por Endre de Gyalokay
por Lis Maria Rabaço
Alguém já disse que o Aconcágua é uma grande caminhada. Isso em parte é verdade e por isso atrai um grande número de pretendentes ao cume. Mas esta caminhada também mata. Na temporada passada até o início de março, 17 pessoas perderam suas vidas de diversas formas. No período envolvendo nossa estada no final de 98, 3 foram atingidas por este infortúnio, 5 voltaram com ossos quebrados, 3 com edema pulmonar… etc.
Para lá vai gente do mundo todo, em equipes ou solitários. Uns muito bem equipados, bem treinados, com dinheiro e tempo, outros sem a mínima chance de êxito.
Por causa dos 80 kg da nossa bagagem viajamos de ônibus com destino a Santiago do qual saltamos na fronteira do Chile com Argentina em Puente del Inca, a 5 km de onde se inicia a caminhada. Na parte inicial do imponente e belíssimo vale de Los Horcones, até Confluência, ainda existe vegetação rasteira, depois os liquens cessam de vez, e o deserto pedregoso se estende até aonde a vista alcança. A atmosfera é seca, o vento é forte, o ar cada vez mais escasso e o frio toma conta de tudo.
Até Plaza de Mulas a 4265 metros de altitude, tudo bem. Este acampamento foi conquistado a força, na moraina do maciço do Aconcágua, abrindo-se espaço para umas 200 barracas, incluindo telefone via satélite, refeitório, latrina, base para muleiros, companhias de trekking, guarda parque, serviço médico oficial etc. Em alta temporada circulam por lá umas 300 pessoas diariamente. Dali partem os grupos em direção ao cume, cada qual com sua estratégia. O usual é fazer uma aclimatação prévia de alguns dias em Plaza de Mulas e depois ir-se transportando material para os acampamentos superiores e retornar para dormir mais abaixo. Optamos por um deslocamento direto e mais lento, sem o desgastante sobe e desce, e tomamos a decisão de evitar o pernoite em Berlim. Assim subimos 1.100 metros de Plaza de Mulas até Nido de Condores a 5380 metros, passando por Plaza Canadá e Cambio de Pendiente com a nossa carga individual de 25 kg.
Ficamos em Nido por duas noites, quando fomos expulsos por uma tormenta de neve que nos fez descer novamente para Plaza de Mulas. Nevou por 2 dias. Tudo ficou branco e lindo. No cume o "Viento Blanco" reinava absoluto. A freqüente mudança das condições atmosféricas e sua imprevisibilidade contribuem para malograr a maioria das investidas. Aliado a isso, a longa espera na aclimatação em Berlim, a 5900 metros, sem comer nem beber corretamente, sem dormir o suficiente, mina a resistência física e aquebranta o moral e faz desistir antes mesmo de se tentar o cume.
O dia seguinte à nevasca amanheceu de céu azul e estupidamente frio. A Lis desistiu de tentar o cume pois achou as condições adversas demais, envolvia infinitos pequenos sofrimentos, e o recalculo de todo o equipamento guardado mais acima. Arrumei a mochila com o essencial e parti ao meio-dia para Nido de Condores, onde tínhamos deixado a barraca e a comida amarrada a grandes pedras. Chegando lá derreti neve e conversei com alemães que haviam voltado da base da canaleta.
No outro dia, 23 de dezembro, saí às 5:30hs em direção ao cume com temperaturas de -25° C. Seriam 1.600 metros de desnível. Em Berlim, vencidos os primeiros 500 metros, entrei no recém construído refúgio para fugir do frio. Lá dentro um grupo de russos se preparava para o assalto ao cume. Ofereceram-me limonada quente, o que ajudou bastante a superar o frio. Reiniciei a caminhada antes deles, mas estes logo me ultrapassaram com o seu sincrônico passo compassado. Cheguei à Crista del Viento, de onde muitos retornam, com um magnífico céu azul e pouco vento. Como todos, também eu coloquei os crampons e fui enfrentar a travessia de gelo de onde 2 argentinos escorregaram para a morte a alguns dias passados. De fato a passagem é impressionante e estava perigosa. É uma rampa para baixo de 1500 metros de extensão a 40° de inclinação, em gelo e pedras. Logo depois vem a famigerada Canaleta com 400 metros de desnível.
