Patagônia 2005 - No cume do Cerro Torre - 09/02/2005
Por Edemilson Padilha
Sinto o gélido ar da madrugada através das rajadas suaves de vento que batem no meu rosto. O único som que escutamos vêm do crispar do metal dos grampons, debaixo de nossas botas, contra o gelo duro do glaciar. Nossas lanternas iluminam alguns metros adiante, o suficiente para distinguirmos as fendas no gelo. Diante de nós começa a se formar a imagem de um gigante de pedra: o Cerro Torre, uma montanha mítica e uma das mais difíceis do mundo. Somos três minúsculos pontinhos que se movem no glaciar, porém somos escaladores e escaladores são seres com elevada auto-estima.
Estamos nos encaminhando para o começo da primeira parte da escalada que nos levará até o "ombro", o nosso primeiro ponto de bivaque - bivacar significa passar a noite sem o uso de barraca. Isto diminui o peso que devemos carregar. No nosso caso iríamos dormir em uma cova de gelo, abrigada do vento e do frio.
Escalamos os 300 metros de rampa de gelo e rocha e chegamos ao ombro cedo, com tempo suficiente para almoçarmos satisfatoriamente e escalarmos mais uns 100 metros, deixando as cordas fixas, já pensando no outro dia.
Descansamos relativamente bem, o quanto possível, pois quando se tem em mente a escalada que estamos para empreender, torna-se difícil dormir profundamente. Passam pelos meus pensamentos as imagens de tudo que fizera nas 3 semanas anteriores, quando havíamos escalado mais três agulhas e me sinto muito confiante para uma tentativa a uma montanha tão respeitada como o Torre.
Acordamos muito cedo com aquela sensação de responsabilidade e começamos a subir pelas cordas. Quando amanhece estamos muito adiantados. Acima de nós há mais 4 equipes de escaladores: ingleses, eslovenas e 2 equipes sulafricanas. Em poucas horas e 400 metros escalados, alcançamos uma equipe sulafricana que progredia lentamente. Pedimos passagem e conseguimos nos desvencilhar do tráfego.
Já havíamos deixado para trás o primeiro terço da via, que foi habilmente guiado por um de meus parceiros, o argentino Gabriel Otero. Adentrávamos agora o tramo de misto de gelo e rocha que tocava ao catalão Isaac Cortes vencê-lo. Como escalávamos em três pessoas, sempre um de nós guiava a cordada (trecho de aproximadamente 50 metros) e os outros seguiam-no carregando a maior parte do peso.
E assim progredíamos rapidamente sempre olhando para o céu à procura de nuvens que denunciassem a chegada de mau tempo, e tomávamos cuidado com os pedaços de gelo que se desprendiam a cada golpe de piqueta que o líder dava no gelo.
No segundo terço da via, molhamo-nos muito com a água que escorria pelas fendas devido à elevação da temperatura. De repente o gelo acaba e dá lugar a muros de rocha vertical. Já havíamos vencido 800 metros e agora restavam "apenas" 300 metros para o cume. Chego à reunião (ponto de parada) onde está Isaac e ele me passa a liderança do time.
Agarro os equipamentos de que vou necessitar e subo. Os últimos passos deste trecho são delicados, pois há um misto de rocha e gelo derretido. Fixo a corda e meus parceiros sobem "como titanes". É interessante notar a complexidade da escalada, pois lançamos mão de técnicas muito variadas: escalada com sapatilhas; escalada com botas duplas para gelo; com grampons - aqueles inventos pontiagudos de metal que acoplamos sob as botas; e ainda usamos as piquetas de gelo. E muitas vezes temos de fazer a transição de um tipo de escalada para outro, no meio da parede.
A cada passo nos acercamos mais do cume. Já o visualizamos, porém o dia vai chegando ao fim e temos consciência de que escalaremos à noite a parte mais difícil da via. Anoitece e encontramos tráfego; agora do pessoal que chegou no cume e que está rapelando a montanha. Primeiro dois sulafricanos, depois os ingleses e então, "as" eslovenas. É verdade, a primeira cordada feminina a escalar o Cerro Torre desce do topo e uma delas tem duas costelas quebradas por um pedaço de gelo! Mônica nos alerta que há gelo sob o compressor que se desprende quando o tocamos.
Você pode achar estranho, mas quase no topo do Torre há um compressor de ar de 70 quilos desativado; ele dá nome à rota conquistada em 1970 pelo lendário escalador italiano Cesare Maestri. Ele o utilizou para bater perto de 350 grampos no muro final da montanha.
Em poucos instantes estava em pé sobre o trambolho de metal, o que foi muito surreal. Exatamente 40 metros de escalada em rocha nos separavam do triunfo. Meus companheiros confiavam na minha destreza naquela modalidade de escalada a que chamamos artificial. Numa escala de dificuldade de 1 a 5, aqueles últimos metros tinham nível 3. Quando dividimos a via em três partes e fiquei com a última, não podia imaginar que teria que liderar este trecho depois da meia-noite.
Passo a passo, esta é a regra. De movimento em movimento, delicadamente, "deslizando", como diria meu amigo Vicente. Cair ali não estava em meus planos. E não foi sem alegria que gritei para meus companheiros que estava seguro na última reunião da via! Fixei as cordas entre os gritos deles. Agora era só escalar o neveiro final e nos "saludarmos" no cume.
Subimos mais uns 100 metros de gelo fácil e estamos sobre o cume mais desejado e mais controverso da história do alpinismo mundial. Entre meus pensamentos estão a emoção de chegar, a sensação de ter valido a pena todos os esforços que fizera para estar ali e a preocupação pela descida que teríamos pela frente. Do cume, conseguimos ver as luzes do vilarejo de El Chaltén, nosso ponto de partida de alguns dias antes. Tiramos fotos, nos abraçamos e descemos do cogumelo de gelo. Encontramos um buraco para passarmos as últimas horas da noite, pois tivemos problemas com nossas lanternas. Nos sentamos sobre os equipamentos e quando começa a clarear levamos um susto, pois uma nuvem "engole" o Torre. Iniciamos uma corrida para rapelar rapidamente antes que o tempo piore ainda mais. Os primeiros rapéis sob vento e os seguintes com muita água e gelo caindo. Pequenos blocos de gelo caem por todos os lados e nos encostamos o máximo possível na parede para nos escondermos. Somente a partir da metade da descida é que não caem mais pedaços de gelo e o sol nos brinda com seu calor e podemos nos descongelar.
Foram 10 horas duras para rapelar do cume até o ombro. Aí estávamos seguros e nos sentíamos aliviados. Passamos a noite muito bem e no outro dia descemos até El Chaltén. Aí sim pudemos comer uma bela pizza e comemorar com os amigos!
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