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Escalada de Alta Montanha = Dano Cerebral ?

por Davi Marski, em setembro de 2009

dedo

Eu pratico várias modalidades de escalada. Principalmente escalada tradicional e escalada de alta montanha. Faço isso há 20 anos.

Em 2002 tive o meu primeiro contato real com a hipóxia de altitude.

Para quem não sabe, a medida em que subimos as grandes montanhas, a pressão parcial dos gases que compõem a atmosfera diminui, e por consequência, a fração de oxigênio que conseguimos passar através dos alvéolos pulmonares para dentro das hemácias, diminui também.  Esse tipo de situação é chamada de Hipóxia (na verdade essa é a Hipóxia hipoxia... é que existem outros tipos de Hipóxia...)

Enfim... eu estava escalando nos Andes Bolivianos, na Cordilheira Real e acabei tendo uma infecção de vias aéreas superiores que evoluiu rapidamente para uma pneumonia.

Quando dei-me conta, meus pulmões estavam cheios de muco e fluido, e fiquei várias e várias horas exposto a uma hipóxia severa, com vários períodos de alucinação (eu "sonhava acordado", segundo o relato de alguns colegas) e depois ainda alguns momentos de inconsciência devido a privação de oxigênio.

Meus amigos não tinham a menor idéia do que fazer e me atendimento resumiu-se a me levarem para dentro de uma barraca e me colocarem em um saco de dormir. Isso tudo acontecendo em uma altitude de 5500m.

Em um dos períodos de consciência, vi que estava com febre e que as coisas estavam realmente sérias. Dei início a um tratamento imediato com antibióticos e antiinflamatórios esteróides e avisei que precisávamos descer o mais rapidamente possível, para diminuir a altitude e aumentar o percentual de oxigênio disponível para mim. 

Poucos dias depois estava na segurança de minha casa.

Ao voltar ao "normal" e ao dia-a-dia aqui no Brasil, minha esposa relatava que era nítida a minha dificuldade de compreensão de coisas cotidianas, como seu eu estivesse constantemente "dopado" com alguma coisa.

A verdade era que eu nem precisava de uma avaliação de terceiros: eu mesmo sentia uma grande dificuldade em estabelecer percursos ao dirigir um carro, por exemplo, sentia (ainda sinto) dificuldade em sair de um ponto "A" de carro, estabelecer um mapa mental do trajeto a ser percorrido, relacionar com o nome das ruas, e chegar até um ponto "B".

Além disso, eu que sempre tive orgulho da minha capacidade analítica em resolver problemas, sentia uma enorme dificuldade ao realizar tarefas em meu trabalho (que envolvia engenharia e arquitetura de banco de dados)...  Eu trocava palavras e utilizava palavras com sons parecidos fora de contexto, e durante um tempo, sentia dificuldade em manter um raciocínio lógico por longos períodos. A capacidade de concentração simplesmente despencou.

Hoje a maior parte destes "problemas" desapareceram ou foram minimizados... Certamente o cérebro cria novas conexões para que o dono (eu, no caso) volte a ser "normal".

O lado ruim da história é que ainda hoje sinto-me lesado de alguma forma. De forma grosseira, o único resultado permanente que sinto é que fiquei mais "lerdo", em outras palavras, no aspecto "performance cerebral" ou "velocidade na solução de problemas" , eu diria que hoje sou uma fração do que já fui no passado. 

Em 2008 voltei a ter uma experiência terrível com a altitude. Desta vez não foi comigo...  eu estava no acampamento alto do Huayna Potosi, algo em torno de 5130m, havia um pequeno grupo de "estudantes" de uma escola militar que iriam escalar pela rota normal. E uma menina do grupo, uma tal de Andrea, estava muito mal. Um guia local estava procurando algum "médico" que pudesse ver o seu estado.

Eu me ofereci para ver o que acontecia  e quando cheguei, soube que ela já estava a um certo tempo nessa altitude, e passando bastante mal. Realmente ela não estava nada bem… Não conversava, estava muito sonolenta, etc… Trouxe ela para dentro do refúgio (até então ela estava exposta ao frio e ao vento), arranjei um chá quente e comecei a estabelecer uma série de hipóteses diagnósticas. A primeira coisa que me veio a mente foi hipoglicemia devido ao esforço físico da subida.

