Expedição Tuni-Condoriri 2002 (Bolívia)
por Davi Marski / agosto de 2002 , durante o curso / expedição ministrada entre 13 a 27 de julho de 2002
Esta estava sendo a quarta vez que eu (Davi) voltava para a região do Condoriri, para quem não sabe, na Bolívia situa-se uma das mais belas cordilheiras do mundo : a Cordilheira Real, que engloba desde o Illimani até o Llampu, com diversas montanhas acima dos 5.000m, possui em sua extensão desde rotas tecnicamente fáceis e de aproximação tranqüila, até verdadeiros desafios para quaisquer escaladores. Mas voltemos ao início de tudo...
Esta era uma expedição que já possuía alguns meses de planejamento (alimentação, equipamento, passagens, logística, etc...) e a intenção era a de irmos para o acampamento base do Condoriri e de lá partir para incursões nas montanhas circundantes, treinar travessia de glaciares, escalada em gelo e demais técnicas relacionadas ao ambiente alpino.
No aeroporto de Guarulhos (São Paulo) trocamos as carteiras de vacinação contra febre-amarela (obrigatória no retorno ao Brasil), declaramos os eletrônicos na Receita Federal e fizemos o Check-in no Lloyd Aéreo Boliviano, a passagem em baixa temporada custa em torno de US$ 360,00 e na alta temporada chega a custar US$ 485,00.
Depois de um pouco de atraso, chegamos em Santa Cruz de La Sierra, onde trocamos de aeronave com destino a La Paz. La Paz é fica situada no que seria a cratera de um vulcão extinto, a altitude média fica em torno de 3.500m sobre o nível do mar, e os efeitos da exposição a altitude em breve se fazem notar.
Fomos para um hotel muito procurado pelos mochileiros devido ao relativamente baixo preço : o Hotel Torino (quarto duplo por US$ 10,00), mas existem diversos outros hotéis também econômicos : o Hotel Áustria, o Viena, o Copacabana (este nunca tem água quente....) – em todos estes hotéis você pode optar por quartos com ou sem banheiro, sendo que existe banheiros comunitários para os que optaram por quartos sem banheiro....
No dia seguinte bem cedo fomos acertar os detalhes que faltavam. Um dos primeiros era justamente o transporte para o vilarejo de Tuni, depois de pesquisarmos um pouco optamos por fazer a ida e a volta com o pessoal da Elma Tours (vide informações ao final), ficou em US$ 50,00 cada trecho. Eles fabricam também diversas roupas para montanha e alugam equipamento, inclusive nos venderam benzina para os fogareiros e foram realmente competitivos e honestos em todas as transações - o Jamil inclusive comprou uma calça anorak (cópia fiel dos modelos da North Face) por US$ 35,00. Aproveitamos também para definir os carregadores ou porters que iriam levar a nossa carga, fechamos em US$ 5,00 cada mula que levaria 30Kg cada uma.
Tínhamos coisa de quase 40Kg de comida para os 10/11 dias que ficaríamos na montanha, éramos em quatro pessoas e as contas previstas dariam uma média de quase 3.000 Kcal/dia por pessoa...
Depois de quase 3 ½ h de viagem chegamos na vila de Tuni. Desembarcamos os nossos equipamentos e para nossa surpresa, não haviam mais mulas ! Para contornar as situação, o dono dos animais nos propôs substituir as 4 mulas por 8 lhamas ! A situação parecia ser a de uma verdadeira caravana, com os animais levando as cargas (agora distribuídas) de 15Kg em suas costas....
Nós começamos a caminhar na dianteira dos animais e depois de aproximadamente 4 horas chegamos ao acampamento base. A visão da Cabeza Del Condor era realmente imponente e o vento frio que descia das montanhas nos lembrava a todo o momento da beleza do lugar onde estávamos. Montamos duas barracas, na barraca um pouco maior (modelo Voyager da Manaslu) ficariam o Davi e a Cíntia e na barraca menor ficariam o Jamil e o Thiago.
Montamos uma cozinha improvisada para o fogareiro a benzina, fizemos o primeiro de muitos miojos e fomos para dentro de nossos sacos de dormir. Já na primeira noite o termômetro atingia a marca de -13ºC... Durante a noite o Davi teve uma crise de vômito o que provocou nele uma leve desidratação. O Thiago já havia vomitado durante o decorrer do dia e não parecia estar melhorando.
A falta de aclimatação produz diversos sintomas, entre os mais desagradáveis podemos citar os edemas, a intensa dor de cabeça, a insônia e as ânsias de vômito....
