O último oito mil metros
Localização: Himalaia central,
Tibet
28°21'N 85º47'E
Um homem não é 'chamado'; ele não tem nenhuma
'missão', nenhuma 'vocação verdadeira', nada a mais do que uma planta
ou animal que recebe um 'chamado'.
Max Stirner
Uma grande parte dos membros de uma expedição gastam
a melhor parte de seu tempo sonhando sobre suas esposas. Mas deve-se
também dizer que muitos homens - que se supõe inteligentes e bem
equilibrados - vão para as montanhas para ficar longe de suas esposas.
Pierre Chapoutot
Shisha Pangma: "Névoa encobre a vista"
Shisha Pangma não é mais considerado como o menor oito mil metros - nos últimos estudos o Gasherbrum II foi colocado nessa posição. Visto do norte, está completamente só, um solitário, parecendo uma estranha formação ao fundo do Platô Tibetano cor de terra. O Shisha Pangma, para mim, é um dos mais bonitos oito mil. É como uma aparição expressionista!
Nossa expedição de 1981 era composta por quatro escaladores (homens) e duas não-muito-extremas escaladoras (mulheres). Incluía Gerhard Baur como cameraman, e dois dos meus mais frequentes companheiros em escaladas dos oito mil metros. Dr. Oswald Oelz e Friedl Mutschlechner. Chegamos ao Acampamento Base em 10 de maio depois de uma expedição feminina japonesa - a qual incluía Junko Tabei - ter alcançado o cume do Shisha Pangma pela rota normal.
Com um permit em mãos da CMA - Chinese Montaineering Association , em Pequim - viemos por Pequim, Chengdu e Lhasa. Notamos, nos mercados em Lhasa e nas vilas nas montanhas, que desde a última vez em que estivemos lá pequenas concessões foram feitas pelos chineses para os tibetanos. De Lhasa fomos para Shigatze onde visitamos Tashilumpo, o mosteiro do Panchen Lama. Finalmente fomos para Tingri, que é situado a 4400m acima do nível do mar, e permanecemos lá por dez dias aclimatando. No começo de maio andamos, de carro e à pé pelo Platô Tibetano até os 5000m, e montamos o Acampamento Base ao lado de um pequeno riacho que vinha diretamente do Shisha Pangma.
A Face Norte do Shisha Pangma, nosso objetivo, é praticamente tão alta quanto a Face Norte do Matterhorn. Ela surge na parte de cima da montanha, acima do vale do glaciar usado também na rota normal (a da primeira ascensão chinesa), e então vai à esquerda na Face Nordeste. A parede do cume é cruzada diagonalmente por uma rampa, a qual por sua inclinação pode ser comparada com as rotas clássicas da Face Brenva do Mont Blanc.
Naturalmente, eu queria escalar o Shisha Pangma sem oxigênio artificial, sem cordas fixas e sem carregadores nos níveis mais altos. Meu plano era levar nosso equipamento do Acampamento Base até 5800m com yak, o gado local que é adepto a escaladas e tolerante a altitude. Lá iríamos estabelecer o Acampamento Base Avançado. Seguiríamos a rota chinesa até o pé da parede, deixando um pequeno depósito embaixo da face inclinada ao redor dos 7000m. Um pequeno bivaque mais acima seria necessário para o ataque ao cume.
Gerhard Baur estava com dores de cabeça, provavelmente por causa da altitude. Oelz, Friedl e eu estávamos em plena forma, mas o tempo acabou com nossos planos. As monções chegaram duas semanas mais cedo que o normal. Apesar disso, Friedl pressionava. Ele estava pronto para o cume. Ele sabia como eu me sentia em ir para casa com as mãos vazias de uma escalada de um oito mil. Em 27 de maio, quando o dia começou a raiar, ele nos convenceu a começar. Nos movíamos com dificuldade pela rota normal. Com um vento que tirava nosso fôlego, escalamos 400m acima do último bivaque.
Não havia sentido em ir mais alto. Eu dizia isso a mim mesmo a quase duas horas. Duas semanas mais cedo ou não, as monções estavam sobre nós. Se não fôssemos para baixo logo, seria muito tarde. Alguém um dia passaria sobre o que sobraria de nós, da mesma maneira que eu já havia passado por outras vítimas: escaladores mumificados nos seus casacos de pena de ganso, seus corpos preservados no gelo eterno.
