ficamos extremamente aliviados quando escutamos nossos amigos chamando e percebemos que estávamos perto do acampamento. Eles nos levaram de volta às barracas. Só existe um caminho para baixo da Pirâmide Negra, mas não é fácil encontrá-lo.

Descemos do topo até o fundo da Aresta Abruzzi num único dia, e logo estávamos de volta no pé da montanha. Esta última parte, protegida em muitos lugares por cordas fixas, não nos deu maiores problemas. Nossos passos já haviam desaparecido, mas mesmo assim encontramos nosso caminho sem problemas. Cruzamos então o glaciar sem nenhuma desventura e à noite estávamos de volta ao Acampamento Base.

K2 é uma montanha das mais bonitas, mas também muito perigosa. As razões para algumas das muitas tragédias que ocorreram lá continuam um mistério. Tirar muitos escaladores fora da montanha em segurança requer muita sorte.

Ser uma pequena equipe significou poder escalar o K2 rapidamente. Escalar a parte mais alta em estilo alpino, como fizemos, foi realmente um teste. Naquela época, eu ainda não havia testado minhas idéias de escalar um dos grandes oito mil metros por este método leve. Mas agora me parecia realizável.

A expedição para o K2 foi a quarta viagem que organizei para um oito mil metros (vindo depois do Hidden Peak, Dhaulagiri e solo no Nanga Parbat). No começo não era fácil conseguir financiamento para essas expedições, mas agora eu estava mais experiente com relação a isso. Também meus feitos estavam fazendo a diferença.

Depois do sucesso no Everest, a mídia e patrocinadores tinham confiança em mim. Assim, obtive um contrato para cada viagem, juntamente com um suporte das firmas de equipamentos. Isso provou a possibilidade de organizar expedições através deles ano a ano. As pessoas que vinham comigo pagavam apenas a parte do custo do transporte - ou nem isso. Isso era mais simples do que todos contribuírem com sua parte. Eu era agora capaz de levantar sozinho o montante de custos da expedição inteira.

Num mundo ideal, eu preferiria não ser carregado com a responsabilidade de uma expedição. Gostaria de estar num grupo que fizesse todas as coisas junto; ter um administrador para tomar conta de toda organização e finanças; escolher um objetivo que fosse igualmente importante para todos; permitir a todos absoluta liberdade de empreender publicidade? (filmes, fotos, reportagens), e um voto democrático para decisões de escalada.

O Karakoram mudou muito desde 1979, não apenas no K2, mas também nos outros oito mil metros. Como resultado basicamente de uma competição entre muitos alpinistas e frequentes opiniões infladas, foram feitos códigos de ética sobre isso que achei nauseantes. A qualidade da escalada depende da relação homem/montanha. Quantidade é o que muitas pessoas hoje esperam encontrar nas suas relações com competições. Tempos menores, e a mentalidade da 'escalada sob qualquer circunstância' assumem a maior importância. Os fatores de risco crescem. Os acidentes no K2 no verão de 1986 demonstram isto.

O aumento do número de expedições aos picos de 8000m não garante que este tipo de escalada tenha se tornado mais seguro. Com muitos grupos escalando a mesma rota ao mesmo tempo, todos são impelidos a situações que são potencialmente mais perigosas, mais ameaçadoras da vida. Se escaladores que não estejam em suas melhores condições físicas e mentais se depararem com essas situações, a possibilidade de morrerem aumenta dramaticamente. Olhando agora os acidentes que ocorreram no K2 durante 1986, não gostaria de lançar nenhuma responsabilidade individual. Mas continuo convencido - e minhas experiências no Lhotse certamente não mudaram minhas idéias a esse respeito - que qualquer um que queira escalar um oito mil deve ser responsável pelo preparo de sua própria rota. Quem quer que tenha montado seu próprio acampamento, instalado suas próprias cordas fixas, alcança uma maior intimidade com a montanha. Ele não precisa que lhe digam que riscos está tomando. A dificuldade da montanha, a altitude, nossa própria limitação pessoal não nos permite ir a lugares acima de nossa capacidade sem ajuda de fora.

