Um pouco de geografia...

O Nanga Parbat se encontra no território do Paquistão, separado do maciço do Hindu Kush pelo Rio Indus. Dos 14 cumes de mais de 8000 m, ele é o mais ocidental e, provavelmente o mais impressionante: visto do lado Oeste, são mais de 7000 metros de parede desde a beira do rio Indus até o cume a 8126 m. Tudo isso em menos de 1000 metros de distância horizontal !

Em sânscrito "Nanga Parvata" significa montanha nua. Nua porque as paredes são tão íngrimes que rocha e gelo caem sem parar, como se ela não agüentasse roupa nenhuma. Geologicamente, é fácil entender: a região é uma das mais agitadas do planeta e a pressão das placas tectônicas que ocasionou 4 milhões de anos atras o nascimento do Himalaia, continua fortíssima. Terremotos são comuns e o próprio Nanga Parbat cresce uns 10 cm por ano. Os alpinistas costumam brincar dizendo que é melhor escalar logo antes que a montanha seja realmente alta demais ! É mesmo o que devem ter pensado os pioneiros, porque o Nanga Parbat foi o primeiro cume de mais de 8000 m a ser tentado.

E então um pouco de história...

Em 1895 saiu uma expedição inglesa liderada por Mummery. Escalador de grande classe, ele já era famoso pelas suas primeiras escaladas no maciço do Mont-Blanc, especialmente a primeira ascensão do Grépon nas "Aiguilles de Chamonix". Ele a descreveu na época como "a escalada mais difícil dos Alpes, uma ascensão fácil para as mulheres". Ele queria explicar neste humor tipicamente inglês que ele conseguiu o cume graças a sua intuição de alpinista e não as suas aptidões físicas.

Mas o que esperava Mummery e seus companheiros não era para mulheres nem para homens ! O reconhecimento do lado Sul da montanha deixou como conclusão de que "nem era possível considerar uma ascensão" e do lado Norte "talvez um pouco mais promissor". Eles nem chegaram a fazer uma tentativa séria quando um membro ficou doente e, a 6100 metros, decidiram renunciar. Mummery fez questão de reconhecer uma outra face e, com dois ajudantes, deixou o resto da turma. E nunca mais foi visto vivo. Muito provavelmente, eles desapareceram numa avalanche. Este acidente teve naquela época repercussões fortes porque Mummery, eminente membro do Royal Alpine Club, era muito respeitado.

Monção:

Foi preciso esperar 37 anos para que uma outra tentativa séria se apresentasse.

Os alemães organizaram nada menos que 5 expedições entre 1932 e 1939. A grande figura dessas expedições foi Willy Merkl, um dos pais da escalada glaciar de alta dificuldade e inclinação. Em 1933, ele abriu a face Norte do Grands Charmoz em Chamonix, que se destaca majestosamente da estação de trem do Montenvers beirando o glaciar "Mer de Glace". Uma realização unanimemente aplaudida.

A expedição de 1932 contava com membros que possuíam muita experiência alpina mas pouca do Himalaia. E, faltando um contato local dominando bem as duas línguas (alemão e balti) sofreu de problemas de logística.

Entretanto, Merkl conseguiu reconhecer uma via de ascensão do lado Norte (Rakhoit) que tinha a vantagem de não apresentar grandes dificuldades técnicas na parte mais alta. Porém, a parte baixa, muito exposta, consistia num glaciar imenso, uma fortaleza gigantesca, cheia de gretas e varrida por avalanches. Foi este o grande fato desta expedição que nunca chegou próxima do sucesso, sofrendo também os efeitos de uma monção precoce.

Em 1934 encontra-se a maior e a mais forte expedição de todos os tempos a atacar um pico do Himalaia. Atacar é a palavra certa pois tratava-se de um verdadeiro cerco: 9 alpinistas de primeira (todos alemães), 3 cientistas, 35 experientes sherpas (nepaleses) e nada menos que 500 portadores (baltis). Planejamento, organização, disciplina e determinação: As qualidades eternas dos alemães a serviço da conquista de uma montanha.

No começo de junho, tinha-se estabelecido quatro campos bem fornecidos com comida, combustível e equipamento. Tudo estava pronto para uma ascensão próxima e nada parecia capaz de impedir a conquista do primeiro 8000 m.