Em pouco tempo a profundidade da neve transformaria a rota de descida num pesadelo de avalanches. Se o a nevasca piorasse e a névoa ficasse mais espessa, seria impossível saber a direção certa de nosso caminho. Friedl, que estava nos incentivando, pisando firme na neve, estava indo como um bate estaca. Foi ele quem nos estimulou pela manhã, mesmo com a tempestade que estava se formando, e era ele que não queria desistir. Para ele, era uma questão de honra continuar indo para o topo, que agora se levantava para nós. Dois anos antes ele havia sido forçado a voltar um pouco antes do cume do K2. Mais uma vez, somente uma pequena distância o separava de sua meta, Shisha Pangma, o primeiro oito mil de sua carreira. Minha meta, entretanto, era uma pequena barraca, 1200m abaixo do cume, a qual havíamos deixado naquela manhã e que agora tínhamos que voltar com urgência para sobreviver.
Nunca havia me deixado enganar sobre minhas expedições aos cumes mais altos desta terra. Sempre soube que alguma coisa poderia sair errado, mas ao mesmo tempo me preparava para perigos concebíveis e planejava em detalhes o que fazer nessas circunstâncias. Dessa maneira tive sorte suficiente para olhar do topo de cinco diferentes oito mil metros, cinco dos catorze que existem. Ainda assim alguma coisa inesperada estava acontecendo agora. As monções nos havia pego de surpresa, e nenhum oito mil é vencido facilmente numa tempestade de monção. Fragmentos de outras expedições flutuavam em minha cabeça.
Pensei no mundo abaixo, o qual nos havia castigado quatro dias antes. Pensei em Uschi, minha esposa há seis anos, que estava esperando por mim lá embaixo no Acampamento Base a 2000m de nós. Com certeza ela e Vanessa, mulher de Oelz, estariam olhando pelo nosso telescópio especial, tentando nos fazer sair dali. Duvidava que pudessem ver alguma coisa neste inferno; nossa própria visibilidade era quase nenhuma. Pensava sobre o Tibet, uma terra que esteve fechada para estrangeiros por tanto tempo depois da invasão chinesa, mas através da qual estávamos viajando há um mês. Éramos dos primeiros grupos a ter permissão para entrar. Ficamos surpresos e chocados ao ver o quanto havia sido alterado desde o vôo do Dalai Lama em 1959 e a tomada governamental de Pequim comunista. Pessoas locais nos disseram que dos 3600 mosteiros que uma vez haviam sido a fortaleza religiosa do Tibet, somente treze permaneciam em pé hoje. Todos os outros foram destruídos e muitos monges morreram nos campos de trabalho chineses.
Lá embaixo , no vale, eu frequentemente me perguntava como tal coisa foi possível; como podia um país, tão bem protegido pela natureza, ser destruído dessa maneira? Mas eu também havia observado como as pessoas comuns haviam prevalecido apesar de sua tristeza e sofrimento. Eles não haviam nunca se rendido a seus conquistadores chineses e assim haviam conservado uma parte de sua liberdade. Restrições são gradualmente relaxadas e eles agora podem fazer algumas coisas que foram proibidas por um longo tempo. Eles podem fazer comércio novamente, e o que é mais importante para eles, podem praticar sua religião livremente.
Pequim tem garantido aos tibetanos uma liberdade que mesmo na China seria impensável. Talvez uma parte dos líderes reconheceram que somente um Tibet autônomo poderia prover uma defesa contra as forças principais do sul e oeste.
Pensamentos como estes estavam ocupando minha cabeça enquanto batalhávamos contra a tempestade de monção.
Eram 8 horas da manhã quando chegamos numa pequena barraca; ela havia sido rasgada e o vento estava trazendo neve para dentro. Nos movemos lentamente contra os flocos de neve e paramos nesse abrigo com nossas mochilas.
Quando Oelz batalhou seu caminho para cima até nós de um acampamento mais abaixo, perto do meio-dia, a posição era esperançosa. Oelz e eu havíamos estado no topo do Everest como membros de uma expedição em parceria, e gostaríamos de ter feito o mesmo aqui. Mas a situação ficava mais aterrorizante conforme o tempo passava, as rampas inclinadas com muita neve estavam prontas para avalanches. Não tínhamos outra alternativa a não ser abandonar o acampamento, esta pequena barraca a 7500m, deixada para trás pelos japoneses, e voltar para nossa própria barraca de bivaque, montada na noite anterior.
A tempestade bateu sobre nossa barraca a tarde toda. Não conseguimos dormir nem por um instante. As duas horas da madrugada estava ainda soprando. Friedl olhou para fora, 'o céu está limpo', ele falou 'daqui a pouco vai parar de ventar!'. Mais uma vez ele estava pressionando para ação. Ele estava tão certo de que poderia fazê-lo, eu me vesti. Pensei secretamente que não havia sentido nisso, não disse nada, e às 5 da manhã saímos. Desta vez sem Oelz.