Estava a 6800 metros. A esta altura o cansaço toma conta do físico, o passo é lento, a vontade de desistir aumenta, a respiração ofegante e o raciocínio concentrado no essencial. Falta pouco. A Crista del Guanaco esta logo ali. Depois mais 150 metros. São 16 horas. Tem luz até às 21:00hs. Para descer são 4 horas até Berlim, no máximo. Não dá para desistir! Este dia magnífico é um presente da natureza! De repente apareceu a cruz de alumínio a minha frente e depois apenas o céu … Não havia nada mais alto nas 3 Américas. Cumbre! 6.965 metros. Algumas fotos solitárias, 17:30hs. Descer!
Voltar é mais rápido do que subir, mas também leva tempo, e depois de 15 horas de caminhada a fadiga é grande. De modo que nos campos de gelo entre a Crista del Viento e Berlim já estava escurecendo e o frio apertando, quando tive que mudar de tática e me orientar não pela topografia, mas pelas pegadas de crampons no gelo. Conforme a literatura oficial, é lá que por diversas razões 40 pessoas vieram a falecer. Portanto, abrir o olho e não errar.
Cheguei a Berlim no escuro, com algumas luzes nas barracas espalhadas por entre as grandes rochas. Estava seguro. Daí para baixo mais uma hora e pouco e estaria na minha bolha de polipropileno com 0,2 milímetros de espessura ao abrigo do frio e vento. Era só continuar. Diminuí o passo e o frio aumentava. A sede era imensa. O refresco de maracujá tinha virado sorvete já na subida e acabara faz tempo. Sentei para descansar e ver a fina e clara lua crescente sorrir para mim. Como nos anos 70 não estava sozinho. Em Nido segui o clarão da lua refletido na neve e no ranger dos passos, entrei na barraca.
Descendo o cascalho com a pesada mochila cruzei com conhecidos fortuitos que me cumprimentavam efusivamente, talvez numa projeção de também eles chegarem lá. No refugio em Plaza de Mulas comemorou-se o Natal com comilança e sidra oferecida pela administração. Despachamos quase tudo pelas mulas e no mesmo dia da partida chegamos a Puente del Inca. No outro dia fomos a Viña del Mar, no Chile. Depois a Santiago e de avião para o Rio.
Comida utilizada: (para 2 pessoas)
- 22 pacotes de comida liofilizada comprada na Campmor (voltaram uns 4 pacotes)
- 7 sopas rafinesse de couve-flor com brócolis da Knoor
- 5 sopas Knoor Flash de 80g
- 14 pacotes de Macarronada Miojo (não foram todos utilizados)
- 3 pacotes instant noddles
- 5 pacotes de sopa leve instantânea
- 12 pacotes de Tang (Maracuja, Mamão com Larnanja, Pessego). Poderia ter mais.
- 2 pacotes de gatorade que faz 4 litros
- Pastilhas de Iodo para desinfetar a água da neve derretida (No hotel refúgio, bebíamos água direto da torneira)
- 3 pacotes de biscoito negresco( comidos na hora de folga no Hotel)
- 4 pacotes de biscoito de Maizena (sobraram 2)
- 2 Barras de 200g de Chocolate Nestle com passas (foram comidas nas horas de descanso no hotel)
- 10 pacotinhos de mel (sobraram uns 3)
- 2 pacotes de Confeti grandes
- 10 Aminoacidos AMino 3000 (usados 4 pelo Endre no dia do cume e na subida a Nido)
- Balas diversas (sobraram)
- Barras Energeticas 8 Power Bar, 6 Meta-RX (utilizadas na caminhada e no dia do cume)
- 6 pacotes de passas de 50 g
- 8 pacotes de Banana-passa de 180 g
- Neston 2 latas (sobrou)
- Supligen (meia lata)
- Leite em pó (sobrou)
- Chocolate em pó (sobrou quase tudo)
- Pão comprado em Puente del Inca
Em resumo a comida utilizada durante caminhada pode ser comparada a uma comida utilizada numa competição (corrida) de longa duração. No final sobraram pacotes de biscoito Maizena, balas, Miojo, leite em pó, chocolate em pó, e Neston, além de algumas barras energéticas. Ao todo foram quase uns 20 kg de comida.
