Localização: Karakoram, Baltoro Mustagh
35º43'N 76º42'E
Se você não gosta da palavra 'obsessão', chame isso de entusiasmo ou força de vontade. Mas lembrando que você não pode fazer nada pela metade, eu iria além e diria que o verdadeiro entusiasmo significa fanatismo.
Max Stirner
Depois de escalar o Broad Peak em 1957, Fritz Winsteller e eu desejamos ir ao Everest. Gostaríamos de escalá-lo em dois, sem oxigênio e sem a ajuda de porters de alto nível. Uma série de razões nos impediram de fazer isso - família, trabalho e dinheiro. Até hoje em dia isso é uma espécie de segredo que me lembro de vez em quando
Marcus Schmuck
Hidden Peak - "Um velho estilo como uma nova idéia"
Com a ascensão do Manaslu, eu havia agora escalado dois 8000m. Apenas um europeu vivo havia alcançado isso: Kurt Diemberger. Eu não me via em competição com ele de forma alguma, principalmente porque os dois 8000m de Diemberger foram o Hiddem Peak e o Dhaulagiri- que foram ambos uma primeira ascensão, em uma época que ambos eram menos conhecidos e menos visitados que hoje, quinze anos depois. Mas, quase naturalmente estava tentado pela idéia de ser a primeira pessoa a escalar três 8000m. Entretanto, naquele momento, para mim era mais importante descobrir um método alternativo para financiar expedições de alta montanha.
Em primeiro lugar, eu queria que as próximas expedições que eu participasse fossem independentemente organizadas. Com alguns companheiros escolhidos a dedo, planejei fazer o que até hoje só havia sido tentado por grandes expedições. Escalar um 8000m apenas em duas pessoas, tornou-se uma idéia fixa em minha mente. Se eu fosse renunciar os porters (carregadores), eu teria de renunciar também à cadeia de campos avançados e cordas fixas. Oxigênio engarrafado estava naturalmente fora, e eu ainda não o havia usado em nenhum dos outros dois picos.
Mas e o dinheiro??? Não havia forma de financiar minhas expedições com meus ganhos. É certo que alguns conselhos sul-tiroleses me apoiaram em minhas viagens anteriores, mas não com o montante que seria necessário para levar uma expedição inteira. Em 1970, e novamente em 72, eu havia pego todas minhas economias de um ano para ir nas expedições, e obviamente enquanto eu escalava no Himalaia eu não estava ganhando nada. Pensava em fazer algum dinheiro para compensar isso após voltar, com coisas que eu pudesse vender, como fotos, filmes e idéias para aprimoramento de equipamentos.
Todo sucesso que consegui como escalador foi porque escalava com a mais completa e profunda dedicação. Planejei usar a mesma dedicação para financiar minhas idéias e ser o líder de minha própria expedição. Se eu reduzisse a quantidade de recursos empregados na expedição, não seria necessário contratar tantos porters e os projetos se tornariam mais baratos.
Neste tempo, quando aparecia algum dinheiro, eu podia comprar as passagens, ou o equipamento, ou a comida... Nessa época eu não acreditava que uma expedição pudesse ser completamente financiada. Hoje é diferente. Apenas parto quando a expedição está completamente financiada, pois caso contrário é impossível escalar por uns tempos, a não ser que você seja muito rico. Normalmente, eu demorava um ou dois anos para que no intervalo entre as expedições conseguisse levantar os recursos para meu próximo 'projeto especial'. Assim, me tornei diretor de uma escola de escalada, professor e escritor. Quando houvesse chance, mesmo que pequena, eu sairia em uma viagem sem remorsos de largar tudo isso.
