Sistema Brasileiro de Graduação de vias de escalada
SISTEMA BRASILEIRO DE GRADUAÇÃO DE DIFICULDADE DE ESCALADA EM ROCHA (proposta do Rio de Janeiro)
confira a última versão deste sistema em : http://www.femerj.org/documentos%5Csistema_graduacao.pdf
Considerando que em nosso país, muito se aprende e se adapta daquilo que chega baseado em experiências estrangeiras, o sistema de graduação de escaladas em rocha não poderia fugir à regra. No entanto, de acordo com o desenvolvimento do esporte ao longo de todo o território nacional, foram se desenvolvendo diferentes maneiras de se classificar os níveis de dificuldade encontrados, pois encontram-se locais onde se usa uma classificação oriunda do sistema alpino, outra do sistema francês, uma mescla dos dois (seria um nacional, mas com várias diferenças regionais) e até corruptelas deste último. Mas as escaladas no interior do país estão mais em contato com os sistemas estrangeiros do que o Rio, que já vinha desenvolvendo uma forma própria de estabelecer os graus de dificuldade, porém sem seguir uma sistemática única.
Com tantas diferenças - não estabelecidas ou escritas em lugar nenhum - isso sempre dificultou a avaliação dos escaladores que freqüentam vários estados, além da própria forma de se informar as características das vias de escalada àqueles que chegam pela primeira vez em uma localidade com diversas conquistas locais
"- De acordo com o croqui, aquela via dá um VIsup", e o outro pergunta: "- Isso significa 6a, 6b ou 6c? Isto é o grau geral ou do crux da via? Em que sistema de graduação?". Afora as diferenças locais para a avaliação dos graus de dificuldade, ainda entra o problema de compreensão da forma de escrever.
Para tentar estimular uma uniformização dos sistemas de graduação de escaladas à nível nacional, a Interclubes/Rio (entidade que congrega clubes de montanhismo e profissionais do esporte) realizou um ciclo de 3 Seminários que discutiu o tema e chegou a uma proposta carioca para a unificação dos sistemas. A discussão foi concluída na reunião Interclubes de 14/12/99.
Segue abaixo, portanto, um resumo do sistema de graduação como é proposto pela Interclubes Rio:
· A graduação de uma via deve conter (veja exemplos comentados ao final):
O grau geral da via, representado em números arábicos (1, 2, 3,...) tentando expressar todos os fatores que influenciam a via. Historicamente, no Rio de Janeiro (e em grande parte do Brasil), não há definição do grau geral da via além do grau do lance mais difícil em vias com menos de um esticão de corda (ou enfiada), pois estes estariam mesclados como fatores que influenciam na graduação da via.
· Assim, para vias de até um esticão (enfiada) utiliza-se, apenas, o grau do lance mais difícil (crux).
· O grau do lance mais difícil (crux) em algarismos romanos (I, II, III,....), com subdivisões descritas abaixo. Para o grau do crux ou para vias com menos de um esticão de corda (ou enfiada), até o grau VI sup, as divisões intermediárias dos graus serão dadas com "sup", que significa a abreviação do termo "superior". A partir deste (do VII em diante), as divisões serão a, b, c (ex.: III ; IIIsup ; IV ; IVsup ; V ; Vsup ; VI ; VIsup ; VIIa ; VIIb ; VIIc ; VIIIa ; VIIIb ; VIIIc ; IXa ; IXb ....).
· Caso haja artificial, ele deve ser representado segundo o Sistema Internacional (A1 até A5, com exceção do A0, explicado a seguir). Caso o trecho em artificial seja posteriormente feito em livre, este deve ser representado também junto com o grau em artificial entre parêntesis separado por uma barra (ex: A1/VIIIa, A0/VIIc,...).
· Além do grau do artificial, existe uma opção de se colocar a quantidade de pontos de apoio artificiais, para vias quase em sua totalidade em livre, mas com pequeno número de lances em artificial. Basta se colocar o número de pontos de apoio entre parêntesis, logo após o grau do artificial (ex: A3 (1), A1 (2), A0 (3),...).
