O Nevado Alpamayo, escrito por ????

Se para os peruanos o grande Monte Huascarán, com 6.768m. de altitude, a montanha mais alta do país e a quarta mais alta do continente americano é uma espécie de símbolo, o "grande pai", por sua vez o Nevado Alpamayo representa o orgulho jovem, belo e desafiador, cuja simetria de traços e cristas afiladas o levou a conquistar o prêmio de "A mais Bela Montanha do Mundo", concedido no Concurso Mundial de Beleza Cênica de Munique, em 1966. Evidentemente se trata apenas de um título, ainda que concedido por gente do ramo, mas é evidente que entre milhares de belas montanhas mundo afora, o Alpamayo, com 5.947m, se destaca pela beleza de suas linhas afiladas, cristas denteadas e canaletas quase simétricas. Segundo as palavras da revista "Andinismo e Glaciologia", do Perú, ele é "a jóia do turismo da Cordillera Blanca, dentro do Parque Nacional de Huascarán".

Situado na Cordillera Blanca, no Perú, uma das mais belas e densas seções da grande Cordilheira dos Andes, o Alpamayo é anualmente procurado e escalado por grande número de estrangeiros, que buscam em sua rotas de canaletas geladas, rampas inclinadas de neve compacta e em suas arestas afiladas de cume uma boa dose de aventura.

De uns tempos prá cá viajar para a Cordillera Blanca tem se tornado mais viável do que escalar no Aconcágua durante o verão, pois a paridade com o dólar na Argentina nos encareceu muito as coisas (logo logo nossos hermanos estarão tomando um tombo no que diz respeito ao valor de sua moeda, e as coisas podem ficar menos difíceis um pouco para brasileiros). Quando fui à Cordillera Blanca, escalar o Monte Huascarán, não paguei taxas, e confirmei que não havia cobrança para nenhuma montanha da Cordillera. Creio que a situação esteja da mesma forma, ao contrário do Parque Nacional de Aconcágua, onde cada montanhista desembolsava U$90 há uns 10 anos, passou a desembolsar U$120, quando eu fui, em dez/99, e agora paga U$180, por uma permissão que ainda por cima teve seus dias reduzidos para 21 dias dentro dos limites do parque.Cogita-se aumentá-la para U$250, como forma de afastar leigos e curiosos, limitando mais ainda o acesso ao Parque, por causa do aumento dos trabalhos de resgate de vivos e mortos que aumenta ano a ano.

Voltando a Cordillera Blanca, lá existe umas enorme concentração de montanhas, muito próximas entre sí, e em uma temporada é comum encontrar pessoas que escalaram três, quatro ou até mais picos, uns "emendados" nos outros, coisa também mais difícil de fazer quando se escala na região do Aconcágua, pois uma das características marcantes daquela região é seu tamanho, gigantesco, com montanhas bem mais espaçadas umas das outras e ambiente muitíssimo mais árido e desolador.

O Nevado Alpamayo exige mais habilidade e conhecimentos de escalada em gelo e em neve endurecida do que o grande Huascarán. Seu acesso ao cume menos difícil, a "Rota Ferrari", segue uma linha quase reta por uma canaleta de gelo, constante, por quase 500 metros, até empinar e encontrar a aresta por onde se prossegue até se alcançar o cume.

Escalar Huascarán quase não envolve escalada, apenas a transposição de uma rampa inclinada, de uns 30 metros, no máximo, muito pouco técnica, mas onde recomenda-se o uso de algum recurso de segurança, dada a existência de gretas nas imediações da base da rampa. Já o Alpamayo exige uma ascensão em escalada, onde são exigidos conhecimentos técnicos de escalada em gelo de até 70º de inclinação, aproximadamente, embora a maior parte da via se desenvolva em uma inclinação inferior a esta. Equipamentos de segurança, como corda, cadeirinha, ice screws (parafusos de gelo) e capacete, para citar apenas alguns itens, são absolutamente indispensáveis, assim como a observância de boas condições climáticas na região.

O clima é, em geral, muito bom e firme para ascensões e escaladas na Cordillera Blanca durante os meses de Junho, Julho e Agosto, talvez até a metade de setembro, durante o inverno. Por estar situado muito próximo a Linha do Equador, escalar nos meses do verão significa encontrar neve altamente instável e perigosa, chuvas e avalanches constantes. Praticamente ninguém realiza ascensões significativas ou empreende escaladas em gelo na maior parte da Cordillera, mas nos meses de inverno, ela fervilha de gente do mundo inteiro. Pude ver norte americanos, mexicanos, espanhóis, muitos bascos, israelenses, belgas, italianos, escoceses, ingleses, canadenses, suecos e outros povos durante as duas semanas que permaneci lá.