A luz do sol aparecia por volta das 07:30h e desaparecia por volta das 18:30h, o sol mesmo demorava para atravessar a massa da cordilheira e nos aquecer.
Saímos no dia seguinte para um reconhecimento dos arredores enquanto nos aclimatávamos a altitude e dávamos oportunidade para o organismo fabricar glóbulos vermelhos. O Thiago, o mais forte de todos nós, teve novamente algumas crises de vômito e não sentia-se muito bem devido a altitude. Na caminhada de aproximação a Cíntia com menos de 50Kg de peso carregou a mochila do rapaz...
Caminhamos até a base do glaciar do complexo do Illusion e o Thiago continuava com suas ânsias de vômito, na verdade o mal-estar entre nós era generalizado : A Cíntia sentia muita dor de cabeça, o Davi reclamava de uma intensa dor muscular e quem parecia estar se aclimatando melhor era realmente o Jamil.
No dia seguinte fomos (para aclimatar melhor) fazer a escalada do cerro Áustria, ele fica a esquerda do Condor e é uma escalada bastante fácil e trata-se mais de um trekking em altitude, é uma caminhada muito bela, contornando o lago KhiarKota e subindo por uma linha de fácil ascensão. Não chegamos propriamente ao cume da montanha para não gastarmos muita energia e decidimos retornar ao nos encontrarmos no col entre o Condor e o Áustria (coisa de 5.200m). O Thiago estava com uma leve diarréia e continuava com as ânsias de vômito, apesar dos comprimidos, o mal-estar não cedia.
Durante esta noite, como o Thiago não respondia aos comprimidos de Bromoprida que estava tomando, o Davi decidiu aplicar um Plasil injetável nele, sendo que ele respondeu excelentemente à injeção e passou a sentir-se e alimentar-se um pouco melhor.
Os dias eram longos e em nosso quarto dia, depois de algumas instruções do Davi nos preparamos para fazer um ataque ao cume do Pequeno Alpamayo, acordamos por volta das 03:00h da madrugada, e sob o frio cortante preparamos algumas canecas de café com leite, chá e miojos. Vestimos as nossas botas duplas, anoraks e roupas polares e sob a luz de nossas lanternas de cabeça nós quatro começamos a caminhar.
As 06:00h chegamos na base do glaciar, preparamos o encordamento entre nós quatro e começamos a árdua subida até os platôs superiores. Por volta das 11:30h chegamos no platô logo abaixo do Illusion, a escalada do Illusion é tecnicamente fácil, subindo a 45-50 graus ao lado de uma cornisa por coisa de 60-80 metros. Chegamos bastante cansados aos 5.250m do Illusion. Descansamos, bebemos suco e constatamos que o tempo estava piorando rapidamente....
O Illusion tem este nome porque durante toda a ascensão o alpinista tem a impressão de que irá chegar no cume de alguma montanha (no caso o próprio Tarija ou o Pequeno Alpamayo), e ao chegar lá em cima, descobre que está em um platô e que não chegou a lugar nenhum..... Entre o Illusion e o Tarija existe uma canaleta em um misto de gelo e neve ruim bastante sinistra com abismos de ambos os lados...
Atravessamos a canaleta do Tarija e chegamos ao cume desta montanha. O Davi foi na frente e sugeriu que todos atravessassem sem cordas, o que imediatamente provocou protestos da Cíntia em virtude da inclinação e do vento forte que aumentava incessantemente. Colocamos uma corda fixa na travessia e quando nós quatro estávamos no cume do Tarija o tempo piorou de vez, era claramente imprudente continuar sob aquelas condições, as rajadas de vento atingiam facilmente os 120Km/h e a sensação térmica estava na ordem dos -35º a -40º C... Contrariados decidimos voltar para o acampamento base.
O tempo realmente piorava a cada momento, tivemos algumas janelas de calmaria, mas durante a noite as rajadas intensificavam-se. As barracas agitavam-se como se possuídas por forças das trevas e provavelmente devido à exposição a altitude, a Cíntia desenvolveu um edema facial preocupante.
O edema era tão sinistro que a pálpebra do olho esquerdo não abria-se completamente, o Davi então aplicou uma injeção de hidrocortisona e também um diurético (furosemida), 20 minutos depois a Cíntia começava a ir de ½ em ½ hora para fazer xixi (não esquecendo-se de passar a tomar agora comprimidos de potássio para repor a perda do mineral). Inconvenientes a parte, o edema diminuiu consideravelmente e ela passou a sentir-se melhor, de qualquer forma, ela resolveu não voltar a tentar o Alpamayo.