Se tenho sucesso no âmbito comercial hoje, é porque estou atingindo o interesse dos dias de hoje. No princípio dos anos 70 a situação era muito diferente, onde era difícil alguém acreditar que eu obteria sucesso no que andava fazendo. "Montanhista freelance" estava longe de ser uma profissão reconhecida. É verdade que Walter Bonnati René e René Desmaison financiaram parcialmente eles próprios através de publicidade, mas nenhum dos dois tentaram organizar expedições de alto custo para o Himalaia. Habilidades de escalador não eram mais suficientes. Tive de me tornar também um administrador, para conseguir colocar em prática minhas idéias. Se eu não quisesse ser parte da expedição de alguém , então eu teria que me tornar economicamente independente. Fazendo isso eu agora pude alcançar uma posição que me permitia sair para escalar, e para minhas viagens serem auto-financiadas.
Hoje milhares de jovens escaladores entraram na mesma "profissão". Eu espero que estes escaladores encontrem algo em meus livros e em meu estilo de vida que os ajude e os encoraje. As perspectivas são boas: qualquer um com entusiasmo e força de vontade para colocar seu coração e sua alma no lado "fun" e no lado "trabalho" terá sucesso.
Para realizar sonhos, o mais importante pré requisito é pensar de forma revolucionária. Se tem uma idéia que gostaria de desenvolver, você deve pensar nela cuidadosamente do princípio ao fim, para então começar a realizá-la.
'Estilo Alpino' foi uma dessas idéias. Esta era a maneira tradicional de escalar montanhas. Estilo Alpino incorpora toda técnica e desenvolvimento que vem sido empregado nos Alpes desde que se começou a escalar por lá, a duzentos anos atrás. Começando no pé de uma escalada você segue para cima, com ou sem bivaques, até o cume e volta. Carrega seu próprio equipamento. Preparação de rota não é necessária. O que eu queria era saber até onde este estilo poderia ser estendido à escalada das montanhas mais altas do mundo.
Este é um conceito antigo, mas a razão para nunca ter sido adotado no Himalaia é que os montanhistas tem uma pré concepção de que você tem que "cercar" um 8000m, e isso envolve instalar uma cadeia de acampamentos, fixar cordas e contratar uma coluna de porters para alta altitude. Esse é um trabalho complexo e desagradável, que custa em tempo e dinheiro. Houveram expedições "leves" ao Cho Oyu (1954) e Broad Peak (1957), mas estavam longe de ser em Estilo Alpino.
A maior esperança de sucesso para a escalada de um 8000m em Estilo Alpino verdadeiro me foi oferecida por um dos picos do Gasherbum no Paquistão. Eu estava irradiante com a permissão para uma viagem ao Hidden Peak em abril de 1975 (Gasherbrum I). Ao menos era minha chance de colocar minhas idéias em prática. O Karakoram foi fechado aos montanhistas por muitos anos, desde que o governo proibiu as áreas dos Glaciares Concordia e Abruzzi. Agora a primeira expedição foi permitida e eu estava nela. Meu pedido de permissão demorou um tempo... mas agora, com ele em meu bolso, eu convidei Peter Habeler para vir comigo.
A idéia já tinha vários anos, e assim pude pensar cuidadosamente em tudo. Eu tinha certeza que isso poderia funcionar. Peter encontrou alguém no Tyrol disposto a patrociná-lo, e fiz um acordo com a ZDF para fazer um filme da escalada. Isso mais alguma colaboração de particulares fizeram nossa expedição sair. Se ganhássemos algo após o retorno, ao menos não teríamos que usar isso para pagar dívidas, como ocorreu na expedição do Manaslu em 72. Assim, em junho de 1975, viajamos ao Paquistão.
Fui para lá diretamente do Nepal, onde estava com uma expedição italiana em estilo tradicional tentando a face sul do Lhotse. Não tivemos sucesso. Poderia tudo ter sido feito de forma diferente??? Minha curiosidade estava super aguçada. Quis mostrar como uma grande expedição tradicional era absurda.
