Novas Fibras , por Sérgio Beck
Nelson estava preocupado. Seis escoteiros haviam subido o Olimpo de manhã e, a julgar pela competência dos que haviam ficado no acampamento, iam dar problema. Nelson faz parte da equipe de resgate em montanha no Marumbi (Serra do Mar paranaense), e percebeu que o tempo estava mudando. Por isso, antes que a situação degenerasse num resgate real, decidiu subir atrás, e escoltá-los para baixo.
Jogou na mochila uma corda, abrigo de chuva e calça extra, e saiu pelas duas da tarde. Em pouco mais de duas horas encontrou os escoteiros, justamente a chegar ao topo. E como estes não tivessem abrigos extras nem lanternas, convenceu-os a iniciar imediatamente a descida. Que não foi fácil, porque os rapazes agora estavam cansados e molhados pela garoa.
Apesar de encapotados com agasalhos baratos, nesta altura encharcados, os rapazes tiritavam. Nelson, porém, vestindo apenas bermuda e camiseta, não sentia o frio e ia descendo a garotada pela trilha molhada, eventualmente assegurando-os com a corda, nos lances rochosos. Levaram seis horas para descer até à base da montanha. Os rapazes chegaram esgotados, inteiramente molhados. Nelson, porém, estava seco, e nem havia recorrido aos abrigos guardados na mochila.
Super-homem? Não, Nelson estava apenas usando as novas roupas de microfibras que começam a aparecer nas lojas de esportes de montanha.
Quando o homem se levantou da savana e se aventurou pelas montanhas e sertões, precisou também cobrir a pele, e se proteger do clima hostil. Peles de animais foram a primeira opção - mas muito pesada. A lã foi idéia que veio a seguir e, mesmo molhada, protege bem do frio. Mas foi o algodão que acabou prevalecendo, por oferecer tecidos leves e gostosos de vestir.
No agreste, porém, o algodão não oferece grande proteção à combinação de chuva e vento. Molhado, o tecido de algodão se encharca d'água, que rouba do corpo doses colossais de calor, podendo induzir uma hipotermia. Em situações como a citada acima, roupas de algodão são mesmo um perigo, se não houver uma capa impermeável por cima. E no entanto, por ignorância, as pessoas continuam usando roupas de algodão em seus passeios pela montanha...
A tecnologia do nosso século criou fibras novas: poliamida (nylon), polipropileno e poliester. E tecidos sintéticos que quase não absorvem água (nem peso), impermeáveis (quando resinados), e bastante resistentes a cortes e abrasão. Mas as coberturas impermeáveis não "respiram". Não tendo por onde escapar, o suor acaba molhando a roupa por baixo do impermeável - o que dá quase no mesmo.
Os laboratórios, então, inventaram tratamentos hidro-repelentes, que permitem que o tecido "respire", sem se deixar encharcar pela água da chuva. Ou películas que deixam passar o suor (ainda sob forma de vapor d'água) antes que encharque as roupas - como o Goretex (e seus similares - Sympatex, HydroSeal, Triple Point). Inventaram também tratamentos químicos que rapidamente conduzem o suor da pele para fora, onde se dispersa. Só que tais resinagens nem sempre funcionam como se espera, principalmente sob exercício pesado, quando o suor é intenso. O desempenho dos tratamentos químicos também vai caindo com o tempo, à medida que o produto vai sendo removido por sucessivas lavagens.
As novas fibras eram ótimas, mas desagradávelmente "sintéticas" ao tato. Por isso, a maciez do algodão continuou imbatível por anos... A solução seria criar fibras com filamentos tão finos, que devolvessem ao tecido a sensação de maciez do algodão. Sem o inconveniente de absorver água, ou de selar a pele debaixo de uma película plástica. Novos processos de texturização criaram uma nova geração de fios sintéticos, como o Tactel e o Supplex - e então, sim, a coisa começou a evoluir. O Tactel nunca decolou (a não ser como roupa de cidade) porque é menos resistente à abrasão e rasga fácil.
Mas de dois anos para cá, ficou impossível ignorar o avanço do Supplex em roupas de caminhada. Inventou-se até a expressão "fibra inteligente", uma bobagem, claro, explicada pelo fato de que estas fibras ajudam a criar um microclima ao redor do corpo. Pois o Supplex respira bem, protege do calor, quase não absorve água ou suor, seca rápido (alguns diriam, instantaneamente). Além de ser gostoso de vestir, e de resistir adequadamente ao desgaste físico - cortes, abrasão...
Claro que todo este avanço não foi feito preocupado com as necessidades peculiares de montanhistas, campistas ou pescadores. Apenas nos beneficiamos de fios e tecidos criados para a moda urbana - mas que, por suas características, altamente desejáveis, encontraram lugar no vestuário de esportistas e aventureiros. É o caso do Micromattique, microfibra de poliester desenvolvida originalmente para moda. E que possui a propriedade de ser o filamento mais fino que se conhece hoje, mais fino até que o fio de seda.