Algumas dicas e informações úteis


Outra visão da bela montanha, com um glaciar caótico, quase uma cascata de gelo, aos pés
das paredes

Como seu acampamento base está situado por volta de 5.550 m, e a rota de escalada sai de bem perto dele, o montanhista deve ter em mente que terá de escalar, literalmente, durante quase todo o tempo que durar a ascensão, superando um desnível pouco superior a 400 metros, até se aproximar o suficiente da aresta de cume. São várias enfiadas de 50 metros bem esticadas, até quase o final da corda, e as ancoragens são montadas no começo da estação, por guias da Casa de Guias de Huaráz.

Consistem em duas estacas longas de alumínio em perfil "T", perfuradas para a passagem de fitas e mosquetões, cravadas a cada ponto de parada, mais ou menos de 50 em 50 metros. Duram a estação toda, e algumas são removidas ao final da temporada e outras serão cobertas pela neve e gelo vindouros.

Para uma escalada em gelo não se trata de algo muito complexo, mas está longe de ser uma tarefa simples o suficiente para ser feita por montanhistas que tenham apenas conhecimentos básicos de ascensão em alta montanha ou que tenham escalado apenas pendentes suaves de neve. E, sobretudo, exige-se que esteja muito bem aclimatado. As temperaturas, a 5.000 metros de altitude, variam de uns 10 Cº negativos durante a madrugada, ou pouco menos, passando por uns 5ºC positivos durante o dia, ou ainda mais quente um pouco, mas nas regiões próximas aos cumes, durante o amanhecer, pode atingir 20ºC negativos ou menos ainda.
 

Para tanto, recomenda-se que o montanhista que almeja escalar uma montanha como o Alpamayo primeiro empreenda alguma ascensão tecnicamente simples e de grande altitude na região, antes de tentar encarar o seu desafio principal, de forma a se aclimatar em altitude primeiro para depois não se deixar debilitar diante das limitações impostas pela altitude e exacerbadas pela grande e constante inclinação da rota, pelo esforço contínuo de braços para cima, e acima de 5.500 metros de altitude, fatores combinados que somam grandes dificuldades. Absolutamente indispensável um bom condicionamento físico.

No caso de montanhistas relativamente principiantes em alta montanha, é recomendável procurar por um guia de montanha que possa conduzir a escalada, na Casa de Guias de Huaráz, a cidade base de onde saem todos em busca de seus sonhos Cordillera adentro. Quando estive lá procurando por um carregador, o preço dos guias era dividido da seguinte forma: Montanhas de baixa dificuldade, U$30/dia, de média dificuldade, 40U$/dia e de grande dificuldade, U$50/dia. Huascarán está situada na categoria de média dificuldade, mais pelo efeito de sua altitude do que por desafios técnicos, e o Nevado Alpamayo como de grande dificuldade. Lá também se contratam carregadores de confiança, já que este é outro ponto importante a ser observado, se a pessoa é de confiança.

Alugar equipamento é facil, pois espalhadas pela Avenida Luzuriaga, no centro de Huaráz, há várias lojinhas onde é possível alugar ou comprar equipamentos usados, contratar guias e carregadores, fretes particulares, obter informações de quaisquer montanhas da cordillera, mapas, livros, conhecer outros montanhistas do mundo inteiro etc. Me lembro de alguns preços, uma barraca custava U$4/dia, um fogareiro, U$1,5/dia, um casaco de GoreTex usadão uns U$3,5/dia, corda U$2/dia, e assim por diante. Milhares de bastões, esquis e googles (aqueles óculos grandões de uma só lente para esquiar), pois é bom lembrar que também se esquia muito na região. Eu aluguei apenas uma corda, o único item que não havia levado de casa, por causa do excesso de peso.

A cidade fervilha de gente, e contratar serviços fica um pouco difícil, pois a procura é maior que a demanda. Aliás, em Julho, tive dificuldade de contratar até mesmo um ajudante para carregar as bagagens até o campo avançado de Huascarán. Rola todo ano um belíssimo Festival de Inverno na cidade, em Junho. As vezes é necessário esperar mais um ou dois dias até que alguém baixe de alguma montanha. Para aqueles que não dependem de guias ou carregadores, a região é mais do que um prato feito. Eu estava sozinho.
 

