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Sistema Brasileiro de Graduação de vias de escalada

cbmePor Flávio "Doce" Aguiar, à partir de texto de Flávio Wasniewski/Interclubes-Rio (Atualmente, Femerj)

Considerando que em nosso país, muito se aprende e se adapta daquilo que chega baseado em experiências estrangeiras, o sistema de graduação de escaladas em rocha não poderia fugir à regra. No entanto, de acordo com o desenvolvimento do esporte ao longo de todo o território nacional, foram se desenvolvendo diferentes maneiras de se classificar os níveis de dificuldade encontrados, pois encontram-se locais onde se usa uma classificação oriunda do sistema alpino, outra do sistema francês, uma mescla dos dois (seria um nacional, mas com várias diferenças regionais) e até corruptelas deste último. Mas as escaladas no interior do país estão mais em contato com os sistemas estrangeiros do que o Rio, que já vinha desenvolvendo uma forma própria de estabelecer os graus de dificuldade, porém sem seguir uma sistemática única.

Com tantas diferenças - não estabelecidas ou escritas em lugar nenhum - isso sempre dificultou a avaliação dos escaladores que freqüentam vários estados, além da própria forma de se informar as características das vias de escalada àqueles que chegam pela primeira vez em uma localidade com diversas conquistas locais

"- De acordo com o croqui, aquela via dá um VIsup", e o outro pergunta: "- Isso significa 6a, 6b ou 6c? Isto é o grau geral ou do crux da via? Em que sistema de graduação?". Afora as diferenças locais para a avaliação dos graus de dificuldade, ainda entra o problema de compreensão da forma de escrever.

Para tentar estimular uma uniformização dos sistemas de graduação de escaladas à nível nacional, a Interclubes/Rio (entidade que congrega clubes de montanhismo e profissionais do esporte) realizou um ciclo de 3 Seminários que discutiu o tema e chegou a uma proposta carioca para a unificação dos sistemas. A discussão foi concluída na reunião Interclubes de 14/12/99.

Segue abaixo, portanto, um resumo do sistema de graduação como é proposto pela Interclubes Rio:

· A graduação de uma via deve conter (veja exemplos comentados ao final):

O grau geral da via, representado em números arábicos (1, 2, 3,...) tentando expressar todos os fatores que influenciam a via. Historicamente, no Rio de Janeiro (e em grande parte do Brasil), não há definição do grau geral da via além do grau do lance mais difícil em vias com menos de um esticão de corda (ou enfiada), pois estes estariam mesclados como fatores que influenciam na graduação da via.
· Assim, para vias de até um esticão (enfiada) utiliza-se, apenas, o grau do lance mais difícil (crux).
· O grau do lance mais difícil (crux) em algarismos romanos (I, II, III,....), com subdivisões descritas abaixo. Para o grau do crux ou para vias com menos de um esticão de corda (ou enfiada), até o grau VI sup, as divisões intermediárias dos graus serão dadas com "sup", que significa a abreviação do termo "superior". A partir deste (do VII em diante), as divisões serão a, b, c (ex.: III ; IIIsup ; IV ; IVsup ; V ; Vsup ; VI ; VIsup ; VIIa ; VIIb ; VIIc ; VIIIa ; VIIIb ; VIIIc ; IXa ; IXb ....).
· Caso haja artificial, ele deve ser representado segundo o Sistema Internacional (A1 até A5, com exceção do A0, explicado a seguir). Caso o trecho em artificial seja posteriormente feito em livre, este deve ser representado também junto com o grau em artificial entre parêntesis separado por uma barra (ex: A1/VIIIa, A0/VIIc,...).
· Além do grau do artificial, existe uma opção de se colocar a quantidade de pontos de apoio artificiais, para vias quase em sua totalidade em livre, mas com pequeno número de lances em artificial. Basta se colocar o número de pontos de apoio entre parêntesis, logo após o grau do artificial (ex: A3 (1), A1 (2), A0 (3),...).