Material utilizado:
Diversos:
- Fogareiro MSR XGK II
- 4 litros de Benzina (sobraram quase uns 2 litros)
- Kit de 2 panelas MSR Alpine com dissipador
- Um jogo de talheres
- 2 canequinhas térmicas Aladin de 400 ml, para fazer os miojos e sopas
- Garrafa térmica de Aço Inox da LLbean
- uma leiteira de plástico para pegar neve e fazer comida
- Saco plástico preto para colocar neve
- Saco plástico transparente para envolver o preto
- Cantil aluminizado de plástico desse tipo de travesseiro com capacidade para 6 litros
- Cobertor térmico alumizado para colocar no interior da barraca no chão
- Cobertor térmico para emergências
- Barraca Nigth Wathch CD da Sierra Designs (mais firme que as North Face), vimos 3 delas voando, possivelmente devido a andinistas descuidados, e o vento incessante.
- 2 Therma rest staytec Longo
- Saco de dormir 0° F
Remédios:
- Vitamina C (1 grama a cada 12horas)
- Comprimidos de alho
- Aspirina para eventuais dores de cabeça
- Diamox (usado pelo Endre em Nido e na noite anterior ao cume)
- Pastilhas de gengibre para garganta (não utilizadas)
- Kit de atadura, atadura elástica, Judomuc(iodo), gase, novalgina(contra dores em geral), imosec(diarréia), Beserol, voltaren (anti inflamatório), Tabalon(dor de dente). Não utilizado.
Para caminhada até Plaza de Mulas:
- Blusa sintética
- Short de Tactel
- Pull-over de lã
- Ear-band
- Botas de trekking
- Bastões (steaks)
Plaza de Mulas – Nido:
- Calça Lowe de triple point para aparar o vento
- Botas plástica duplas para gelo (Trezet e Scarpa Inverno)
- Ear-band
- Luvas de lã dessas compradas em camelô
- Jaqueta de triple point da Lowe Flash-ligth
- Mitten (luvas de dedos juntos) de Goretex (para descer na nevasca)
- Mitten de lã (pouco usadas)
- Balaclava de seda (para descer na nevasca)
- Neck Gaiter de polartec 100 – para descer na nevasca
- Óculos de montanha (com protetores laterais)
- Underware de thermax medium weight
- Luva de thermax (medium weight)
- Protetor solar 30
- Lip stick com proteção 18
- Mochila cargeira de 110 litros.
- Meia de polipropileno (undersock)
- Meia de Lã (caminhada)
- Meia de lã para dormir
- Gorro de Polartec 200
- Saco de dormir -30° F
- Bastões
Obs: Na descida durante a nevasca melhor seria se tivéssemos Googles(próprios para a pratica do esqui). Os óculos constantemente embaçavam, devido ao ar quente da respiração como frio que estava fazendo.
Cume:
- Balaclava de seda
- Botas duplas para gelo (Scarpa Inverno)
- Neck Gaiter
- Mitten de Goretex
- Luva de thermax (meduim weight)
- Luva de lã comprada em camelô
- 3 Hand warm (composto de oxido de ferro que quando aberto ao ar produz uma temperatura de 40° C)
- Underware de Thermax – Medium weigth
- Calça de porlartec 100
- Calça de vento de triple point da Lowe
- Pull-over de polartec 100
- Casaco de Polartec 300
- Jaqueta de aparar vento de Kathmandu (falsa North Face)
- Casaco reserva de Primaloft para -15° F da LLBean, levado na mochila para paradas
- Óculos de montanha (com protetores laterais), e com silver tape protegendo o nariz
- Mochila North Face 50 litros
- Aguá (só foi levado 1 litro). Acho que deve ser necessário pelo menos 2 litros.