A tempestade arremessava punhados de cristais pontudos em nossas faces. Havia realmente estrelas no céu. Notamos uma canaleta estreita acima de nós, abaixo de onde havia ocorrido uma avalanche durante a noite. Era uma questão de sorte, se seríamos capazes de escalar seus sua face polida e passar por rochas íngremes para alcançar a aresta.
Foram horas até estarmos no caminho mais fácil. Enquanto isso a tempestade começou novamente, nos envolvendo numa nuvem densa. Não conseguíamos ver além de poucos metros a frente. Isto é loucura, disse a mim mesmo. Escalar um pico como este no meio das monções - absoluta loucura. Mas não havia volta.
A tempestade se tornou tão violenta que tivemos que nos abrigar. Ainda assim não havia como segurar Friedl. Ele queria continuar a ir para cima. Ele queria o cume. Doze anos de experiência me diziam que esforço era necessário para escalar sem oxigênio nestas altitudes. É um tremendo esforço - mesmo sem as monções levando seu fôlego embora. Minha excitação durou não mais que um minuto. Somente um momento era tudo que Friedl precisava para me inspirar a esquecer nossa posição exposta, e esquecer este empenho sem sentido - pelo menos nesse momento.
A nuvem ao nosso redor era como uma neblina em minha cabeça, estonteante. Nela, era fácil perder todo meu senso de direção. Aquilo era realmente uma pessoa em minha frente? Friedl? Como alguém podia continuar indo sem ver o chão e nem o céu? Sem cor, amorfo, céu e terra misturados. Escalávamos, com olhar amplo, no cinza de neve e névoa. Um pouco para frente , depois para trás, alguns metros à esquerda, então à direita, compensando, cancelando. Talvez precisasse fazer tudo de trás para frente aqui.
Eu podia ver nossa trilha por uns 10 metros atrás de nós. As nuvens ajudavam a escondê-la. Um pouco mais abaixo ela já havia sido soprada. Como íamos devagar! Quando seu senso de espaço desaparece, o tempo vai com ele. Sem cansaço, nem ansiedade, somente esta sensação de estar perdido no espaço. Eu não agüentava mais isso. Pelo menos não com os dois pés na neve. Somente quando Friedl olhava em minha direção, eu era capaz de me ajustar no tempo e no espaço. Ele estava obviamente espelhando o mundo que eu estava vivendo agora.
Nenhum de nós falou naqueles últimos metros. Como robôs, nos aproximamos de nosso objetivo. Então estávamos lá em cima. Abracei meu "chefe". Era o seu primeiro oito mil - razão para celebrar, mas não aqui. Olhei pela nuvem espessa. Uma janela havia sido aberta através da qual pude ver o Planalto Tibetano. Que longo caminho fora do mundo era aqui, pensei. Três dias mais tarde, estávamos de volta à ele.
O fim de uma expedição não significa somente relaxar sua guarda, estar seguro. Também significa amar e pertencer. A necessidade de me dar completamente para alguém, minha companheira, nunca é tão grande como depois de descer de uma grande montanha. O perigo passado me faz cravar novas experiências limites, mas eu também preciso de amor e de carinho. Carência é precedida por muitos outras privações. Talvez isso explique o aumento da necessidade por amor antes e depois de experiências no limite da existência humana, explica porque minha saudade seja tão grande.
Originalmente propusemos a escalada da Face Norte pela rampa diagonal, correndo da direita para a esquerda, do grande vale abaixo da parede do cume até o cume secundário, e daí para o cume principal. Parecia uma linha lógica, mas por causa da quantidade de neve das monções na rota, não fomos capazes de tentá-la. Ao invés disso, seguimos uma canaleta à direita da rota normal, retomando a rota normal na parte final da escalada. Nos aproximamos do cume da mesma maneira que todos antes de nós.
Em 1981, na época de nossa expedição ao Shisha Pangma, escalada em alta montanha e em particular as façanhas das viagens de montanhismo para outros países estava se tornando mais profissional. Não somente para mim, mas para muitas pessoas também. Ninguém era realmente pago para escalar um oito mil, mas era possível financiamento para tais aventuras.
