Escalada do Illimani (Cordilheira Real , Bolívia)

por Vitor Negrete
Data: 4/6/2002

 

A aproximação pode ser realizada por Estância Una e depois Pinaia ou por Cohoni. Aconselho a aproximação por Pinaia, um pequeno vilarejo bucólico nas margens da montanha.

Puente roto é um dos acampamentos base mais lindos que já conheci. Normalmente verde, com pequenas corredeiras de água de desgelo descendo por um leito sinuoso. Guardo muitas boas lembranças deste lugar.

Vamos colocar os tempos de percurso: de Pinaia a Puente Roto – 2h; de Puente Roto para Nido de Condores – 5h ; de Nido para o cume de 5 a 7h.

Por mais cansativo que pareça, acho legal descer até Puente Roto no dia do Cume. Já voltei até Pinaia, mas é bastante cansativo. O importante é pensar qual a melhor situação para se hidratar e se alimentar. Se, ficando em Nido, você se sentir melhor para derreter neve e comer, pode ficar em Nido tranqüilamente.

O transporte para a montanha é difícil, assim como quase todo transporte na Bolívia. As linhas de transporte não são regulares, muitas vezes dependendo da disposição do dono do ônibus em dirigir. Existe uma linha que passa por Quilihuaya (1h30 de caminhada de Estância Una), que, às vezes, passa pelo entroncamento-aquoduto de Una (30min. de caminhada até Estância Una).

Os transportes saem por volta das 5 da manhã da Rua Rodrigues, perto do mercado com o mesmo nome. Chegue muito antes para guardar seu lugar.

O transporte para Cohoni passa pelo aqueduto de Una e sai da Calle General Luis Lara esquina con Boquerón no bairro de San Pedro. A viagem demora de 4 a 6 horas. É fácil conseguir mulas e/ou carregadores até Puente Roto. A mula de Pinaia a Puente Roto sai por volta de 10 dólares e o porteador de Puente Roto a Nido de Condores tem o mesmo preço.

É aconselhável contratar alguém para cuidar de sua barraca, caso você suba e deixe uma barraca em Puente Roto. De forma geral, duplas experientes podem tentar a montanha sozinhas.

A segurança é uma preocupação em todas atividades outdoor. Nenhum guia escrito pode alertar ou prever todos os riscos ou limitações do leitor. Quando você seguir alguma das trilhas descritas nestas páginas, você assume a responsabilidade pela sua própria segurança.

A prática da escalada requer formação e treinamento. A formação pode ser adquirida em cursos de escalada (fornecidos em boas escolas) e o treinamento depende da dedicação e determinação de cada um.

As atividades outdoor nos levam a um outro universo, onde colocamos em prova nossa resistência, paciência e determinação. Onde conhecemos as pessoas como elas realmente são. Onde a natureza nos envolve com sua força (que pode ser destrutiva), trazendo momentos inesquecíveis para a nossa alma, momentos que podem dar sentido a uma vida.

A rota normal, a partir do acampamento Nido de Condores (5.500m), pode ser descrita da seguinte forma: Grade II, 50º (maior inclinação encontrada), 1000m de desnível, de 5 a 7 horas até o cume. A rota normal sobe pela cara oeste da montanha.

Saindo do acampamento Nido de Condores, siga a aresta. Cuidado, seis chilenos caíram descendo por ela em 1989. Algumas gretas grandes são encontradas na rota, mas elas são normalmente visíveis, bastando contorná-las. A parte mais empinada da rota (50º) tem 20 metros. Suba procurando um caminho pelo lado esquerdo do cume (norte).

Antes da subida que leva ao que é chamado de falso cume, pois o cume somente é visível após se superar o falso cume, existe um entalhe na parede de gelo. Já vi esta passagem de formas diferentes, pois nas montanhas de gelo cada ano é um ano, e o gelo também muda do início ao fim da temporada.

Logo após uma rampa de gelo deve-se cruzar para a esquerda e superar uma rampa de gelo que começa em uma greta formada pela falha na parede de gelo. Cuidado, neste ano 2 franceses caíram neste lugar.

Coloque uma estaca e preste bastante atenção, em especial na descida. Nunca escale sem piquetas. Eu sempre uso duas piquetas técnicas, mas a combinação de uma clássica e uma técnica também é muito boa para esta via. No final desta longa rampa, que pode ter trechos de gelo duro, dependendo do ano e da temporada, se chega a um campo aberto, de onde se observa uma aresta que sobe para o sul. Siga esta crista exposta até o final.

Acho legal sair de Nido de Condores para iniciar a escalada no máximo às 4 horas da madrugada. Na última escalada acordamos à meia noite e saímos às 2 da madrugada. Uma observação um pouco óbvia: para escalar o Illimani é necessário estar aclimatado, aconselho somente escalar a montanha após, pelo menos, 7 dias na Bolívia e após haver aclimatado em outra montanha, ou após um tempo maior de estadia em altura.