A0 é um conjunto de recursos que podem ser utilizados para vencer um trecho, mas que não caracterizam a realização de uma seqüência em artificial. Se de alguma forma for necessário um meio não-natural para se quebrar a sequência em livre da escalada, isso caracterizará o artificial A0. São eles:
- Parar para descansar antes do final da enfiada de corda (não é ascensão, mas quebra a seqüência de dificuldades a serem vencidas);
- Progredir com tensão de corda (ex: corda tensa para o guia em lance horizontal);
- Alguns pontos de apoio não seqüenciais desde que não apresentem risco de queda significativo;
- Pêndulos;
- Segurar no grampo para ascender, costurar, etc.
Estes recursos (A0) influenciarão o grau de uma via desde que usados sistematicamente pelos escaladores que a repetem. Quando a via é normalmente feita em livre e algumas repetições utilizam, por exemplo, o recurso de segurar em grampos, não se diz que ali há um A0. Segurar nos grampos foi apenas uma questão de estilo daquelas repetições.
· A diferença com relação ao Sistema Internacional está no chamado "french-free". No nosso caso, não diferenciamos em "necessário o estribo ou não" e sim em "pontos isolados de apoio ou não".
Ou seja, pegar na costura para ascender, ou costurar isoladamente, será considerado A0. No entanto, se isso acontecer seqüencialmente será A1.
Ocorre, nesses casos, uma diferença conceitual do Sistema Internacional, pois avaliamos a freqüência da técnica artificial utilizada, em contraposição à presença - ou ausência - do equipamento "estribo". Isso resulta em diferenças, tanto no A0 quanto no A1, em comparação com o Sistema Internacional.
Os demais níveis de dificuldade (A2 ao A5) de artificial seguem o sistema americano, descrito por John Middendorf e traduzido pela Claudia Clément (adaptado na descrição do A0 e A1).
A0: Explicado acima (¹ do Sist. Intern.)
A1: Escalada artificial fácil: colocações diretas e sólidas. Nenhum risco de qualquer peça sair. Indiferente quanto ao uso de estribos (eis a única diferença do S.I.), mas utilizados em seqüências e não isoladamente. Simples e rápido para C1 (mesmo que A1 porém Clean, sem uso de martelo, pitons,etc...), mas não necessariamente rápido e simples para enfiadas de "nailing" quando se usa martelo, etc... (Colocações à prova de bomba).
A2: Escalada artificial moderada: colocações geralmente sólidas porém extenuantes e de difícil colocação. Provável ocorrer uma ou duas colocações ruins acima de uma boa e sem risco na queda.
A2+: Como o A2, possibilidade de várias colocações ruins acima de uma boa. Potencial de queda de 6 a 10 metros mas com pouco risco de acertar qualquer coisa (quedas sem risco). Habilidades de leitura de via podem ser necessárias.
A3: Artificial Duro: métodos de testar são necessários (pular nas peças). Envolve varias colocações capciosas em seqüência. Geralmente encontradas colocações "bombas" ao longo da enfiada. Potencial de queda alto de até 16 metros (arrancamento de 6 a 8 colocações), mas geralmente segura de acidente grave. Geralmente são necessárias varias horas para escalar uma enfiada, devido à complexidade das colocações.
A3+: Como o A3, mas com um potencial de queda mais perigoso, colocações extenuantes, como um piton meio para fora com uma fita amarrada no meio, ou um cliff num reglete lascado, depois de longas esticadas com proteções que agüentam somente o peso do corpo (que não podem suportar queda). Potencial para se machucar caso não seja usado um bom julgamento. Tempo necessário geralmente excede 3 horas para um escalador experiente em escalada artificial.
A4: Escalada Artificial seria. Muito Perigo. Potencial de queda de 20 à 30 metros com aterrissagem incerta.