No dia seguinte fomos para uma cascata de gelo colocar em prática as técnicas de cramponagem (americana e francesa) e piolets. A cascata estava maravilhosa e era a primeira vez que o Jamil e o Thiago tinham contato com este tipo de gelo, encontramos de tudo : gelo areado, estalactites de gelo, gelo podre (rotten ice), verglass, gelo sob neve, etc...
Fizemos ancoragem com piolet, com parafusos de gelo, as diversas inclinações, as camadas de gelo – enfim, quase toda a teoria da escalada em gelo foi abordada, até abalakovs no gelo a gente fez (buracos feitos no gelo com os parafusos, onde a gente retira o parafuso e passa no lugar cordeletes) ...
Voltamos para mais uma noite no acampamento e todos sentiam-se mais aclimatados. O Jamil era o carregador oficial da corda e o Thiago levava os litros de suco para a montanha.
Nosso cardápio apesar de pouco variado, nos fornecia os carbohidratos que tanto necessitávamos e a cada dia que passava, procurávamos comer cada vez mais – a coisa chegou ao ponto de estarmos comendo tutu de feijão (desidratado, claro), reforçado com purê de batatas e miojo, além de café-com-leite e castanhas na nossa refeição matinal....
Mais uma madrugada e acordamos novamente as 03:00h para um novo ataque ao cume do Alpamayo, o tempo estava péssimo com bastante vento e voltamos a dormir, neste dia tiramos para descansar e curtir o visual das montanhas.
No dia seguinte a previsão era de tempo bom, preparamos as nossas coisas e realmente, ao acordarmos na madrugada o tempo estava maravilhosamente calmo, com um céu estrelado e uma lua que mais parecia um holofote divino a nos iluminar o caminho. Estávamos apenas nós três (Davi, Jamil e Thiago) caminhando para o glaciar em um ritmo forte.
Parecia que tudo conspirava a nosso favor, iniciamos a subida do glaciar antes mesmo da luz do sol aparecer e logo nas primeiras gretas o Thiago que estava no meio da cordada (o Davi ia na dianteira) sentiu um puxão para trás, qual não é a sua surpresa ao olhar para trás e ver o Jamil enterrado até a cintura dentro de uma greta ! Ele havia caído dentro da greta, pisando em cima dos mesmos passos dos companheiros que estavam na frente, e o que deve ter acontecido foi que a ponte de neve cedeu sob o peso dos dois primeiros.... passado o susto continuamos a subida do glaciar em um ritmo de fazer inveja se houvesse alguém nos acompanhando a subida.
Chegamos no Illusion, atravessamos a canaleta do Tarija, descemos a parte rochosa da outra face do Tarija e começamos a escalada do Alpamayo, como a idéia era proporcionar além da segurança necessária, todo o embasamento prático da escalada em neve, fomos colocando estacas de neve (snow pickets) , parafusos de gelo e usando os piolets para fazermos as ancoragens nas paradas para segurança.
A subida deve ter dado coisa de 8 a 10 enfiadas com corda de 50 metros, sendo que algumas partes foram feitas em livre e não contamos como sendo enfiadas. O Davi guiou praticamente todas (o Thiago guiou a penúltima enfiada) e fornecia segurança “de cima” para o Thiago e o Jamil.
A escalada do Alpamayo é classificada como PD+ (peu dificile) na escala francesa e apresenta segundo um livro/guia de escalada local, inclinação média de 55 graus. Na verdade, no primeiro trecho da subida a inclinação deve beirar os 65 a 70 graus. Diversas pessoas contestam esta dificuldade proposta, devido principalmente a altitude e a qualidade bastante duvidosa do gelo e inclinação da parede...
Chegamos ao cume da montanha por volta das 13:00h e tivemos uma visão espetacular de toda a Cordilheira Real, podíamos ver o Illimani, o Mururata, o Sajama, o Llhampu e o até o lago Titicaca ! O tempo estava tão excelente que nós divertíamos no cume contando piadas, descansando, tirando fotos .... Não havia sequer uma brisa soprando (em contraste com os fortes ventos dos dias anteriores) e podíamos ver abaixo de nós várias nuvens....
Infelizmente tínhamos de voltar.... montamos paradas baseadas em estacas de neve e o Thiago e o Jamil rapelavam e o Davi descia desescalando, após alguns momentos estávamos novamente na base do Tarija para iniciar a subida....