A descida segue o mesmo caminho e leva de 2 a 3 horas até Nido de Condores, e mais 2 ou 3 horas até Puente Roto.

A aproximação para o Illimani se inicia na cidade de La Paz, lar de mais de um milhão de bolivianos, a maior cidade do país e seu centro comercial, financeiro e industrial. E embora Sucre permaneça a capital judicial, La Paz possui maior poder político.

Visite a Igreja de San Francisco. Visite os museus para conhecer a história, arte e cultura. Vá a uma peña para experimentar o folclore tradicional. Compre artesanatos nas imediações da Calle Sagarnaga.

Gaste um dia para visitar Tiwuanaku (ruínas de uma civilização pré-incaica, impressionante), sua aclimatação pode começar por aqui. Se tiver tempo visite a zona sul para conhecer o outro lado de La Paz e o Vale de La Luna.

O Hotel Rosário é muito interessante, sempre limpo e com um excelente café da manhã. (www.hotelrosario.com). Gosto muito deste hotel.

Vá ao Restaurante Vienna na Calle Federico Zuazo, 1905, mas ligue antes para conferir se está aberto (tel:2441660). A comida é excelente e o lugar muito agradável.

Quando cansar da comida boliviana e do Vienna, vá ao Paladar, um restaurante brasileiro na Calle Fernando Guachalla, 359 (tel:2441812). A comida brasileira pode ser um oásis gastronômico depois de algum tempo em La Paz.



 

Illimani - Texto original escrito por Charles Wiener
 

O Illimani se eleva sobre uma base ciclópeca de estrutura quase retangular. As duas da manhã, a expedição se pôs em marcha até o alba, chegando a 4.278m de altura, a partir da qual tiveram que abandonar as mulas e continuar a pé. Aos 4.545m penetraram no domínio das neves.

À medida que ganhavam altura, as pendentes de gelo se tornavam mais inclinadas (35 a 40 graus), os obrigando a usar suas mãos para poder continuar. Às duas horas e quinze minutos, da tarde, chegaram a uma altura de 5400m.

Quando Don José Maria Ocampo foi colhido por uma vertigem, os índios se negaram a continuar adiante dando para isto a explicação de que nesses lugares existem deuses que guardam seu santuário de gelo. Na manhã seguinte, realizando proezas incríveis, devido aos ventos provenientes do sul, os alpinistas, ora escorregando,ora afundando na neve em placas chegaram ao colo sul. Às três horas e vinte minutos da tarde, decidiram continuar até o cume.

Já nenhum deles tinha a figura humana, todos haviam sofrido o intenso frio e a fadiga, suas caras eram violáceas com manchas de um morado escuro e o branco de seus olhos se havia tornado vermelho. As queimaduras pelo sol e o vento doíam tremendamente. Dos dez índios contratados em Cotaña, somente ficavam três com eles, a pesar de que desejavam descer o mais rápido possível. Apressaram o passo e logo de uma subida difícil desembocaram no ponto extremo, uma sela reduzida de pedra (15 passos quadrados), perigosamente exposta às tormentas incessantes.

A atmosfera revestia uma transparência extrema e permitia ver ao longe centenas de vales e arestas que pareciam amalgamar-se em um todo soberbo que somente a natureza é capaz de entrelaçar e sobrepor desde este mundo ainda desconhecido para os homens.

Uns poucos minutos bastaram para fazer as experiências científicas e observar a razão pela qual, de certo modo, a expedição havia enfrentado este monte andino. O barômetro marcava 518mm, como ponto de ebulição da água 79º. Estes resultados foram escritos sobre um pergaminho e este introduzido em um tubo duplo de vidro e metal para ser em seguida enterrado na neve. O cão de Charles Wiener não o abandonou em nenhum momento; morreu logo após o descenso.

O Illimani, tem 20.112 pés sobre o nível do mar, o 19 de maio de 1877, às 14:50 horas. Quem les escreve foi encarregado pelo governo da República Francesa com uma missão científica na América meridional e acompanhado pelo Mr. Barão de Grunkow, engenheiro e José Maria Ocampo, realizaram no dia de hoje a ascensão.

O barômetro indica uma elevação de 21.122 pés, altura que não foi alcançada até agora em nenhuma parte do mundo. Fazendo uso dos meus direitos para dar a esta terra, cujo cume sou o primeiro a pisar, o nome de Pico de Paris, limitando esta denominação ao pico sudeste do grupo chamado Illimani. Encontro-me atualmente situado no paralelo 70º6’21’’ a uma altitude de 16º6’21’’ e uma longitude de 6.131m.

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