A4+: Mais sério que o A4. Para guiar geralmente são necessárias várias horas. É necessário que o escalador possa agüentar vários períodos de incerteza e medo.
A5: Artificial Extremo. Nenhuma peça pode segurar uma queda em toda a enfiada. Este grau deve ser mantido somente para enfiadas que não possuam ancoragens fixas, nem buracos de cliffs.
Obs: O sistema Internacional fala ainda do A6, que não foi incluído em nossa proposta por ser considerado um grau teórico e não aplicado.
· Há um grau opcional para tempo de duração da escalada que será, provavelmente, muito mais utilizado para vias de Big Wall, informação vital para tal estilo de escaladas, através da colocação do algarismo D (de D1 a D7). No entanto, quem quiser colocar essa duração nas vias urbanas, só estará fazendo um favor a quem não as conhece.
A seguir uma descrição dos graus (tradução feita pelo Tonto de um texto do John Long e John Middendorf - entre parêntesis o grau estrangeiro correspondente):
D1 (Grade I)- Normalmente a via requer apenas algumas horas de escalada técnica (exclui aproximação, etc), não importando o seu nível de dificuldade.
D2 (Grade II)- Normalmente requer meio dia de escalada técnica, não importando o seu nível de dificuldade.
D3 (Grade III)- Normalmente requer um dia completo, não importando o seu nível de dificuldade.
D4 (Grade IV)- Normalmente requer um longo dia de escalada técnica, e em geral o trecho mais difícil não é mais fácil que um 5º grau.
D5 (Grade V)- Em média toma um dia e meio de escalada técnica. Normalmente o trecho mais difícil não é mais fácil que 6º grau.
D6 (Grade VI)- Toma normalmente dois ou mais dias de escalada técnica. Normalmente inclui trechos difíceis de escalada livre e/ou artificial.
D7 (Grade VII) - Entre quinze e vinte e cinco dias em locais de remotíssimo acesso (só se conhece vias assim na Ilha de Baffin/Região Antártica)
· O grau de exposição é opcional e expressa o grau de exigência psicológica de determinada via com relação ao espaçamento das proteções na parte em livre da mesma e ao nível de risco ocasionado por uma queda.
Notação: de E1 a E5. É colocado no final da graduação.
Descrição do grau de exposição por Sérgio Tartari e Alexandre Portela
E1- Vias bem protegidas;
E2- Vias com proteção regular (ex.: vias do Morro da Babilônia, na Urca/RJ);
E3- Proteção regular com trechos perigosos;
E4- Vias perigosas (em caso de queda);
E5- Vias muito perigosas (em caso de queda).
Obs.: Como "perigoso" entenda "possibilidade de morte em caso de queda. Mesmo que seja um trecho fácil, se você cair pode bater em um platô antes de a corda esticar ou uma proteção muito marginal ou móvel que não segure uma queda de guia".
Exemplos:
5º VIsup
Via de grau geral 5 e crux VIsup
6º VIIc
Via de grau geral 6 e crux VIIc. Repare que a partir do grau VII as divisões do grau são a, b e c e não mais com sup e sem sup.
3ºsup IV
Não existe, pois o grau geral não possui subdivisões (explicação no texto acima).
5º VI A1 (2)
Via de grau geral 5, crux VI e trecho com dois pontos de apoio em Artificial grau 1.
5º VI (A1/VIIIb)
Via de grau geral 5, crux VI e trecho em Artificial grau 1, que já foi feito em livre pegando grau VIIIb.
VIIc E3
Via que possui só um esticão de corda (enfiada) e seu crux é VIIc. Seu grau de exposição é regular, o que pode resultar em um grande perrengue em uma via de grau puxado como VIIc.
D6 4º VIsup A2 E4
Via de grau geral 4, crux VIsup e trecho em Artificial grau 2. Sua duração (D6) é de mais de 3 dias, podendo ser considerada um big wall, e seu grau de exposição é alto, o que resulta em uma via séria e comprometida onde uma queda pode trazer maiores conseqüências.