Mas se a rota já foi preparada, de baixo até o topo, e não há barracas e depósitos suficientes no caminho, isto induz os menos experientes, os escaladores mais fracos, à zona da morte também. Que isto acontece literalmente nas costas de outros é de pouco interesse. Como 'parasita', você precisa se esforçar menos para escalar mais. Se o tempo então de repente muda, contudo, se as forças falham, então aquele escalador está sendo carregado cegamente em direção a um desastre.

Existem agora meia dúzia de rotas diferentes no K2; e ele está sendo escalado até mesmo pelo lado chinês. Por que a maioria das pessoas ainda, entretanto, sobem pela rota normal? É verdade que algumas rotas novas frequentemente tem algumas expedições tentando ao mesmo tempo - como aconteceu no Pilar Sul, a 'Magic Line', em 1986 - enquanto outras possibilidades continuam sem tentativa. Foi uma grande tragédia que a 'Magic Line' tenha sido tentada por expedições sobrepostas. Verdade é que ela foi escalada pela primeira vez, não por um, mas por três grupos em paralelo. Renato Casarotto estava entre eles. Ele morreu, foi um dos 13 escaladores que morreram no K2 naquele verão sombrio.

Eu convidei Casarotto a vir comigo na minha expedição em 1979, porque senti naquela época que ele era um dos escaladores clássicos mais fortes da Europa. Ele havia feito arrojadas primeiras ascensões nos Alpes e na América do Sul. Mas na nossa expedição ele mostrou vagarosamente ser até certo ponto irresponsável; e essa foi uma das razões porque desisti da idéia de escalar o Pilar Sul. Não parecia que eu podia contar com ele.

Em 1986 Casarotto voltou ao Pilar Sul do K2. Se ele queria acertar uma velha dívida ou se desde o começo era importante para ele fazer a primeira ascensão da 'Magic Line', eu não sei. Só sei que ele morreu. Renato Casarotto, por quem eu tinha o maior respeito, caiu numa greta no caminho de volta, não muito longe do Acampamento Base, e morreu. Foi uma ocasião muito triste para nós que passamos dois meses juntos na mesma montanha sete anos antes.

Depois do K2, me senti mais forte? - muito mais que depois dos oito mil metros anteriores - o que significou ficar no cume?. Der Spiegel relatou a expedição e em discussões em televisão a meu respeito. Obter sucesso em tantos cumes me trouxe considerável popularidade, mas também hostilidade. No meio dos anos 70, quando falhei no Makalu, Lhotse e Dhaulagiri, a censura crítica morreu um pouco. Parecia que as pessoas tinham algum prazer no fato de que eu aparentemente havia perdido a habilidade para escalar oito mil metros. Mas em 1978, quando escalei dois oito mil um depois do outro - Everest sem oxigênio e o Nanga Parbat solo - a atmosfera cresceu fria novamente. E eu também.

No verão de 1979, depois do K2, eu experimentei uma nova onda de antipatia; me senti mais sozinho nesta torre de celebridade que antes. Mesmo amigos se desviaram para longe de mim. A imprensa reagia criticamente. Embora o K2 nunca ter sido escalado por um grupo tão pequeno antes, nem tão rápido, esta expedição foi interpretada como um 'desvio' de meu estilo usual, mesmo tendo escalado a parte superior sem máscaras de oxigênio, acampamentos pré estabelecidos e cordas fixas. Até mesmo operamos sem Sherpas. Nunca pretendi ser herói da nação e estava acostumado com a rejeição. Da mesma forma, nem sempre foi fácil lutar contra tanto mal entendimento. Não sentia grande vontade em tentar me acertar com a crítica; achava melhor me manter quieto. Reconhecimento era menos importante que a necessidade de me manter verdadeiro para eu mesmo, especialmente quando nadando sozinho contra a corrente. Estes passos aprendi no montanhismo, nunca se deve dar dois passos ao mesmo tempo. Se você quer empurrar mais seus limites, deve fazê-lo vagarosamente, furtivamente, pouco a pouco. Se você vai muito rápido, e tenta dar passos maiores do que pode, cedo ou tarde irá tropeçar.