Peter e eu tínhamos uma pequena quantidade de equipamentos. Saímos da Europa com 200Kg. Uma dúzia de porters iriam nos ajudar a levar tudo isso ao Campo Base, através do Glaciar Baltoro. Poderíamos ter usado metade dos carregadores, caso não tivéssemos sido obrigados a levar um oficial paquistanês conosco. Como em todas outras expedições, fomos obrigados pelas autoridades a aceitar na expedição um homem nomeado pelo governo até o campo base. Tínhamos de mantê-lo e alimentá-lo, e a sua única tarefa era manter os olhos em nós. Ele poderia ser considerado responsável caso tivéssemos alguma briga ou problema com a população local.
Com esse pequeno número de porters, não tivemos problema algum e nossa pequena tropa avançou de forma tranqüila. Eles eram tranqüilos e foi fácil supervisioná-los, e por outro lado não nos opomos a pagá-los bem.
Naquele primeiro ano após a reabertura do Karakoram, vários grupos de visitantes tiveram problemas com o povo local. Uma grande expedição americana ao K2 não obteve sucesso simplesmente por não conseguir lidar com seus porters.
Atingimos o Campo Base a partir de Skardu em menos de duas semanas. Lá pagamos nossos porters e eles puderam ir embora.
Minha estratégia era primeiro fazer uma escalada para treino no vale do Gasherbrum, que também nos daria a oportunidade de ter uma boa vista da face Noroeste, que até então eu havia visto apenas em fotos. Então poderíamos voltar ao Campo Base e decidir que rota e que estilo adotaríamos. Se a face parecesse viável, gostaríamos de fazer o cume e voltar em uma única puxada... carregando conosco todo equipamento e comida. Essa escalada inicial nos ajudaria com a aclimatação, que já havia começado em nossa longa aproximação pelos glaciares Abruzzi e Baltoro.
Quando vimos a Face Noroeste e o cume pela primeira vez nossa determinação balançou. Olhando dos 5900m, onde estávamos, imaginamos se nós realmente teríamos a resistência e força para carregar tudo que precisávamos para uma semana nestas encostas. Éramos bons o bastante? Quantos dias precisaríamos? A Face, similar à Face Norte do Matterhorn em muitos aspectos, era bastante quebrada e coberta de gelo em vários pontos. Ela também nunca havia sido tentada antes.
Em 8 de agosto fomos ao nosso primeiro acampamento. Na manhã seguinte, com um tempo maravilhoso, continuamos pelo Vale Gasherbrum e escalamos toda seção intermediária da Face Noroeste, a parte mais difícil da escalada. Atingimos 7100m naquele dia, onde passamos a noite. Colocamos nossa barraca em um ombro. No terceiro dia partímos para o cume. Apesar de estar carregando uma câmera de cinema 16mm, eu e Peter revezamos a ponta. Quando atingimos a cresta do cume, me ajeitei e filmei Peter escalar os últimos metros até o cume. A seguir foi minha vez. Minha câmera fotográfica não estava mais funcionando e usei a máquina de Peter para tirar fotos dele. Minha mão não estava firme o bastante para tirar fotos, e todas elas saíram tremidas.
Havíamos feito a segunda ascensão do Hidden Peak, e em um estilo que revolucionaria o montanhismo.
Tecnicamente a Face Noroeste foi mais fácil do que esperávamos, até mesmo mais fácil do que outras que fizemos nos Alpes. Todas elas requisitaram toda nossa concentração. Para descer tivemos de ser ainda mais cuidadosos. Apesar de menos cansativo descer, o risco de cair era bem maior. A maioria dos acidentes em 8000m acontecem durante a descida. Escalamos desencordados, sem auxílio externo e sem confiar em seções com equipamentos fixos. Depois de chegar ao pé da Face, ainda teríamos todo o Vale Gasherbrum para descer. Tivemos de manter alta concentração até o fim. Estávamos cansados quando chegamos do cume no nosso acampamento. Exaustos, mas não ainda esgotados.
