Mont-Blanc: Berço do Alpinismo
Escalar uma montanha pelo puro prazer de pisar em cima, ser mais um "conquistador do inútil", enfrentar perigos e expor-se aos caprichos violentos da natureza, isto é hoje uma atitude comum. E a atual diminuição do tempo de trabalho, a melhoria dos meios de comunicação e os progressos constantes dos equipamentos vão cada vez mais amplificar o fenômeno. Mas no século XVIII, era preciso bastante independência de espírito e sangue frio para ir contra a corrente poderosa dos preconceitos, numa época em que não se falava em tempo livre, em lazer. Num tempo em que reis e governantes montavam grandes expedições terrestres e marítimas em busca de mais território, mais riqueza e mais poder, ninguém via o menor interesse em pisar no topo de uma calota de gelo a mais de 4000 metros de altitude. Provavelmente é a gratuidade do ato de dois homens de Chamonix num dia de Agosto de 1786 que fez a sua grandeza.
Horace Benedict de Saussure é uma figura emblemática do século XVIII. Aristocrata de nascimento, ele dedicou a sua vida ao estudo científico, botânico e à defesa dos valores do humanismo divulgado pelos filósofos franceses neste "século das luzes". Como todo cientista, ele satisfazia a sua curiosidade na prática e passava boa parte do seu tempo imaginando experiências novas. E da janela da sua casa, em Genebra, ele via o Mont-Blanc, imponente. "Se eu conseguir levar um termômetro no topo do Mont-Blanc, eu vou fazer a medida de temperatura mais baixa já registrada: -10 ºC, -100 ºC, quem sabe talvez -1000ºC ?". Como não tinha tanta audácia física como intelectual, ele ofereceu um prêmio a quem chegasse primeiro no topo do Mont-Blanc.
Camponeses de Chamonix estavam bem longe dessas considerações científicas e trabalhavam duro durante o verão para conseguir uma colheita suficiente para enfrentar o inverno rigoroso. Os únicos que se aventuravam na montanha, eram caçadores. Caçadores de animais e de cristais. Saíam de manhã cedo e voltavam antes do anoitecer porque acreditavam que durante a noite fantasmas, ogros e outras criaturas terríveis, invadiam a montanha. Era só escutar barulhos de blocos de gelo caindo para imaginar a violência desses demônios. Caçador, Jacques Balmat era um dos melhores. Ele se arriscava cada dia mais alto, passando provavelmente boa parte do seu tempo observando o Mont Blanc, fascinado. Um dia, ele perdeu a noção do tempo. A noite caiu e Balmat, sabiamente mas certamente com medo, resolveu não descer no escuro num terreno perigoso, e se escondeu embaixo uma grande pedra. Durante toda a noite escutou os barulhos da montanha, mas não viu monstros. De manhã desceu ao vale e não contou a sua aventura temendo as reações do povo preconceitoso. Só ao Doutor Paccard, personalidade respeitada e de cabeça aberta, ele abriu o seu segredo. O projeto se formou num instante: Se não existem os tais monstros, porque não tentar subir até o cume ?
Não foram precisas muitas tentativas para que conseguissem. A via de conquista não apresentava dificuldades técnicas e esses homens duros, habituados ao frio e a desníveis longos, temiam muito mais os demônios que o cansaço. E no dia 8 de Agosto de 1786, Jacques Balmat e o Doutor Gabriel Paccard atingem o topo do Mont-Blanc. Essa data é fundamental na história das grandes conquistas humanas. As repercussões da conquista como o entusiasmo que se manifestou depois para outras ascensões (e especialmente no ano seguinte, o próprio Saussure que fez questão, a via finalmente aberta, de fazer a suas medidas de temperatura no cume), mostraram que era respeitável tentar subir as montanhas pelo puro e único prazer de fazê-lo. E assim nasceu o alpinismo.