A0 é um conjunto de recursos que podem ser utilizados para vencer um trecho, mas que não caracterizam a realização de uma seqüência em artificial. Se de alguma forma for necessário um meio não-natural para se quebrar a sequência em livre da escalada, isso caracterizará o artificial A0. São eles:

- Parar para descansar antes do final da enfiada de corda (não é ascensão, mas quebra a seqüência de dificuldades a serem vencidas);
- Progredir com tensão de corda (ex: corda tensa para o guia em lance horizontal);
- Alguns pontos de apoio não seqüenciais desde que não apresentem risco de queda significativo;
- Pêndulos;
- Segurar no grampo para ascender, costurar, etc.

Estes recursos (A0) influenciarão o grau de uma via desde que usados sistematicamente pelos escaladores que a repetem. Quando a via é normalmente feita em livre e algumas repetições utilizam, por exemplo, o recurso de segurar em grampos, não se diz que ali há um A0. Segurar nos grampos foi apenas uma questão de estilo daquelas repetições.

· A diferença com relação ao Sistema Internacional está no chamado "french-free". No nosso caso, não diferenciamos em "necessário o estribo ou não" e sim em "pontos isolados de apoio ou não".
Ou seja, pegar na costura para ascender, ou costurar isoladamente, será considerado A0. No entanto, se isso acontecer seqüencialmente será A1.
Ocorre, nesses casos, uma diferença conceitual do Sistema Internacional, pois avaliamos a freqüência da técnica artificial utilizada, em contraposição à presença - ou ausência - do equipamento "estribo". Isso resulta em diferenças, tanto no A0 quanto no A1, em comparação com o Sistema Internacional.

Os demais níveis de dificuldade (A2 ao A5) de artificial seguem o sistema americano, descrito por John Middendorf e traduzido pela Claudia Clément (adaptado na descrição do A0 e A1).

A0: Explicado acima (¹ do Sist. Intern.)
A1: Escalada artificial fácil: colocações diretas e sólidas. Nenhum risco de qualquer peça sair. Indiferente quanto ao uso de estribos (eis a única diferença do S.I.), mas utilizados em seqüências e não isoladamente. Simples e rápido para C1 (mesmo que A1 porém Clean, sem uso de martelo, pitons,etc...), mas não necessariamente rápido e simples para enfiadas de "nailing" quando se usa martelo, etc... (Colocações à prova de bomba).
A2: Escalada artificial moderada: colocações geralmente sólidas porém extenuantes e de difícil colocação. Provável ocorrer uma ou duas colocações ruins acima de uma boa e sem risco na queda.
A2+: Como o A2, possibilidade de várias colocações ruins acima de uma boa. Potencial de queda de 6 a 10 metros mas com pouco risco de acertar qualquer coisa (quedas sem risco). Habilidades de leitura de via podem ser necessárias.
A3: Artificial Duro: métodos de testar são necessários (pular nas peças). Envolve varias colocações capciosas em seqüência. Geralmente encontradas colocações "bombas" ao longo da enfiada. Potencial de queda alto de até 16 metros (arrancamento de 6 a 8 colocações), mas geralmente segura de acidente grave. Geralmente são necessárias varias horas para escalar uma enfiada, devido à complexidade das colocações.
A3+: Como o A3, mas com um potencial de queda mais perigoso, colocações extenuantes, como um piton meio para fora com uma fita amarrada no meio, ou um cliff num reglete lascado, depois de longas esticadas com proteções que agüentam somente o peso do corpo (que não podem suportar queda). Potencial para se machucar caso não seja usado um bom julgamento. Tempo necessário geralmente excede 3 horas para um escalador experiente em escalada artificial.
A4: Escalada Artificial seria. Muito Perigo. Potencial de queda de 20 à 30 metros com aterrissagem incerta.
A4+: Mais sério que o A4. Para guiar geralmente são necessárias várias horas. É necessário que o escalador possa agüentar vários períodos de incerteza e medo.
A5: Artificial Extremo. Nenhuma peça pode segurar uma queda em toda a enfiada. Este grau deve ser mantido somente para enfiadas que não possuam ancoragens fixas, nem buracos de cliffs.

Obs: O sistema Internacional fala ainda do A6, que não foi incluído em nossa proposta por ser considerado um grau teórico e não aplicado.