Olhando para trás, não é uma grande 'arte' escalar um 8000m em estilo alpino. Bem, entretanto, depois de fazer algo ela lhe parece mais fácil que antes. Esse tipo de escalada é a mais simples que se pode imaginar. O único detalhe é que você deve levar tudo e todas possibilidades (as previsíveis e as imprevisíveis) em conta, pois caso contrário você não viverá muito.
Nossa noite foi sob tempestade. Nossa barraca estava destruída pela manhã e tivemos que começar mais cedo. Ainda nas sombras da manhã desescalamos a Face, seguindo a mesma rota da subida. Na parte final, bem abaixo das rochas, atiramos nossas mochilas para baixo. Esse foi o único meio que encontramos de conservar nossa energia. Assistimos a elas rolarem face abaixo, e pararam bem na cabeça do vale.
Nessa expedição não houve na verdade nenhum momento extremamente crítico. Ela nos mostrou que esse tipo de desafio, feito agora pela primeira vez, era perfeitamente possível. O tempo todo era o mesmo, éramos exigidos ao extremo todo tempo, como um animal selvagem caçando ou fugindo. Usávamos todos nossos sentidos, tivemos que manter em mente todos as possibilidades, e, principalmente, não cometer um único erro.
Antes de partirmos, os poucos realmente experientes escaladores com experiência em alta altitude foram todos sépticos com relação às nossas intenções. Muitos outros riram. Um 8000m da base ao cume sem acampamentos pré estabelecidos pareceu impossível para todos naquele tempo. Só depois que fizemos, repentinamente tornou-se perfeitamente exeqüível!
Agora, mesmo antigas expedições pioneiras passaram a ser consideradas "em estilo alpino". A ascensão de Herbert Tichy's ao Cho Oyu com Sepp Jochler e Pasang Dawa Lama em 54 foi uma delas. Eles não tiveram muitos porters de alta altitude, e estabeleceram apenas 4 campos, sendo efetivamente uma expedição muito pequena. Apesar disso, ela ainda é do "estilo tradicional", uma vez que havia uma cadeia de acampamentos estabelecidos e houve a ajuda de Sherpas. Hermann Buhl no Broad Peak foi um estágio além desse. Ambos foram bem detalhistas na descrição do que haviam feito. Em 57, no Broad Peak, Markus Schmuck, Kurt Diemberger, Fritz Wintersteller e Hermann Buhl não fizeram uso de porters de altitude e carregaram todo o seu peso desde a base da face. No entanto, eles estabeleceram uma linha de acampamentos e deixaram algumas cordas fixas antes de fazer o ataque ao cume. Esta foi uma expedição leve e exemplar, mas entretanto está longe do que chamamos hoje de "estilo alpino" verdadeiro.
Quando Peter e eu voltamos ao acampamento base, escaladores poloneses foram os primeiros a nos cumprimentar. Uma expedição polonesa feminina (que incluía alguns homens)estava fazendo uma tentativa nos dois outros picos do Gasherbrum (o II e o III). Esta foi a primeira vez que ouvi dizer de Wanda Rutkiewicz, que hoje é reconhecida como a mais bem sucedida escaladora do mundo. Os escaladores poloneses haviam acabado de descobrir o Himalaia e o Karakoram. Suas habilidades e, acima de tudo, seu espírito de equipe são impressionantes. Naquele momento estavam adquirindo a experiência que faria deles e de seus aprendizes, em alguns anos, os mais competentes escaladores de alta altitude do mundo.
Com minha ascensão ao Hidden Peak eu me tornei a primeira pessoa a escalar três dos quatorze picos com mais de 8000m no mundo. Ao mesmo tempo havia transposto o estilo tradicional de expedições com o, ainda mais antigo, estilo alpino. Escaladas de 8000m tornaram-se mais simples, demandando menos recursos. Com esse sucesso, que quebrou uma barreira ideológica, um tabu foi rompido. As próximas expedições poderiam agora ser organizadas de uma maneira diferente.