Invasão inglesa nos Alpes:
Depois da façanha de Paccard e Balmat, o alpinismo se organiza em Chamonix: a Companhia de Guias de Chamonix nasce em 1821. Ela oferece serviços para os alpinistas, basicamente caminhadas e excursões no gelo. As fotos das Damas de Paris com saias compridas e salto alto atravessando imensas fendas de gelo com ajuda de escadas são de cortar o fôlego! Mas um século após a conquista, ainda era raríssimo encontrar um turista pedindo um guia para escalar o Mont-Blanc. Enriquecidos pela revolução industrial e grandes viajantes, os ingleses frequentam Chamonix com assiduidade. Entre eles alguns não vão se satisfazer com a oferta da Companhia dos Guias e vão simplesmente contratar guias para novas conquistas.
Edward Whymper é o protótipo do viajante inglês: Discreto, observador, taciturno. O relato publicado da sua travessia integral dos Alpes franceses é de um interesse histórico incomparável e de uma ausência de emoção exasperante. Geralmente com o grande guia suíço Michel Croz, ele fez as primeiras ascensões de várias montanhas do maciço, entre elas a Aiguille Verte e as Grandes Jorasses. Vias que hoje ainda fazem o orgulho de quem as escala. A sua maior conquista foi porém fora do Mont-Blanc. Com Croz, ele atingiu o topo do Matterhorn em Zermatt, na Suíça.
Quer saber mais a respeito dessa ascensão histórica ? Vai ser preciso esperar outra edição do Hang On...
Até 1880, só se fazia escalada em neve e um pouco em gelo. Não existia prática específica da escalada em rocha. Os ingleses foram inovadores, abrindo no Lake District, norte de Londres escolas de escalada em rocha. Um dos mais hábeis era Mummery que não demorou para testar as suas habilidades no maciço do Mont-Blanc. E ele o fez com grande classe. Em 1881, abriu uma via no Grépon, uma das Aiguilles de Chamonix, imponente fortaleza de granito. Para conseguir, ele forçou a passagem chave hoje conhecido como "fenda Mummery". Isto sem nenhum equipamento, num terreno totalmente inviolado pelo homem. Todo ano, ainda hoje em dia, encontram-se alpinistas sofrendo para conseguir essa passagem.
A conquista do Grépon teve grande repercursão em Chamonix. E Mummery, com humor tipicamente inglês, fez a descrição da via: "a escalada mais difícil dos Alpes, uma ascensão fácil para as mulheres" explicando assim que foi preciso muito mais intuição de alpinista do que força física para chegar e voltar do cume.
Daí vem a noção de que estes alpinistas eram realmente fora do comum. O equipamento limitava-se a uma corda amarrada diretamente na cintura, um par de botas com pregos fixos fazendo o ofício de um crampon no gelo (mas que incômodo na rocha !), e pouco confortáveis roupas de lã. O que tinham de mais precioso ? Um entusiasmo sem limites, um conhecimento profundo da montanha e um senso intuitivo do itinerário. Verdadeiras obras de arte, algumas vias de ascensão em Chamonix impõem ao alpinista atual um imenso respeito pelos pioneiros.
Ensinamentos: Entusiasmo e lucidez.
A história das conquistas alpinas em Chamonix é uma sucessão de façanhas e dramas. Os alpinistas que a escreveram criaram uma tradição ainda bem viva baseada nos valores resumidos pelo grande guia Gaston Rébuffat que dedicou a sua vida ao maciço do Mont-Blanc: Entusiasmo e lucidez. Balmat, Croz, Whymper, Mummery e todos os grandes alpinistas da história, são os elos da bela corrente da conquista e da tradição alpina. Pelas suas ascensões, eles colocaram em evidência um dos aspectos mais nobres do ser humano: A auto-realização através de desafios gratuitos.
As conquistas de Whymper e Mummery marcaram o fim de uma época em Chamonix: a idade de ouro, a das conquistas dos cumes. A partir daí, os alpinistas se dedicaram a abrir novas vias nas montanhas já conquistadas, cada uma tendo suas próprias características. Com técnica e equipamento evoluindo, sempre se apresentam novos desafios: ascensão solitária, ascensão invernal, ascensão solitária invernal... O que parecia inconcebível torna-se de repente viável. Perigoso, arriscado, com certeza. Mas viável. E assim, o maciço do Mont-Blanc continua sendo o laboratório das evoluções do mundo alpino. E a tradição mantém o edifício de pé, a paixão pelas montanhas servindo de cimento.
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