Daí aconteceu uma tragédia: Um dos alpinistas, Drexel, sofreu uma pneumonia. Ele desceu com ajuda mas seu estado rapidamente deteriorou.

E, apesar da ajuda médica, morreu dia 9 de junho com edema pulmonar.

Merkl decide então suspender todas atividades de alpinismo e chama todos de volta ao campo base para o funeral de Drexel. Isto é totalmente compreensível pois solidariedade e amizade são virtudes felizmente comuns no mundo do alpinismo. O que é menos compreensível é que todos ficaram 11 dias no campo base ! 11 dias de tempo maravilhoso, sem vento, sem uma nuvem na montanha...

Uma perda incomparável porque este tempo desprezado levou à mais desastrosa tragédia da história do alpinismo.

No dia 8 de julho, com tempo bom apesar da monção se aproximando, cinco alpinistas e onze Sherpas instalaram o campo VIII a 7854 m de altitude, só 275 m de desnível do cume. Se os mais em forma da turma tivessem continuado a escalada esta tarde, com certeza o Nanga Parbat teria sido vencido. Mais Merkl queria todo mundo no topo e decidiu esperar o dia seguinte para o cume.

Mais o dia seguinte não trouxe a alegria do cume. Ele trouxe o inferno da monção.

Neve sem parar, vento a não poder ficar em pé, impossibilidade de preparar uma bebida quente, frio polar, e isto durante dois dias. Nesta altitude a famosa determinação alemã já leva jeito de obstinação perigosa. E no terceiro dia, todas as barracas destruídas pelo vento, inicia-se a descida até campo IV. Mas não era uma tempestade efêmera.

Durante nove dias ela não parou um minuto. Os mais em forma (5 dos 16) conseguem voltar ao campo IV. Durante dois dias eles esperam os outros que, inexplicavelmente, ficaram para trás. Num ato de coragem admirável, eles sobem novamente.

O resto da história é cruel demais. Um Sherpa só, Ang Tsering, voltou vivo.

Não entende-se porque esses alpinistas experientes (um deles o próprio Merkl) não conseguiram descer até o acampamento IV. Parece óbvio que no dia 6 de julho tinha alpinista demais no campo VIII e ninguém nos acampamentos anteriores para dar suporte. Também foi um erro insistir em ter todo mundo no topo. E agora entende-se porque foi fatal perder os onze dias no campo de base.

Com tempo fica porém mais justo lembrar esta expedição não tanto pelos erros cometidos, mas pelo heroísmo dos alpinistas e Sherpas solidários na luta até o fim.

Em 1937, outra expedição transforma-se em drama por causa de uma avalanche gigantesca. E o Nanga Parbat começa a ter a reputação ainda bem viva de "Killer Mountain".

Em 1939 foi decidido procurar uma outra via e a expedição tornou-se mais um reconhecimento do lado Diamir. Não deu em nada pois a parede é de uma dificuldade e perigo imensos.

Nesta expedição participava Heinrich Harrer, recém vencedor do Eiger.

Na volta da expedição, estourou a segunda guerra mundial. Ele foi preso na Índia, território inglês e inimigo austríaco. Conseguiu escapar e após uma viagem inacreditável chegou ao Tibet. Sendo o primeiro estrangeiro a entrar em Lhassa depois de muito tempo, ele conheceu o Dalai Lama (o atual, Tenzin Gyatso, XIV Dalai Lama !) e acabou servindo-o como tutor de assuntos ocidentais. Essa história é inteira descrita no livro "Sete Anos no Tibet", com certeza uma das aventuras mais incríveis do século e um livro incontornável para os amadores de literatura de viagem.

Hermann Buhl encontra um anjo da guarda...

A expedição de 1953 era liderada pelo Dr. Herrligkofer, meio-irmão do Merkl. Assim como as expedições do pré-guerra refletiam a força dos alemães, esta expedição refletia a Alemanha do pós-guerra: Dúvidas, medo da derrota, falta de suporte de todo tipo. Desde o começo, foi criticada e não tinha fundos. E, ironia da história, foi desta expedição sem fôlego que surgiu a vitória.