- 2 pares de meia de lã para caminhada
- undersock de polipropileno
- Gorro de Polartec 200
- Saco de dormir -30° F
- Cobertor térmico para emergências
- Crampon de tiras SMC
- Bastões
Temperaturas:
- Plaza de Mulas de 20° C a 0° C
- Nido de Condores de 0° C a -10° C
- Berlim -8° C a -18° C
- Cume -25° C – com quase nenhum vento
Enquanto nós estávamos em Plaza de Mulas o vento vindo detrás do Aconcágua (vindo da parede Sul) sinalizava bom tempo, enquanto que o vento vindo do Cerro Cuerno trazia nebulosidade nas partes altas da montanha a tarde ("VIENTO BLANCO").
Na semana que ficamos lá do dia 17 de dezembro a 26 de dezembro, 3 dias se apresentaram bons para fazer o cume: dia 17, dia 22, dia 23. Todos os outros dias o "Viento Blanco" fechava a parte superior da montanha depois do meio-dia, e em Nido se ouvia um ruído parecido com um rio de águas turbulentas.
Tempo:
- Puente del Inca – entrada do parque – 1hora
- Entrada do Parque – Confluência – 2:40hs
- Confluência – Plaza de Mulas – 7:40hs
- Plaza de Mulas – Hotel Refugio – 40 minutos
- Hotel Refugio – Nido de Condores – 6 horas
- Nido de Condores – Cume: 10:30hs
- Hotel Refúgio – Puente del Inca: 7:30hs
Nossa Aclimatação:
11/12/98 – Rio – São Paulo – ônibus executivo 1001
- São Paulo – Santiago - Chilebus – pessoal do ônibus muito prestativo
12/12/98 – viajando de ônibus entre Rio Grande do Sul e Argentina
13/12/98 - Chegada a Puente del Inca as 16:30hs descemos na Aduana Argentina
14/12/98 – Descanso em Puente del Inca, ida a Mendonça para obter o permisso , dormimos em Puente del Inca
15/12/98 – Caminhada Puente del Inca – Confluência
16/12/98 – Caminhada Confluência – Plaza de Mulas
17/12/98 – Descanso no Hotel Refugio
18/12/98 – Caminhada Plaza de Mulas – Nido de Condores
19/12/98 – Caminhada Nido-Berlim-Nido (para reconhecer o caminho)
20/12/98 – Descida Nido – Plaza de Mulas (devido a uma nevasca)
21/12/98 – Descanso em Plaza de Mulas
22/12/98 – Subida a Nido de Condores
23/12/98 – Caminhada Nido-Cume-Nido
24/12/98 – Descida ao Hotel Refúgio
25/12/98 - Arrumação das coisas no Hotel para descida
26/12/98 – Caminhada Hotel Refugio – Puente del Inca
27/12/98 – Saida paar Viña del Mar
28/12/98 – descanso em Viña del Mar
29/12/98 – Avião Santiago-Rio
Hoteis: Puente del Inca
Parador del Inca – Marcelo Gomes – 8 dólares (tomar banho era um pouco complicado)
Aymara – de 25 a 30 dolares
Refugio – 10 dolares
Plaza de Mulas: Hotel Refugio – 15 dólares alojamento, mas podia fazer a própria comida no comedor; 10 dólares banho; refeição 15 dólares (não muito farta); telefone via satélite 5 dólares (falava com todo o mundo, e outros estados do Brasil, menos com o Rio de Janeiro! Com Rio só próximo das 10 horas da noite, hora do Brasil)
Treinamento:
- Muito Spinning na Academia Aeróbica de Petrópolis. Além disso exercícios cardiovasculares de 4 a 6 vezes por semana nos vários equipamentos da academia (stair master, bicicleta ergométrica, esteira inclinada, slider)
- Subida rápidas de montanha, com pelo menos 500 metros de desnível, com mochila de carga entre 15 a 25 kg.
- Subidas rápidas a montanhas contra o relógio (desnível de pelo menos 1.000 metros).
- Travessias longas de vários dias, em terreno bastante acidentado, com duração de 8 horas de caminhada, com mochilas de uns 15 a 20 kg, ocasionalmente.
- Exercícios de musculação para força nas pernas, e sustentação toráxica.
| Veja também : | |