Dei uma pastilha de glucose para ela. Enquanto ela mastigava o carboidrato de rápida absorção, fui buscar em minha mochila o meu kit de emergências, que inclui um oxímetro. Ao medir a saturação de oxigênio dela, na primeira leitura indicou 66% ! (e cerca de 90 BPM). Péssimos indicadores !

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Deixei a menina descansando um pouco e fui atrás de alguém do grupo dela, quando eu volto cerca de uns 30 minutos depois, a Andrea estava inconsciente, com uns 60% de SaO2 , ou seja, apenas 60% das hemácias estavam recebendo oxigênio. A situação era extremamente crítica.

Eu nem quis mais conversar com o pessoal do grupo dela (que praticamente a haviam abandonado) e agilizei 3 carregadores e mais 2 caras do grupo dela para descerem a menina imediatamente ate a zona sul de La Paz (cerca de 2800m).

Apliquei uma injeção de adrenalina em sua musculatura e expliquei para seus colegasl que eu achava que ela claramente estava com um quadro de edema cerebral e com problemas de perfusão.

Apos a injeção de adrenalina, o organismo reagiu quase instaneamente, com o oxímetro pude constatar que a freqüência cardíaca dela aumentou e por conseqüência, a saturação de oxigênio dela melhorou. A Andrea "voltou" a funcionar em marcha lenta e aparentemente conseguia andar com o auxilio dos colegas.

Apliquei uma nova injeção de adrenalina, desta vez em uma camada de gordura para que a absorção fosse um pouco mais lenta.  

Eles iniciaram a descida da menina, que com certeza foi árdua...

Este ano, escalando no Peru, encontrei uma edição antiga da revista "Rock and Ice" que tinha uma nota bem interessante :

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Eu fiz uma tradução livre da matéria :

No ar rarefeito, pensamentos confusos, falas arrastadas, e até mesmo alucinações, fazem parte da escalada.

Evidências crescentes sugerem que a altitude pode causar danos irreparáveis ao cérebro. Em um dos estudos, publicado no Jornal Americano de Medicina (The American Journal of Medicine), pesquisadores espanhóis realizaram exames de ressonância magnética em 35 montanhistas (alguns amadores e alguns profissionais) que haviam retornado do Everest (8858m), Aconcágua(6959m), Kilimanjaro e Mont Blanc.

Estes exames revelaram que 25 participantes haviam tido lesões cerebrais, atrofias, e/ou aumento dos espaços de Virchow/Robin, que drena o fluido cerebral (o aumento do espaço de Virchow/Robin ocorre principalmente na velhice).

Estes danos são relacionados com perda de memória, alteração de personalidade, e no final das contas, possivelmente demência.

Os pesquisadores realizaram novas ressonâncias magnéticas nestes voluntários três anos depois, e as alterações anatômicas no cérebro permaneceram, o que sugere um "dano irreversível", como diz o Dr. Pedro Modrego. Em sua pesquisa, Modrego e outros concluem que "a escalada em alta altitude leva consigo um risco signficativo de desenvolvimento de lesões cerebrais e atrofia."

Por outro lado, ele se apressa em dizer também que "os riscos aparentemente são maiores para os indivíduos não aclimatados".

(Além disso, quanto menor a altitude do cume, menor o dano cerebral. De fato, 9 de 10 pessoas analisadas que tiveram os resultados da ressonância magnética normal estiveram em escaladas no Mont Blanc e no Kilimanjaro).


Então é isso... escalar é muito bom. E ninguém deve deixar de buscar os seus sonhos. Mas... os riscos sempre estão presentes !


Abraços !
Davi Marski


Adendo

Depois que fiz esse texto, fui pesquisar na internet mais sobre os tais dos espaços Virchow/Robin e descobri , fuçando no google, que a revista Scientific American havia dedicado uma matéria ao assunto.