Se você olhar para o lado econômico destas expedições como um empreendimento financeiro, o que de certo modo o é, você vai estar falando de um sistema de financiamento. Em uma época somente milionários grandes corporações podiam ter recursos para expedições. Hoje, qualquer um que pretenda fazer algo novo, que tenha habilidade de fazer o marketing de sua idéia e de si mesmo, pode conseguir o dinheiro para isso. É claro, deve-se estar preparado para trabalhar duro. Mas então, escrevendo notas da viagem, ou dando palestras, ou dando às indústrias de equipamentos os benefícios de sua experiência técnica, é possível ter fundos para o próximo projeto. Você pode somente fazer isso indefinidamente se for uma dessas pessoas que continua tendo novas idéias, um pioneiro de uma maneira ou outra.
Depois de ter ido ao Tibet, vi minha escalada de outra forma. Não somente por causa do Lamaísmo. O rítmo de vida tibetano, e a atitude tibetana diante da morte teve influência em mim. Solidão tomou outro sentido. Ver a vida como uma escalada em seus próprios mistérios parecia tão lógico naquela terra. O desejo de me perder, e logo me por em prova, se tornou mais forte que a ambição de ser o melhor. Milarepa (1042-1123), que meditou no Everest, me fascinou, assim como Gesar, um legendário herói tibetano.
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Shisha pangma - Alguns fatos Históricos |
1963
Um grupo da
China Central e do Tibet faz um reconhecimento desse pico isolado, que
a princípio era mais conhecido pelo seu nome indiano, Gosaithan. Com
8046m, este é tido como o menor oito mil metros. Eles escalam o flanco
norte até uma altitude ao redor dos 7200m.
1964
Somente
depois de um ano de seu reconhecimento, escaladores chineses e
tibetanos obtém sucesso fazendo a primeira ascensão. Em 2 de maio um
total de dez escaladores alcançam o cume pela Face Noroeste e Aresta
Norte. A queda de três dos homens na descida por sorte não resultou em
morte.
1980
Shisha
Pangma se torna acessível para estrangeiros. Durante uma expedição
alemã liderada por M. Abelein e G. Sturm, duas cordadas alcançam o cume
pela rota de 1964 no período pré-monções. Uma tentativa pela Face Norte
falha ao redor de 7500m. No outono um grupo austríaco sob liderança de
H. Mautner é bem sucedido na mesma rota. O médico da expedição, Dr.
Alt, quebra os dois tornozelos durante uma escalada solo e se passam
muitos dias até que se possa resgatá-lo, bastante queimado pelo gelo.
1981
Na primavera
uma expedição feminina japonesa, liderada por J. Tabei, faz a quarta
ascensão. No dia 28 de maio R. Messner e F. Mutschlechner chegam no
cume nas piores condições de tempo possíveis; eles abrem uma variante à
velha rota ( quinta ascensão ). As escaladas aqui não são
reportadas por cordada, mas sim por expedições. R. Messner é da opinião
que quando uma equipe alcança o cume - mesmo se existem muitas duplas
que chegam lá - continua a ser uma ascensão coletiva porque a rota foi
preparada por todos. Somente quando numa expedição, diferentes rotas
são escaladas, estas escaladas são contadas separadamente.
1982
Um ano
depois, escaladores britânicos sob D. Scott abrem uma nova rota. Sem
cordas fixas ou acampamentos intermediários Scott, A. MacIntyre, e R.
Baxter-Jones escalam a Face Sul de 3000m, descendo pela Aresta Sudeste.
No outono todos os seis membros de uma expedição japonesa sob M. Hara
repetem a rota chinesa para o cume.
1983
Na
primavera, durante uma expedição alemã-suíça liderada por S. Hupfauer,
três alemães chegam ao cume. Ao mesmo tempo a montanha clama por sua
primeira vítima - F. Luchsinger. ( Com 62 anos quando morreu,
Luchsinger havia escalado Dhaulagiri com 59, e em 1956, tomou parte da
primeira ascensão do Lhotse). Uma expedição no outono leva três
americanos ao cume.
1984
Outro grupo americano, desta vez sob J. Murphy, segue a rota chinesa ao cume.
1985
Seguindo a
mesma rota, uma expedição alemã-austríaca-suíça, liderada por M.
Schmuck, tem grande sucesso. Doze membros chegam ao cume do Shisha
Pangma. Na mesma primavera uma expedição italiana também alcança o
ponto mais alto. Três membros de uma expedição suíça sob M. Itten
chegam ao cume no outono.
1986
A montanha é
visitada por escaladores de muitas nacionalidades: franceses, japoneses
e austríacos escalam a rota normal ao cume. As 'aventuras organizadas'
se tornaram aceitáveis nos oito mil como em qualquer outro lugar.
Jovens estrelas da escalada se empenham menos em rotas limpas e
independentes; eles estão mais interessados somente na velocidade.
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