Em suma: o grau de uma via pode ser descrito com apenas um número (como 5º, ou V) ou parecer uma equação diferencial como D3 4º VIsup (A1(2) VIIc) E3.
Tudo vai depender do objetivo ou da paciência de quem estiver fazendo o croqui da via.
Boas Escaladas!!!
Texto por Flávio "Doce" Aguiar, à partir de texto de Flávio Wasniewski/Interclubes-Rio.
http://www.femerj.org/gt/sist_graduacao_proposta.html
1. Introdução
2. A Graduação de Escaladas no Brasil: Um pouco de história
Na década seguinte o número de conquistas cresceu bastante, e logo surgia uma maneira brasileira de se graduar as vias, resultado do casamento do sistema alpino tradicional com a experiência dos escaladores locais. Este sistema foi aperfeiçoado, descrito e oficializado em 1974 pela antiga Federação Carioca de Montanhismo (FCM), responsável pela introdução da subdivisão "sup" na graduação. No ano seguinte, a FCM viria a se tornar estadual: Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro (FMERJ), que viria a ser extinta no início dos anos 80. A FMERJ publicou em 1975 uma relação das conquistas até então existentes e seus graus de dificuldade, inaugurando ali o novo sistema.

Parte do texto introdutório do sistema de graduação - 1974
3. Descrição do Sistema de Graduação Proposto
3.1- Introdução
Uma das vantagens do sistema brasileiro é a menção dos graus geral e do lance mais difícil da via em separado, ao contrário do que acontece em sistemas como o americano e o francês, que tomam como grau de uma escalada apenas o grau do seu lance mais difícil.
O sistema aqui proposto procura manter esta e outras qualidades deste sistema e ao mesmo tempo acrescentar algumas inovações que o tornem mais atual e eficiente. Algumas destas mudanças são: a adoção oficial do sistema internacional em artificiais (o sistema antigo classificava oficialmente os artificiais em A1, A2 ou A3, embora na prática no Brasil já se adote há tempos a escala até A5), a nova subdivisão (a,b,c) para lances de dificuldade elevada (VIIa ou maior) e a adoção de um grau específico de exposição.
A graduação de uma via é composta aqui de duas partes principais: uma "central", de menção obrigatória, e outra de termos opcionais, que podem ser acrescidos conforme a riqueza de detalhes que se deseje passar.
A parte central é composta pelo grau geral, o grau do lance mais difícil e o grau do artificial, quando este existir. Os termos opcionais são o grau de duração, o grau de exposição, o número de passadas em artificial e o grau máximo "obrigatório" em livre. Todos estes itens são explicados abaixo.
Lembramos que na atribuição do grau a uma via considera-se que o escalador está guiando e escalando "à vista", isto é, sem conhecimento prévio da via.
3.2- O Grau Geral
O grau geral tem o objetivo de expressar a soma de todos os fatores objetivos e subjetivos que traduzem a dificuldade de uma via. Trata-se de uma média das dificuldades técnicas encontradas ao longo da via, que por sua vez pode ser ajustada de acordo com os fatores subjetivos, caso estes tenham um peso relevante na dificuldade geral. Entre estes fatores estão: distância entre as proteções, periculosidade das quedas, exigência física, qualidade das proteções e da rocha, existência ou não de paradas naturais para descanso no meio das enfiadas e possibilidade de abandono do meio da via.
Como é influenciado por fatores subjetivos de toda a via, o grau geral pode eventualmente ser maior do que o grau do lance mais difícil. Isto acontece, por exemplo, em escaladas de lances fáceis porém com alto grau de exposição (ver exemplos ao final do texto).
Notação e uso:
- Algarismos ordinais arábicos;
- Não há subdivisões;
- Colocado no início da graduação, podendo apenas ser antecedido pelo grau de duração, quando este existir;
- Sistema aberto para cima, podendo sempre receber um grau a mais do que o máximo grau existente em uma determinada época;
- Menção obrigatória.
