Imprimir

Cadeirinhas de escalada

por Mauricio "Tonto" Clauzet

Antigamente, na época em que se escalava com cordas de cisal, o encordamento do escalador era feito simplesmente atando-se um laço feito com a própria corda ao redor da cintura. Qualquer um que ficar alguns minutos pendurado usando esse sistema certamente sairá completamente convencido da importância fundamental da cadeirinha. A cadeirinha também é chamada aqui no Brasil, dependendo da região, de baudrier ou de arnés. Ambos são termos derivados de outras línguas, e a seguir encontramos a tradução para diversas línguas

  • Cuissard-baudrier - Francês
  • Harness - Inglês
  • Arnés - Espanhol
  • Imbragature - Italiano
  • Anseilgurte - Alemão

Hoje em dia podemos encontrar no mercado uma grande diversidade de marcas e modelos de cadeirinha. Existem cadeirinhas para escalada e outras para espeleologia e canyoning. O design e a concepção de cada uma é específico, voltado para sua aplicação. Não se deve utilizar uma cadeirinha de espeleo ou canyoning para escalar, a não ser para um top rope menos comprometido. As cadeirinhas de espeleo e canyoning não são projetadas para amparar quedas, mas basicamente para rapel e ascensão com jumares. Este artigo trata especificamente das características e propriedades das cadeirinhas para escalada, sendo que as demais fogem do escopo.

 

cadeirinha01.jpg
Figura- Note as diferenças, que não são poucas:
À esquerda uma cadeirinha para espeleo e canyoning, e à direita uma para escalada 

Os primórdios

Como já dito, nos primórdios não se usava cadeirinhas, mas sim a corda atada à cintura. A primeira evolução deste esquema foi o uso de fitas enroladas em torno da cintura e atadas com um nó. A corda era então amarrada à este cinturão de fita, conhecido como Swami Belt. A maior área de contato proporcionada pelas várias voltas de fita melhorou bastante o conforto, mas mesmo assim a situação era precária. Quando o escalador sofria uma queda, o cinto, por não ser preso também às pernas, tendia a subir e apertar as costelas e a tendência era "aterrissar" de frente, em uma posição próxima da ereta, chegando de frente e em pé contra a parede.

A próxima evolução foi a introdução dos laços de perna (leg loops) que passaram a distribuir a carga não só à cintura do escalador, mas para as pernas, em uma região de músculos generosos e fortes, tornando tudo mais confortável.

O desenvolvimento atual e principais tipos existentes

Hoje a maioria das cadeirinhas para escalada é feita com largas fitas de nylon, acolchoadas e fivelas para se vestir e regular a cadeirinha. Existem algumas cadeirinhas de corpo inteiro (full body), que passam não só pela perna e pela cintura, mas passam também por cima dos ombros. Esse tipo de cadeirinha não é normalmente usado para escalada em rocha, por tirar mobilidade e por não ser confortável em quedas, sendo mais usada para crianças, trabalho em altura ou travessia de glaciares.

Atualmente, todas cadeirinhas de escalada em rocha passam pelas pernas e pela cintura do escalador. Em termos de concepção estrutural, existem uma série de variações, mas a principal, a meu ver, são com relação à forma de encordamento. Existem algumas poucas cadeirinhas em que os laços para as coxas são costurados de forma fixa à cinta, mantendo sempre uma distância fixa entre elas.

cadeirinha02.jpg
Figura- Cadeirinhas com a parte inferior fixa à cinta.

Em outras, a parte inferior, das pernas, é unida à cinta através de um laço de fita costurado (belay loop), mas construtivamente as partes são independentes, de forma que quando o escalador se encorda, deve passar a corda tanto pela parte inferior quanto pela parte superior, da cinta.

cadeirinha03.jpg
Figura- Cadeirinhas composta de duas partes.

Essa segunda forma construtiva é melhor, pois possibilita que quando ereto, em pé ou escalando, as partes inferior e superior se afastem dando total liberdade de movimento ao escalador. Quando acontece uma queda, a corda primeiro traciona a parte de baixo, as pernas, trazendo o escalador "automaticamente" para a posição sentado, para somente depois carregar a cinta e as costas do escalador. A outra concepção estrutural, onde a parte inferior é costurada de forma fixa à cinta, é mais utilizada para cadeirinhas de espeleo e canyoning.

As cadeirinhas de escalada procuram distribuir 80% do peso para as pernas (coxas) e apenas 20% para região lombar (costas).

A escolha de uma cadeirinha é algo extremamente pessoal, e deve-se considerar também qual será a sua aplicação. Diferentes modelos de cadeirinhas podem ser confortáveis para algumas pessoas e para outras não. Hoje em dia temos modelos desenhados especificamente para mulheres.

Caso o uso da cadeirinha seja em clubes ou muros de escalada, é interessante ter regulagem tanto na cintura como na coxa, de forma que uma mesma cadeirinha possa servir no maior número de pessoas.

Cadeirinhas para escalada esportiva, procuram ser leves, compactas, e não limitar o movimento. Em geral não tem fitas e acolchoados muito largos, e são pouco confortáveis para se passar muito tempo pendurado. Se a aplicação é para escaladas de longas, com paradas onde se faz segurança pendurado, ou big wall, deve-se procurar um modelo com fitas largas e acolchoados generosos, principalmente na cintura. Nesses casos, em geral procura-se um modelo sem regulagem (fivela) nas coxas, pois isso representa um peso extra e um ponto de desconforto.

Já se a aplicação é em escaladas alpinas ou alta montanha, a regulagem na coxa passa a ser fundamental, pois permite que se coloque e tire a cadeirinha com botas, crampons ou esquis, além de se adequar à quantidade de roupa que você veste.