· Há um grau opcional para tempo de duração da escalada que será, provavelmente, muito mais utilizado para vias de Big Wall, informação vital para tal estilo de escaladas, através da colocação do algarismo D (de D1 a D7). No entanto, quem quiser colocar essa duração nas vias urbanas, só estará fazendo um favor a quem não as conhece.

A seguir uma descrição dos graus (tradução feita pelo Tonto de um texto do John Long e John Middendorf - entre parêntesis o grau estrangeiro correspondente):

D1 (Grade I)- Normalmente a via requer apenas algumas horas de escalada técnica (exclui aproximação, etc), não importando o seu nível de dificuldade.
D2 (Grade II)- Normalmente requer meio dia de escalada técnica, não importando o seu nível de dificuldade.
D3 (Grade III)- Normalmente requer um dia completo, não importando o seu nível de dificuldade.
D4 (Grade IV)- Normalmente requer um longo dia de escalada técnica, e em geral o trecho mais difícil não é mais fácil que um 5º grau.
D5 (Grade V)- Em média toma um dia e meio de escalada técnica. Normalmente o trecho mais difícil não é mais fácil que 6º grau.
D6 (Grade VI)- Toma normalmente dois ou mais dias de escalada técnica. Normalmente inclui trechos difíceis de escalada livre e/ou artificial.
D7 (Grade VII) - Entre quinze e vinte e cinco dias em locais de remotíssimo acesso (só se conhece vias assim na Ilha de Baffin/Região Antártica)

· O grau de exposição é opcional e expressa o grau de exigência psicológica de determinada via com relação ao espaçamento das proteções na parte em livre da mesma e ao nível de risco ocasionado por uma queda.
Notação: de E1 a E5. É colocado no final da graduação.

Descrição do grau de exposição por Sérgio Tartari e Alexandre Portela
E1- Vias bem protegidas;
E2- Vias com proteção regular (ex.: vias do Morro da Babilônia, na Urca/RJ);
E3- Proteção regular com trechos perigosos;
E4- Vias perigosas (em caso de queda);
E5- Vias muito perigosas (em caso de queda).

Obs.: Como "perigoso" entenda "possibilidade de morte em caso de queda. Mesmo que seja um trecho fácil, se você cair pode bater em um platô antes de a corda esticar ou uma proteção muito marginal ou móvel que não segure uma queda de guia".

Exemplos:
5º VIsup
Via de grau geral 5 e crux VIsup
6º VIIc
Via de grau geral 6 e crux VIIc. Repare que a partir do grau VII as divisões do grau são a, b e c e não mais com sup e sem sup.
3ºsup IV
Não existe, pois o grau geral não possui subdivisões (explicação no texto acima).
5º VI A1 (2)
Via de grau geral 5, crux VI e trecho com dois pontos de apoio em Artificial grau 1.
5º VI (A1/VIIIb)
Via de grau geral 5, crux VI e trecho em Artificial grau 1, que já foi feito em livre pegando grau VIIIb.
VIIc E3
Via que possui só um esticão de corda (enfiada) e seu crux é VIIc. Seu grau de exposição é regular, o que pode resultar em um grande perrengue em uma via de grau puxado como VIIc.
D6 4º VIsup A2 E4
Via de grau geral 4, crux VIsup e trecho em Artificial grau 2. Sua duração (D6) é de mais de 3 dias, podendo ser considerada um big wall, e seu grau de exposição é alto, o que resulta em uma via séria e comprometida onde uma queda pode trazer maiores conseqüências.

Em suma: o grau de uma via pode ser descrito com apenas um número (como 5º, ou V) ou parecer uma equação diferencial como D3 4º VIsup (A1(2) VIIc) E3.
Tudo vai depender do objetivo ou da paciência de quem estiver fazendo o croqui da via.

Boas Escaladas!!!

Texto por Flávio "Doce" Aguiar, à partir de texto de Flávio Wasniewski/Interclubes-Rio

Para saber mais: http://www.femerj.org/montanhismo-e-escalada/graduacao-de-escalada 

 

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