Entretanto eu paguei por esse sucesso. Velhos amigos repentinamente passaram a me ver com olhos suspeitos. Me tornei demasiado famoso para eles, e não mais pertencia a eles como antes. Devido à minha exposição na mídia, eles se sentiram "traídos".
Em muitas entrevistas e debates, onde fui questionado sobre as críticas que recebia, defendi este estilo como uma fantástica oportunidade para o montanhismo. Tornando-me mais conhecido, tive mais chances de financiar minhas expedições, mas isso me deixou com muito menos tempo que antes. Menos tempo para novas idéias e menos tempos para os amigos. As pessoas acreditaram que eu pensava ser muito importante para eles, enquanto que a verdade era exatamente o oposto. É verdade que eu estava possuído pelo desejo de fazer mais, mas a necessidade de ter amigos, trocar idéias eram maiores do que nunca.
Tendo provado que minhas técnicas podem funcionar sem desastres, eu estava convencido de que poderia escalar outros 8000m da mesma forma. Eu não seria barrado pelas críticas, nem mesmo pela falência do meu casamento, que foi acelerada por tudo isso. Em nenhum outro momento um desafio pareceu tão lógico para mim, quanto quando sobrepus um 8000m com minhas fantasias... Era ridículo afirmar que eu escalava apenas pelos ganhos materiais. Eu era um sonhador, e continuo sendo. Nunca parei de colocar novas idéias em prática e só vou parar minhas atividades quando elas deixarem de ter significado para mim, e não quando não houver mais nada para se ganhar com elas.
Em 1984, quase dez anos depois, voltei ao Hidden Peak (Gasherbrum I). Havia entretanto um motivo diferente do primeiro nessa expedição. Hans Kammerlander e eu planejávamos fazer em estilo alpino, só nós 2 sem auxilio, a travessia do Gasherbrum I e II. Planejávamos subir a Face Noroeste, seguindo uma linha à esquerda da rota que fiz em 1975. Do cume desceríamos a Aresta Oeste até o Campo Base. Gostaríamos de fazer essa travessia depois de ter feito a travessia do Gasherbrum II, subindo pela normal e descendo pelo que chamam de Suicide Route, que é mais para direita.
Essa travessia era uma idéia nova e eu não a considerava possível em 1975. Ela só se tornou possível como resultado de uma mudança na minha atitude perante as montanhas e perante eu mesmo. Em comum com a maioria dos outros montanhistas, eu pensava que quando chegasse aos 40 anos de idade, não estaria mais em forma. Hoje em dia eu sei que resistência e força de vontade permanecem constantes entre 20 e 50 anos... Walter Bonnati desistiu muito cedo. Em 1965 ele tinha 35, uma idade que lhe dá as melhores condições para um 8000m: boa adaptabilidade à altitude e ainda possui força. Do ponto de vista de patrocinadores também, pois eles o conhecem e se interessam.
Bem, em 1984 eu estava pronto para dar outro passo em direção àquilo que era considerado impossível em alta montanha. Seria outro "rompedor de tabu".
Primeiro escalamos o Gasherbrum II. Depois da primeira montanha, Hans e eu chegamos tão inteiros no Vale Gasherbrum quanto no campo base de outras expedições que já havíamos participado. Isso era bom! Escalamos todo tempo conscientes de que devíamos economizar energia. Assim não hesitamos, e na manhã do quarto dia de escalada subimos para a sela que existe entre o Gasherbrum I e II.
Neste ponto, o Gasherbrum-La, armamos nossa barraca. Depois de uma noite tranqüila, na manhã seguinte escalamos à esquerda da rota Alemã-Americana, aberta no começo dos anos 80, até o ponto onde eu e Peter havíamos bivacado em 1975. Não pretendíamos parar por lá, mas assim que chegamos o tempo começou a mudar. Com o vento aumentando, forçamos para cima, até os 7400m, onde finalmente armamos acampamento.