No fim de junho, com um tempo medíocre e com falta dos Sherpas que não conseguiram visto para o recém-nascido Paquistão, Herrligkofer prefere não arriscar e ordena a volta. Mas quatro alpinistas informam por rádio que eles ainda acreditam no sucesso e recusam a ordem do chefe da expedição de descer da montanha. A sorte sorria aos audaciosos pois esta decisão coincidiu com o começo de um período de tempo quase perfeito.

Entre os 4 estava o tiroles Hermann Buhl, já considerado um alpinista fora das normas especialmente por sua força mental. No dia 2 de Julho, Buhl e um companheiro instalam o acampamento VI a 6900 metros. Eles estão determinados para tentar o cume. Mas, mesmo encontrando uma via fácil de conquista, era impossível fazer ida e volta em um dia só. Um bivaque improvisado seria incontornável. E no dia seguinte a uma da manhã só Buhl decide correr este risco inaceitável.

Após tantas expedições super-planejadas, trata-se agora de um homem enfrentando a Montanha Nua num solo improvisado.

Buhl fez uma progressão regular e ao meio dia resolveu abandonar a mochila com comida e jaqueta extra embaixo de uma pedra. Em seguida, a última parede se mostra difícil: um morro de rocha instável e uma aresta delicada. Isto tudo a 8000 metros de altitude, num terreno totalmente inviolado pelo homem e numa corrida contra-relógio quase suicida !

Enfim, as 18 horas, ele atingiu o topo.

Apenas se deu ao luxo de curtir este grande momento, tirar as fotografias das bandeiras tirolesa e paquistanesa, e logo descer.

Os minutos seguintes poderiam ter sido fatais. Num estado de euforia, ele se dá conta que esqueceu o piolet no topo! Logo depois, um dos crampons se desfaz e, como se duas desgraças não bastassem, a noite cai.

Como Buhl sobreviveu nesta noite terrível, suspenso a quase 8000 metros , sozinho, numa parede de gelo com um crampon só, segurando-se as agarras pequenas com as mãos, na impossibilidade de sentar, sem comida, e sem roupa extra, é um mistério para qualquer um que já pisou acima de 7000 m.

Como no dia seguinte ele conseguiu achar a sua mochila escondida e descer até os seus companheiros mais de 1000 m abaixo é um outro mistério. Segundo ele, foi devido a presença de um companheiro invisível:

"Eu tive a extraordinária sensação de que não estava sozinho. Eu tinha um companheiro comigo, um amigo que tomava conta e me dava segurança com uma corda. Na parede de rocha inteira, ele estava comigo, a sua presença mais aguda nas partes mais perigosas. Ele me deu consolo. Eu sabia que se eu escorregasse, ele me seguraria com a corda. E enfim, depois de mais uma terrível cordada quase vertical, eu pisei, mais morto que vivo, na base da parede, em segurança".

A palavra final fica com Prof. Dyhrenfurth, um historiador alpino famoso: " O solo de 40 horas do super homem tiroles no Nanga Parbat foi uma façanha heróica. Portanto, é preciso dizer que o seu método não deve ser recomendado para outros candidatos a cumes de mais de 8000 m !".

Reinhold Messner exorciza o demônio:

Em 1978 outro evento mexeu com o mundo do alpinismo. Dois meses depois de fazer a primeira ascensão do Everest sem oxigênio, Messner (primeiro alpinista a escalar todos os picos de mais de 8000 m) continua puxando os limites e abre uma via sozinho e sem oxigênio do lado Diamir do Nanga Parbat.

Quatro anos antes ele tinha sofrido um acidente que custou a vida do irmão Gunther nesta mesma montanha. Messner explica que retornar a montanha era a única maneira de exorcizar o demônio da morte do Gunther.

O livro "Nanga Parbat 1978" do Messner é, além de uma aventura alpina fora do comum, uma tentativa ousada e sem pudor de mostrar um homem enfrentando suas feridas.

Ensinamento:

O Nanga Parbat foi cruel mas também foi justo: O azar do Merkl em 1934 foi compensado pela incrível sorte do Buhl em 1953. Causou uma dor tremenda ao Messner em 1974, mas também lhe ofereceu o consolo em 1978.

É assim a vida dos alpinistas. Toda empreitada tem o seu custo. E cada um tem o direito de decidir quando este custo se torna alto demais.

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