Quem desejar escalar na Cordillera Blanca deve fazê-lo nos meses de inverno, viajar a Lima, e de lá pegar um ônibus para a pequena Huaráz, aos pés do maciço. Dá uns 700 km de distância e umas dez ou onze horas de ônibus. Huaráz é uma cidade bem pequena, fácil de andar e de achar as coisas, praticamente se encontra tudo na Avenida do Centro, a Luzuriaga, de comida a equipamentos, guias e informações. Há várias empresas de ônibus e em Lima qualquer pessoa te informa onde se compram as passagens. De Huaráz, devidamente abastecido, dependendo para qual montanha você deseja ir, seguirá para alguma vilinha mais aos pés de seu objetivo específico e sairá caminhando de Carhuas, Mancos, Jungai, Musho e muitas outras. A alimentação nos restaurantes é farta e barata, há frango e batata a preços ridículos, o povo é tranquilo e há um bom tempo que o Sendero Luminoso deixou de aterrorizar. Nos supermercados da cidade, é possível comprar todo o necessário, de sopas e cremes desidratados a alimentos frescos. Há ferreterias (lojas de ferragens) onde se adquire benzina para os fogareiros. Há muitos hotéis pequenos e hostels, com habitação coletiva, sempre cheia de estrangeiros. Vale a pena tirar muitas fotos.

Cabe mencionar que a região possui atividade tectônica muito frequentes, e quando eu estava lá, em Huaráz, depois de ter voltado com o ligamento do pé rompido de minha escalada em Huascarán, acordamos de noite, com um ruído estranho e um tremor crescente. A primeira vez durou quase 5 segundos, bastante tempo. Teve gente que saiu da cama as 02:00h, fazendo 0ºC, de cueca ou de calcinha, e se reuniu na area do hostel que estávamos, todos sorrindo nervosos, e comentando em vários idiomas o ocorrido. Quando voltamos para nossos quartos, já se acomodando, veio o segundo, que durou a "eternidade" de sete segundos, o suficiente pra alguns saírem correndo até a rua, e teve um gringo que pulou de cima de uma sacadinha, de uns três metros de altura, ao invés de descer por uma escada circular de ferro. Desta vez a galera estressou muito mais, e teve um norte americana no meu quarto que táva grávida, ficou bem nervosa durante uns minutos, segurando a barriga. A parede do quarto deu uma afastadinha do canto, dáva pra passar uma folha de papel... Depois, pra dormir foi difícil, todo mundo segurando seus sapatos na mão, pra sair correndo, dormindo vestidos, um olho aberto e outro fechado... zzzzzzz.
 

Amanheceu um dia lindo, de céu azul e com vento, e pela cidade, os peruanos dávam risada de nossas preocupações da madrugada passada. Segundo eles, los templores são absolutamente corriqueiros por alí! E eu, sozinho naquele lugar, em meio aquela cordilheira e com os ligamentos do pé esquerdo rompidos num pequeno acidente em Huascarán, se ter o que fazer senão antecipar minha volta para me tratar. Coisas da vida.

No entanto, apesar da população ser pacífica, e não haver perigo em transitar pra lá e pra cá, existe um ditado que ouvi de um peruano, e que deve ser observado e levado a sério às últimas consequências: "No Perú ninguém te assalta, mas todos te roubam", disse ele. É claro que o tal ditado exagera na dose, e na verdade assaltam sim, mas com pouca frequência. Agora roubar... são célebres os casos de desaparecimentos de mochilas inteiras, e eu mesmo presenciei o caso de um israelense que teve tudo, tudo roubado num piscar de olhos, só porque colocou a mochila no chão e foi primeiro abrir uma porta, já dentro da casa que estava hospedado, deixando-a por uns instantes na varanda. Os ladrões peruanos (e que fique bem claro que o povo é legal, mas como em todos os lugares, há ladrões), são extremamente rápidos e dissimulados, e além deste caso soube de outros, e ainda tenho um primo que voltou da região com a roupa do corpo. Portanto, nada de ir ao banheiro naquele restaurante ou bar que parece legalzinho e deixar algo na mesa, ou entrar em algum lugar para pedir informações e deixar a mochila há poucos metros de vc, no chão, inocentemente. Carregue-a sempre e a coloque aos seus pés, e nunca tire os olhos de nada. Só isso basta. De resto, é trancar o quarto e trazer sempre consigo passaporte, grana, câmera fotográfica etc e tal, a velha história... até no banho é recomendável manter essas coisas por perto, não custa nada. Está dada a dica...

De resto, vale mencionar que as escaladas não são o único atrativo da região, há várias montanhas para se esquiar, em vários níveis, trekkings maravilhosos, ruínas e paisagens belíssimas. Vale a pena seja qual for sua motivação.

Veja também :

Adicionar um comentario


Codigo de Seguranca
Atualizar