No Everest éramos uma equipe grande e forte. Construímos toda uma cadeia de acampamentos antes de Peter Habeler e eu, na nossa tentativa sem oxigênio, estarmos na posição para sairmos para o cume. No K2, não fomos os primeiros a alcançar o cume sem oxigênio - foi feito um ano antes pela expedição americana de Jim Whittaker, escalando o lado nordeste - mas fomos a primeira equipe pequena a operar sem oxigênio artificial. Hoje, o K2 já foi escalado em menos de 24 horas; esta vem sendo uma maneira de atacar o cume sem mochila, numa via preparada e protegida com cordas por outros escaladores. Nossos métodos não significam nada a ninguém mais. O que realmente me aborrece, até mesmo mais que esta corrida pelos oito mil metros ('Quem pode chegar ao cume mais rápido?') é o fato que isso deixa tão poucas oportunidades para pessoas mais jovens com sonhos e habilidade para por suas idéias em prática. Os oito mil metros agora se tornaram tão cheios de gente que é difícil encontrar uma rota que dê para ficar quieto sozinho, onde não exista cordas fixas abandonadas, onde ninguém tenha feito um acampamento antes, e nenhum depósito tenha sido deixado para trás. Toda vez que você encontra essas coisas na montanha, põe sua experiência pessoal em jogo.

Nesse respeito, todo escalador tem uma grande responsabilidade com as gerações subsequentes. Nenhum de nós tem o direito de amarrar os oito mil com cordas fixas, de montar acampamentos e deixá-los para trás sujos. É claro, todos nós temos o direito de escalar, onde quisermos e em qualquer rota imaginável. Mas ao mesmo tempo temos o dever de trazer para fora da montanha tudo que carregamos. Precisamos aprender a deixar as montanhas como as encontramos. Esta é a única maneira para que elas continuem lugares vibrantes e interessantes para as pessoas que virão, e continuem proporcionando o fascinante desafio que todos nós precisamos, e que os futuros novos escaladores vão precisar ainda mais.

Nossa geração, como sempre digo, não está sendo medida por quantos oito mil subiu e o quão rápido foi feita a escalada; seremos lembrados pelo quanto deixamos estas montanhas intactas, para oportunidades da próxima geração. Um Pilar Sul limpo de pitons e cordas ainda vai ter interesse nos próximos anos; um Pilar cheio de proteções não é somente chato, é repulsivo.

Quando penso no K2, existe um ou dois momentos especiais que me marcaram. Como o momento quando, começando a descer do cume, vi ao leste a sombra do K2 nas cadeias de montanhas abaixo de mim. Uma enorme forma escura se deitando pelas montanhas do Karakoran. E bem em cima desta sombra podia ver um pequeno ponto. Era eu? Alguns anos mais tarde minha filhinha Layla me perguntou porque eu não havia esperado a montanha 'ir dormir' antes de escalar para o topo. Suas palavras imediatamente trouxeram-me a imagem da sombra do K2. Ela continuou, 'sim, assim quando a montanha se levantasse de manhã, você já estaria no topo.'

Como seria simples se as montanhas realmente se deitassem, ou se fôssemos abençoados com a habilidade de nos projetar para o topo dos oito mil metros nas asas de nossa imaginação. Com tais poderes, com certeza alcançaríamos os pontos mais altos sem o esforço e perigo que nos custa agora. Mas enquanto não sou capaz de dar passos fora deste mundo físico, percebo que as grandes aventuras não se fazem na cabeça - na cabeça é somente onde elas começam.