Agora o mau tempo havia realmente chegado, e nos encontramos em uma situação delicada. A tempestade açoitava a barraca e não se conseguia ver nada do lado de fora. Usamos várias pedras ao redor da barraca para melhorar a sua fixação, pois não pretendíamos sair voando no meio da noite.
Presos lá em cima, cercados apenas por neve, ambos tivemos alucinações. Teria sido sensato desistir da nossa travessia, mas ao mesmo tempo era óbvio que não conseguiríamos vir tão longe novamente, ao menos não nesta viagem. Nunca estivemos tão perto de fazer essa travessia.
Tínhamos todo equipamento e comida que precisávamos, e já havíamos carregado e descido tudo pela primeira montanha. Agora, bem próximo de chegar ao cume da segunda montanha o tempo parecia pôr um ponto final em todo nosso esforço.
Durante toda noite a tempestade castigou a barraca, e dizíamos a nós mesmos que a travessia estava acabada, e que o sensato era desistir. Entretanto, acabamos por continuar a escalada. Ainda havia ambição demais na manhã seguinte, e, afinal de contas, era a ambição que havia nos levado até lá.
Apesar do tempo ruim, chegamos ao cume do Hidden Peak em 28 de junho. Sim, fizemos! Ao chegar ao cume, mal chegamos a parar, pois sabíamos que ainda teríamos dificuldades na descida da Cresta Oeste.
Em alguns momentos perdíamos contato visual um com outro, e freqüentemente acreditamos não ter chance, e continuamos a descer a cresta, que era extremamente afilada em alguns lugares. Todo tempo estava nublado, tempestuoso e com granizos caindo. O conhecimento, e porquê não dizer - a satisfação - , de ter feito algo novo nos deu a energia extra para continuar. Por sorte, de tempos em tempos encontrávamos trechos com cordas fixas antigas, deixadas por Iugoslavos que haviam escalado a aresta a alguns anos atrás.
No sétimo dia de escalada estávamos de volta ao Vale Gasherbrum. Estávamos acabados, nossos nervos à flor da pele, kaputt. Estávamos tão cansados e tão excitados que não conseguíamos dormir. Então decidimos continuar e voltar nesse mesmo dia ao Campo Base. Este foi um grande erro.
Foi algo divino, e muito mais devido à sorte do que ao julgamento propriamente, que não caímos em uma das muitas gretas ou não fomos acertados por uma, das também muitas, pedras que caíam. Talvez o que nos salvou foi nosso instinto animal, que cresce quando você constantemente se encontra em situações perigosas. Isso também acontece após escalar por algumas décadas. Se você tem estado alerta ao perigo por meses, quando aparece uma questão de sobrevivência, você instintivamente faz a coisa certa.
A travessia do Gasherbrum I foi muito mais difícil que a minha primeira escalada com Peter Habeler. Ela não apenas demandou o dobro da energia, pois escalamos dois 8000m; ela demandou muito mais auto confiança e experiência. Entretanto, sem a experiência de 1975, onde rejeitamos o que era considerado o óbvio e o lógico e abrimos mão das técnicas tradicionais, a segunda nunca seria concebida, e tampouco realizada.
Fazendo a travessia de dois 8000m, que juntou quatro rotas diferentes, sem auxílio externo, sem depósitos de suprimentos pré estabelecidos, e sem ninguém mais nos auxiliando nos longos esticões, é algo que hoje em dia ninguém é capaz de repetir.
Neste meio tempo, onde expedições como esta se tornam cada vez mais difíceis, uma vez que os governos do Paquistão, Nepal e China a cada ano emitem mais e mais permits (permissões para escalar) que o normal, essas montanhas estão cheias de gente tentando diferentes rotas ao mesmo tempo. Queira você ou não, você vai encontrar uma série de acampamentos e cordas fixas de outros escaladores. A verdade é que as outras pessoas lá, que podem ajudar em alguma emergência, prejudicam esse tipo de aventura que havíamos vivido. Também o simples fato de saber que se você precisar, em algum lugar, você poderá encontrar comida ou combustível de outras pessoas diminuem o potencial do jogo.