E que por isto mesmo apresenta características inusitadas de maciez. Pois uma tecelagem nacional (Petenatti) lançou um tecido encorpado, que está na mira de pelo menos um fabricante (Mont Blanc), para a confecção de agasalhos leves de montanha. Um pouco mais fino do que o "soft-brush" usado nos agasalhos urbanos estampados (e também uma boa opção para nós, excursionistas) o tecido de Micromattique é macio e quente, muito apropriado aos abrigos leves para frio. Muitas vezes a pesquisa em laboratório avança às cegas: uma nova fibra é descoberta, estudadas suas propriedades, encontrado algum comportamento especial. Depois o pessoal do marketing começa a quebrar a cabeça para encontrar um uso óbvio para o produto.
Foi o que parece ter acontecido com o Coolmax, uma microfibra de poliester, com um formato peculiar, pois apresenta 4 canais ao longo do filamento. Que se descobriu terem a propriedade de acelerar o escape da umidade para fora do tecido. Naturalmente! Sem a necessidade de qualquer aditivo químico, que com o tempo desapareceria. O que introduziu o termo "fibra de performance" para definir fibras com um comportamento ainda mais sofisticado que o das "fibras inteligentes".
Fibras de performance como o Coolmax começam hoje a ser usadas principalmente em malhas, libertando-nos do domínio do algodão. Usadas em didade, camisetas de Coolmax são apenas um pouquinho mais quentes do que as de algodão (em montanha, este é o menor dos problemas). Mas não se encharcam com o suor, secam rapidamente, e vestem gostosamente.
Praticamente não dá para perceber a diferença entre uma camiseta de algodão e uma de Coolmax. Só que uma camiseta de Coolmax pode lhe salvar a vida, em circunstâncias adversas. Montanhistas por aí já perceberam as vantagens do seu uso. Principalmente quando chegam ao pé de uma escalada secos e já prontos, enquanto os outros ainda têm que tirar os agasalhos para trocar as camisetas suadas... Meias e até roupa de baixo de Coolmax são outros usos óbvios para esta fibra tão versátil. Mas o assunto não se limita ao que vestimos. Há muito tempo mantas de poliester vêm sendo usadas em sacos de dormir.
Como a fibra não absorve água, tais sacos, já mais leves do que os antigos, de pasta de algodão, apresentam a vantagem de poderem ser usados mesmo (acidentalmente) molhados, sem pôr em risco a vida do usuário. Mochilas de Cordura também vem sendo usadas há quase 10 anos. O cordura não rasga tão facilmente quanto o nylon (mesmo o tecido de nylon grosso), e também não vai apodrecendo ou puindo com o tempo, como acontecia com a lona de algodão. Além disso (outra característica de várias fibras sintéticas) aceita muito melhor corantes, o que dá um toque mais agradável a qualquer produto que envolva lona - mochilas, botas, etc...
Mas a novidade final fica por conta do Dry-lex, tecido grosso e esponjoso que começa a ser usado nas alças e costas de mochilas, e que apresenta características notáveis. O Dry-lex consiste na verdade de 3 camadas distintas: uma camada furadinha, que fica em contato com as costas do usuário; uma camada intermediária, que dá a "espessura" do tecido, formada de fios dispostos no sentido vertical; e por último uma camada de base, constituída de um nylon hidrófilo, ou seja, absorvente da umidade.
O suor do corpo é rapidamente conduzido pelas duas primeiras camadas para a terceira, que se encarrega de dispersá-lo para o ambiente. O resultado é que o tecido está geralmente seco (outro tecido de performance, como o Coolmax), mantendo o usuário igualmente seco. Acabam-se as costas e camisetas molhadas, em contato com a mochila. Na verdade, o Dry-lex foi inventado como forro para sapatos, com a vantagem adicional de um tratamento bactericida, para evitar a proliferação de bactérias e o consequente mau-cheiro.
Seu emprego em mochilas é econômico, pois o O Dry-lex é caro, mais caro do que qualquer outro dos tecidos mencionados, por sua construção rebuscada. O futuro dirá se o Dry-lex realmente corresponde às expectativas gerais, mas não há dúvida de que as novas fibras e tecidos estão trazendo muito mais conforto ao dia-a-dia na trilha... Cordura, Supplex, e Coolmax são fibras da DuPont (importados dos EUA e tecidos no Brasil). Dry-lex é da Faitex Corp. (um tecido também importado).
Capilene (que não chegou a ser mencionado) é uma fibra de poliester com tratamento químico, produzido pela Malden Mills, e usado nas roupas p/ex. da Patagonia, importadas, claro. Quanto às resinagens especiais (Goretex, Sympatex, HyddroSeal, Triple Point) são todas americanas e usadas em abrigos (ou outros produtos como barracas e botas) que já nos chegam às lojas prontos. Não são (ainda) usadas na resinagem de tecidos nacionais...
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