Ao descermos o glaciar paramos em uma das gretas para treinar auto-resgate, ancoragens, etc... o dia foi um dos mais longos em toda a expedição e chegamos ao acampamento base por volta das 19:00h. Comemos como esfomeados, até sardinhas incluímos no macarrão para dar aquele reforço !
No acampamento base haviam alpinistas de diversas nacionalidades, brasileiros que somos, logo fizemos amizade com os alemães, os franceses, americanos, canadenses, holandeses e argentinos que compartilhavam o acampamento conosco.
Conhecemos um italiano muito simpático que nos convidou (ou melhor, nós nos oferecemos para ir) uma noite para comer uma truta frita na casa dos bolivianos... Foi uma noite de bastante diversão, muitas piadas e bastante alegria. Comemos arroz, batata e truta, acompanhada devidamente de coca-cola....
O dia combinado para o retorno chegou e desmontamos as nossas barracas, guardamos os equipamentos e foi tudo para as costas das mulas. Desta vez tínhamos devidamente três mulas, capazes de carregar os quase 100 kg de equipamentos que teríamos de voltar para La Paz.
Chegando em La Paz tivemos a infeliz idéia de trocar de Hotel, saindo do Torino e indo para o Copacabana, que além de ser mais caro (US$ 16,00 o quarto duplo), oferecia a mesma falta de higiene, e o que é pior : a água quente acabava toda hora.....
A cidade estava na maior agitação, havia uma espécie de festa nacional e o povo estava nas ruas, dançando e havia música de todos os gêneros nas ruas lotadas da cidade. Ficamos passeando e curtindo o movimento da noite...
No dia seguinte, que seria nosso último dia em La Paz, saímos para visitar alguns museus, comer bem, passear e tirar fotos, infelizmente a viagem estava chegando ao fim – teríamos de voltar para o Brasil ! Estaríamos voltando apenas o Davi, a Cíntia e o Thiago, o Jamil estava ficando para tentar o Huyana Potosi e o Illimani – depois através de email ficamos sabendo do péssimo tempo, das nevascas e das dificuldades que fizeram com que o Jamil tivesse de desistir destas escaladas....
La Paz é uma cidade acolhedora e é imprescindível que o visitante estava livre de preconceitos culturais e aberto para absorver toda a diversidade que o país oferece. A Cordilheira Real é um verdadeiro parque de diversões, com diversos cumes acima dos 5000m e níveis de dificuldade acessível para todos. Certamente vale a pena conhecer !
Davi Marski é guia de montanha com mais de 12 anos de experiência, junto com ele, foram nesta expedição sua esposa (como pseudo-cozinheira e fotógrafa oficial), Jamil Said e Thiago Fernandes – ambos como alunos do curso de escalada alpina.
Dicas e informações :
Existem diversos hotéis na cidade, os escaladores em geral ficam em um desses :
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Hotel Torino, US$ 10,00 o quarto duplo, este possui uma excelente localização e tem uma espécie de lanchonete / cyber café no térreo - Calle Socabaya 457
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Hotel Viena, US$ 10,00 o quarto duplo
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Hotel Áustria, US$ 8,000 o quarto duplo - Calle Yanacocha 531
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Hotel Copacabana, US$ 16,00 o quarto duplo, com café da manhã e na maioria das vezes sem água quente....
Existem diversas empresas que fazem transfers, alugam e vendem equipamentos, praticamente todas estão na Calle (rua) Sagarnaga, podemos recomendar :
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Elma Tours, falar com o Genaro, , transfer ida e volta para Tuni por US$ 100,00 , mulas por US$ 5,00 – eles fabricam também equipamentos (roupas) para escalada, a calça e blusa anorak ficam por US$ 35,00 cada um ! fazem cobre luvas e vendem polares (US$ 15,00 cada), inclusive calças de polar. O endereço é Calle Linares, uma travessa (coisa de 50 metros) da Calle Sagarnaga, fica dentro de um galeria. O Telefone é 245.6823, o celular do Genaro é 719.78146, o email é illimani_yupanqui@hotmail.com
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Andean Summits, transfer ida e volta para Tuni por US$ 150,00 , mulas por US$ 10,00 - 710 Prolongación Armaza Street, Sopocachi La Paz - Bolivia
PO Box 6976 telefone (591-2) 242-2106 E-mail: info@andeansummits.com
Na Internet você pode tentar :
http://www.lonelyplanet.com/destinations/south_america/bolivia
www.andeansummits.com
Boas escaladas !
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