 

K2 - Alguns fatos Históricos
Montanha das Montanhas

1856
O explorador germânico Adolf Schlagintweit escala o Passo Mustagh Leste. No mesmo ano o oficial inspetor britânico Cap. T. G. Montgomerie vê de uma distância de 200km 'um amontoado de altos picos no horizonte', o Karakoram interior?. Ele numerou os mais altos entre eles como K1, K2 etc, 'K' para Karakoram. Somente mais tarde foi conhecido que o nome local para K2 é Chogori; entretanto isto nunca alcançou uso internacional.

1861
O Coronel britânico H. H. Godwin-Austen explora grandes extensões do oeste do Karakoram. Ele produz o primeiro mapa geral da área ( 1:500 000 ), assim como as primeiras descrições das aproximações para o K2.

1892
O montanhista britânico W. M. ( mais tarde Lorde ) Conway faz uma expedição de reconhecimento ao pé do K2.

1902
Uma expedição internacional, liderada por O. Eckenstein, tenta escalar o K2 pela sua Aresta Nordeste. O glaciar superior Godwin-Auster é aberto e o Windy Gap alcançado. Provável ponto mais alto no K2 - 6200m.

1909
Duque Luigi Amedeo de Savoy ( Duque de Abruzzi ) lidera uma expedição italiana para o K2. Ele reconhece a Aresta Sudeste, mais tarde conhecida como Aresta Abruzzi, como a mais promissora rota ao cume. Seu grupo atingiu ao redor de 6000m.

1929
Duque Aimone di Savoia-Aosta ( Duque de Spoleto ) vem não com objetivos de escalada, mas sim trazer trabalhos científicos para o Baltoro.

1938
Uma pequena expedição americana sob C. Houston escala a Aresta Sudeste/Abruzzi até um ponto entre o Ombro e a 'Pirâmide Negra', superando pela primeira vez as dificuldades chave da rota.

1939
Uma segunda expedição americana quase chega, desta vez liderada pelo alemão/americano F. Wiessner. No ataque ao cume ( sem oxigênio ), Wiessner chega a poucas centenas de metros do topo do K2. Um membro e três Sherpas morrem na descida.

1953
C. Houston lidera outra expedição americana ao K2. O tempo vira contra eles depois de escalar logo acima dos 7500m. A. Gilkey fica doente. Numa tentativa de descê-lo, há uma avalanche, miraculosamente observada por P. Schoening quando duas cordas enroscam. Gilkey desaparece sem deixar rastros.

1954
Uma grande expedição italiana sob liderança de A. Desio faz a primeira ascensão. Depois de uma lenta formação dos acampamentos, L. Lacedelli e A. Compagnoni alcançam o cume no dia 31 de julho pela Aresta Abruzzi.

1977
Uma colossal expedição japonesa sob liderança de I. Yoshizawa - ao todo 42 escaladores - sobem o K2 pela Aresta Abruzzi. Dois grupos, incluindo um carregador local hunza, alcançam o cume.

1978
Pela primeira vez as autoridades paquistanesas liberam dois permits para o K2. Um grupo britânico liderado por C. Bonington abandona sua tentativa pela intocada Aresta Oeste depois da morte de N. Estcourt numa avalanche. Americanos, liderados por J. Whitaker, escalam com sucesso a Aresta Nordeste, duas cordadas alcançam o cume.

1979
O cume do K2 é alcançado pela primeira vez por uma expedição pequena. R. Messner abandona o plano original de tentar a 'Magic Line' no Esporão Sul, e escala ao cume pela Aresta Abruzzi com M. Dacher em 12 de julho ( quarta ascensão ). Uma grande expedição francesa falha no Esporão Sul.

1982
Um grupo japonês faz com sucesso a primeira ascensão pela Aresta Oeste.

1986
Neste verão haviam onze expedições operando no K2. Primeira ascensão da 'Magic Line' é feita, bem como da Face Sul e do Esporão Secundário, no braço direito da Face Sul. Três mulheres chegam ao cume ( incluindo W. Rutkiewics ). A montanha tem 13 vítimas.

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