A escalada em massa abriu a muitas pessoas a possibilidade de praticar esse 'esporte', é verdade, mas para os poucos que buscam aventura de verdade, ela está cada dia mais difícil de encontrar. Pudemos desfrutar da nossa idéia da travessia sem nenhuma restrição, e por isso e tudo mais afirmo: tivemos muita sorte.
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Gasherbrum I - Alguns fatos Históricos |
1861,1887
Lt. H.H. Godwin Austen e Lt. F. Younghusband (respectivamente) fazem as primeiras referências ao Gasherbrum I.
1889-1929
Cedo na história do desenvolvimento do Himalaia e do Karakoram, Gasherbrum I é medido e fotografado por exploradores ingleses e italianos. M Conway dá o nome de Hidden Peak (pico oculto) por sua forma piramidal e para distingui-lo do Gasherbrum II.
1934
Uma expedição internacional sob liderança do montanhista suíço G.O. Dyhrenfurth executam um amplo reconhecimento do Gasherbrum I. H. Ertl e A. Roch escalam o Espolão Sudoeste até cerca de 6300m.
1936
Problemas de transporte e greve de carregadores impede o progresso da expedição francesa liderada por H. de Segogne. Eles escalam o Espolão Sul até 6900m.
1958
Uma expedição Norte Americana liderada por N. Clinch e P. Schoening têm sucesso na primeira ascensão do Gasherbrum I. O cume foi alcançado por P. Schoening e A. Kauffman em 4 de julho pela rota que segue a Aresta Sudeste e o Urdok Comb. Os estágios finais da escalada se passaram sob frio extremo e neve profunda e fofa, de forma que os escaladores se arrependeram de não levar esquis ou snowshoes (raquetes).
1975
Como uma expedição de 2 homens, que empregou 12 carregadores até o campo base, R. Messner e P. Habeler escalam a Face Norte em 10 de agosto. A ascensão é feita em estilo alpino clássico e sem oxigênio engarrafado (segunda ascensão da montanha). Três dias depois três austríacos pisam no cume: R. Schauer, H. Schell e H. Zefferer. Eles seguiram a linha da primeira ascensão, sobre a Aresta Sudeste.
1977
A quarta ascensão do Gasherbrum I é feita por uma equipe de dois: A. Stremfelz e N. Zaplonitik (Ioguslavos). São os primeiros a chegar ao cume pela Aresta Sudoeste. D. Bregar desaparece em uma tentativa em solitário.
1980
Uma expedição francesa faz a quinta ascensão, e a primeira pela Aresta Sul.
1981
A sexta ascensão é feita por uma expedição japonesa.
1982
Sob a liderança de G. Sturm, uma expedição alemã-karakoran parte para o Gasherbrum I. Seguindo uma nova rota pela Face Norte, G. Sturm, M. Dacher e S. Hupfauer chegam ao cume. Uma expedição franco-suíça liderada por S. Saudan com cinco membros (entre eles a mulher de Saudan) chegam ao cume. Foi a primeira ascensão feminina. Saudan desce do cume ao Campo Base esquiando (primeira descida completa de um 8000m).
1983
Uma expedição suíça escala três 8000m adjacentes em sucessão: Gasherbrum II, Gasherbrum I e Broad Peak. De um total de nove membros, E. Loretan, M. Ruedi e J.C. Sonnenwyl escalam os três picos em 2 semanas em estilo alpino, incluindo uma nova rota no Gasherbrum I sobre a Aresta Norte. Uma equipe espanhola liderada por J. Escartin, escala a montanha pela Face Sudoeste com descida em esquis. No entanto, o plano de escalar na seqüência o Gasherbrum II é abortado.
1984
No período de uma semana R.Messner e H. Kammerlander realizam em junho a travessia de dois 8000m, os Gasherbrum I e II. Nenhum campo foi previamente posicionado e eles não retornaram à base durante a escalada.
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