Ao comprar uma cadeirinha, é importante prová-la em pé e se movimentando, mas também é fundamental fazer uma prova pendurado.

Saiba que é perigoso a uma pessoa inconsciente permanecer pendurada através da cadeirinha. Uma vez inconsciente, todos músculos se relaxam e a pressão das fitas da cadeirinha podem trazer problemas sérios à circulação, e inclusive trazer risco de vida, após 10 minutos pendurado.

Outras características e inovações

Algumas cadeirinhas permitem que se retire a parte inferior sem ser necessário se desencordar, de forma que se possa resolver as necessidades fisiológicas assegurado. Essa é uma característica interessante para as mulheres, que tem o procedimento para fazer xixi um pouco mais complicado...

A maioria das cadeirinhas possui também alças para pendurar material, os chamados racks. Algumas possuem mais racks e outras menos, sendo importante escolher uma com a quantidade adequada ao uso que você fará. Se você é um escalador esportivo nato, um rato de academia, provavelmente 2 racks são o bastante. Já se a sua aplicação é escalada usando proteção móvel ou big wall, você deve considerar a compra de uma que tenha 4 ou 5 racks.

Algumas cadeirinhas tem um laço de fita costurado na parte de trás da cinta. Veja bem, esse laço, apesar de em geral robusto não é para se encordar ou fazer parte da sua proteção, ele é para prender a corda retinida (tag line) ou a corda do haul bag (haul line).

Certos modelos possuem um material especial nos acolchoados que permitem a circulação do ar e permitem que a transpiração circule e seque.

Cuidados com a Cadeirinha e seu uso

Sempre deve-se ler atentamente às instruções da sua cadeirinha. Cada modelo tem suas particularidades e é importante ler as recomendações do fabricante a respeito de como encordar, da passada correta da fita pela fivela e de cuidados, manutenção, limpeza, etc.

Como regra geral, nunca deve-se encordar no laço de fita (belay loop) que liga a parte inferior e superior da cadeirinha. Deve-se passar a corda diretamente pelas duas partes, fazendo o mesmo caminho do belay loop.

Existem diversos tipos de fivelas, e por isso é importante ver as instruções do fabricante. Como regra geral, a ponta de fita que sai da fivela deve sair na mesma direção e em sentido oposto ao que a fita entrou na fivela. A ilustração abaixo mostra a passada pela fivela mais comum, mas ressaltamos a importância de ver as instruções do fabricante para sua segurança.

cadeirinha04.gif
Figura- Passada da fita na fivela mais comumente encontrada.
Sempre veja as instruções do fabricante específicas para o seu modelo de cadeirinha.

As fitas e costuras de toda cadeirinha são feitas de fibras de polímeros, em geral nylon. Esse material normalmente sofre desgaste e envelhecimento e perde suas propriedades e resistência.

Os raios do sol, principalmente o espectro dos raios UV, são extremamente danosos à esse tipo de fibra. Existem tratamentos de proteção contra os raios UV, mas mesmo assim não se deve expor desnecessariamente sua cadeirinha aos raios solares. Produtos químicos, como ácidos, básicos e solventes também podem atacar as fibras e o contato com estes materiais deve ser evitado de qualquer forma.

O desgaste por abrasão também é sério, principalmente sobre as costuras. As fitas tem uma resistência maior à abrasão, mas atritos sobre as costuras podem ser extremamente perigosos. Areia e terra que penetram nas fitas e costuras também tem um efeito destrutivo ao longo do tempo, na medida que a cadeirinha é carregada. Nesse momento as fitas e costuras são tensionadas e os grãos agem como corpos agressivos que cortam as fibras, em um efeito que não pode ser desprezado ao longo do tempo, podendo levar uma fita à ruptura sob uma carga muito inferior à sua ruptura quando nova. Assim, deve-se sempre ter esse equipamento limpo, através de lavagem com água pura. Deve-se deixar secar à sombra.

Uma cadeirinha, que não seja exposta aos agentes agressivos acima citados, em uso normal pode chegar à uma vida útil de no máximo 5 anos, contados a partir da data de fabricação.

Como recado final, gostaria de lembrar mais uma vez que qualquer equipamento de escalada só vai funcionar adequadamente se você souber usá-lo. Isso é o mais importante, e disso depende a sua segurança e de seus amigos.

 

 

Pode ser do seu interesse...

Artigos Técnicos
Nó de Prusik

Este provavelmente é o nó auto-blocante mais famoso. O nó de Prusik. Serve para montar auto-segurança no rapel, para subir por uma corda....  o vídeo a seguir mostra tudo ! Em tempo: o ideal é que o nó...

Ideas

Dicas, análises, artigos técnicos sobre equipamentos, escalada em rocha e alta montanha, histórias e relatos, reflexões e muito mais!

Strategy

Aprendizagem Experiencial

No âmbito do desenvolvimento humano, proporcionamos as práticas necessárias para fortalecimento do trabalho em equipe.

 

Processes

Expedições

Viajamos há mais de 20 anos pelas montanhas dos Andes e Patagônia. Organizamos saídas também para a Europa e viagens de bicicleta, uma forma diferente de ver o mundo em um outro ritmo.

Network

Palestras

O enfoque de nossas palestras é sobre "SUPERAR DESAFIOS", fazemos um paralelo da vivência na montanha, das escaladas e expedições para abordar um tema tão presente no cotidiano empresarial e também no aspecto humano.

Creative

Equipe

Realize seu projeto de forma segura e sem surpresas. Desenvolva suas potencialidades. Conheça nossa equipe e facilitadores!

Contact

Fale Conosco

Teremos o maior prazer em solucionar suas dúvidas!