Sobre o link do "American Jounal of Medicine" :

http://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0002934305006741

Na wikipédia tem um texto legal sobre hipóxia : http://pt.wikipedia.org/wiki/Hipóxia


Enfim.. a matéria da revista
Scientific American está reproduzida abaixo :

No final de 1890, em um laboratório situado no topo de uma montanha de 4.550 metros, na cordilheira Monta Rosa, nos Alpes italianos, o fisiologista Ângelo Mosso fez as primeiras observações diretas dos efeitos de altitudes elevadas sobre o cérebro humano: a olho nu e com um aparelho projetado por ele, Mosso observou as mudanças nas protuberâncias e pulsações no cérebro parcialmente exposto, de um homem que sofrera um acidente.

Recentemente um experimento semelhante foi realizado utilizando imageamento cerebral não-invasivo. Para aqueles que adoram escalar montanhas os resultados não são animadores. Em Saragoça, Espanha, o neurologista Nicolas Fayed e colegas realizaram ressonâncias magnéticas do cérebro em 35 alpinistas ─ 12 profissionais e 23 amadores ─ que haviam voltado de expedições em grandes altitudes, inclusive 13 já tinham escalado o Everest. Foram constatados danos cerebrais praticamente em todos os que haviam escalado o Everest, mas também em muitos alpinistas de menores altitudes que retornaram sem saber que tinham sofrido lesões cerebrais. Parece que alpinistas que escalam montanhas elevadas, sejam praticantes eventuais ou profissionais, ao retornar de escaladas de montanhas altas apresentam alterações cerebrais em relação às condições anteriores.

O que muda no cérebro do alpinista?
Embora a tolerância de cada pessoa à hipoxia ─ falta de oxigênio ─ possa variar de acordo com as diferenças fisiológicas inatas ou de condicionamento físico, ninguém escapa ileso. Os efeitos podem ser agudos, afetando o indivíduo apenas quando em condições de baixas taxas de oxigênio, ou ─ como foi descoberto no estudo de Fayed ─ de longa duração.

A primeira fase é muito apropriadamente chamada de doença aguda de montanha. Pode provocar dor de cabeça, insônia, tontura, fadiga, náusea e vômito. A fase seguinte, mais séria, provoca o edema cerebral de grande altitude, também conhecido como Hace (em inglês), um edema cerebral potencialmente fatal.

A falta de oxigênio pode danificar diretamente os neurônios. Além disso, em grandes altitudes as paredes dos vasos capilares começam a vazar, e o líquido que escoa pode produzir inchaços perigosos, pressionando o cérebro de dentro para fora contra a parede rígida do crânio. Algumas vezes os nervos ópticos incham de tal maneira que formam uma bolsa no fundo do olho, alterando a visão e provocando hemorragias na retina. Enquanto isso o sangue, concentrado devido à desidratação e mais espesso com o aumento de células vermelhas, coagula com mais facilidade. Esta coagulação, juntamente com a hemorragia proveniente do estreitamento dos vasos capilares, pode levar a um derrame. Um alpinista com Hace pode sofrer de amnésia, confusão, delírios, perturbação emocional, alterações de personalidade e perda de consciência.

Os casos graves de doença aguda de grandes altitudes associados aos danos cerebrais são conhecidos há bastante tempo. Mas um detalhe curioso do estudo de Fayed é que mesmo quando os alpinistas não mostravam sinais de doença aguda, as tomografias ainda revelavam danos cerebrais.

Resultados obtidos com alpinistas que escalaram o Everest foram os mais impressionantes. Dos 13 alpinistas, três haviam atingido um pico de 8.848 metros, três alcançaram 8.100 metros, e sete chegaram ao topo em alturas entre 6.500 e 7.500 metros. A expedição não teve maiores contratempos e nenhum dos 12 alpinistas profissionais evidenciou quaisquer sinais óbvios de doença de grande altitude; o único caso agudo da doença de montanha não foi grave e ocorreu em um alpinista amador da expedição.

Ainda assim, dos 13 alpinistas, apenas o profissional teve, ao retornar, um diagnóstico normal por imageamento de cérebro. As tomografias dos outros 12 alpinistas apresentaram atrofia cortical ou alargamento dos espaços VR (Virchow-Robin). Esses espaços envolvem os vasos sangüíneos que drenam o líquido cerebral e se comunicam com o sistema linfático; o alargamento desses espaços é observado em idosos, mas raramente em jovens. O cérebro do alpinista amador também sofreu lesões subcorticais nos lobos frontais.

Até que altura podemos subir?
Sem dúvida, o Everest é um caso extremo. Fayed e colegas também estudaram um grupo de oito pessoas que tentaram escalar o Aconcágua, um pico de 6.962 metros nos Andes argentinos. Dois alpinistas alcançaram o pico, cinco chegaram a altitudes entre 6 mil e 6.400 metros, e um chegou a 5.500 metros. No entanto, três deles tiveram doença aguda de montanha, e dois apresentaram sintomas de edema cerebral ─ provavelmente por terem partido de altitudes menores subiram mais rápido que os alpinistas do Everest.

Os oito alpinistas do Aconcágua mostraram atrofia cortical nos exames de ressonância magnética. Sete apresentaram alargamento dos espaços VR, e quatro mostraram inúmeras lesões subcorticais. Alguns nem precisaram de tomografia para saber que tinham sofrido lesões. Um deles sofreu de afasia ─ problemas relacionados com a fala ─ da qual se recuperou seis meses depois. Dois se queixaram de perda temporária de memória ao retornar e três outros lutaram contra a bradipsiquia ─ lentidão na atividade mental.

O corpo tem uma resistência extraordinária, mas será que o cérebro se recupera dessas seqüelas do montanhismo? Para responder a essa pergunta, os pesquisadores re-examinaram os mesmos alpinistas três anos depois da expedição, sem a interferência de qualquer outra experiência de alpinismo de grande altitude. Em todos os casos, as lesões ainda eram visíveis no segundo conjunto de imagens.

O Aconcágua ainda é uma das montanhas mais altas do mundo. O Mont Blanc nos Alpes do oeste europeu tem menor altitude. Seu pico de 4.810 metros é escalado todos os anos por milhares de alpinistas que provavelmente não desejam sofrer danos cerebrais. No entanto, os pesquisadores descobriram que dos sete alpinistas que chegaram ao pico do Mont Blanc, dois retornaram com alargamento nos espaços VR do cérebro.

Qual seria a causa?
O estudo sugere que a exposição crônica a grandes altitudes não é um pré-requisito para se sofrer danos irreversíveis no cérebro. Na realidade, os amadores parecem estar sujeitos a um risco maior, porque eles estão mais propensos a sofrer doença aguda de montanha ou edema cerebral de grandes altitudes. Alpinistas mais experientes, e conseqüentemente mais bem preparados, no entanto, parecem pagar um preço cada vez maior. Quando comparados com alpinistas amadores, os profissionais, de modo geral apresentaram maior atrofia cortical. Apesar de terem aparência física mais forte, apresentaram maiores danos cerebrais.

Escalar montanhas é uma atividade que tem se tornado cada vez mais popular ─ e por bons motivos. Proporciona experiências inesquecíveis, perfeita comunhão com a natureza, amizades que alimentam o espírito, experiências intensas e compensadoras que superam os limites da rotina. Envolvidos pela aventura e desafios que desenvolvem coragem, resistência e perseverança, os alpinistas são transportados para a paisagem selvagem das montanhas ─ embora esteja desaparecendo.

Muitas pessoas acreditam que o principal atrativo está na insuperável vontade de ir mais alto ─ “Simplesmente por estar ali” e aproveitar o momento.

Cerca de 5 mil alpinistas escalam os picos do Himalaia todos os anos. Outros milhares escalam picos nos Alpes e nos Andes. Muitas dessas pessoas despendem quantias enormes para montar expedições ou seguirem um guia até o topo das montanhas. Está cada vez mais claro que gozar desse privilégio tem um custo alto, que não é pago com o suor do rosto, mas com tecido cerebral.

 

 

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