Escala: 1° , 2° , 3° , 4° , 5° , 6° , 7° , 8° ,…
3.3- O Grau do Lance mais difícil
Trata-se do grau do lance ou seqüência mais difícil de toda a escalada, ou grau do crux. Pode ser apenas uma passada ou uma seqüência, isto é, um conjunto de lances entre dois pontos naturais de descanso da via. Este grau também é influenciado pelo nível de exposição (um lance difícil longe do último grampo tende a ter graduação mais alta do que o mesmo lance bem protegido), embora o fator dificuldade técnica prevaleça.
Notação e uso:
- Algarismos romanos;
- Subdivisões: "sup" até VIsup, e "a, b, c" acima de VIsup;As subdivisões são escritas logo após o algarismo, em minúsculas e sem espaçamento;
- Posicionado logo após o grau geral, deixando-se um espaço entre eles, e antes do grau do artificial;
- O sistema é aberto para cima;
- Menção obrigatória.
Escala: I, Isup, II, IIsup, III, IIIsup, IV, IVsup, V, Vsup, VI, VIsup, VIIa, VIIb, VIIc, VIIIa, VIIIb, VIIIc, IXa,…
Obs: Além de ser usada na classificação de vias, a notação em romanos deve ser sempre utilizada para a descrição de lances de escalada isolados. A indicação da dificuldade de cada lance nos desenhos dos croquis de vias e o relato escrito de detalhes de escaladas ("…tal escalador passou por uma fenda de VI…") são dois exemplos onde se deve escrever o grau em romanos e não em arábicos.
3.4- Vias de uma enfiada de corda, falésias e boulders
Para estas vias não há sentido em se atribuir um grau geral e um grau para o lance mais difícil, uma vez que são vias curtas, de comprimento máximo de 50 ou 60 metros. Então o grau geral é abolido, e utiliza-se somente o grau do lance ou seqüência mais difícil, em romanos, para expressar a sua dificuldade. As vias muito curtas, por serem normalmente mais difíceis, não costumam possuir pontos naturais de descanso – neste caso a via inteira é uma seqüência única a ser graduada.
Esta graduação é válida para boulders, falésias e vias curtas em geral, e a notação e a escala já foram descritas acima. Seguem abaixo alguns exemplos de escaladas deste tipo pelo Brasil:
- O Tempo Não Para (Galpão de Pedra, Caçapava do Sul, RS) - VIsup
- Ácido Nítrico (Falésias dos Ácidos, Urca – RJ) – VIIIa
- Corações e Mentes (Mo. Da Pedreira, S. do Cipó, MG) - IIIsup
- Asterix (P. da Ana Chata, S. Bento do Sapucaí, SP) - VIIa
3.5- O Grau máximo obrigatório em livre
O grau de uma via de escalada é o seu grau mais em livre possível. No entanto, um escalador cujo nível técnico esteja abaixo dos lances mais difíceis de determinada escalada pode ter condições de repeti-la se subir tais lances em artificial, utilizando para isso as proteções como pontos de apoio. Embora este não seja o melhor estilo de se repetir uma via, muitas vezes é o estilo possível para quem (ainda) não consegue fazê-la totalmente em livre.
Por este motivo, na hora de graduar uma via, alguns escaladores gostam de mencionar o grau máximo "obrigatório" em livre da escalada, isto é, aquele que, mesmo utilizando as proteções como ponto de apoio, o escalador necessariamente tem que conseguir guiar em livre para repeti-la. Neste caso o "novo crux" passa a ser mais baixo, substituindo o crux real na graduação. O crux real é mencionado entre parêntesis, junto com a indicação do artificial que o substitui.
Por exemplo: Suponha que numa via de 3° VIsup o lance de VIsup possa ser subido pisando-se em duas das proteções (artificial A0, portanto), fazendo com que o grau máximo em livre passe a ser IV. O grau desta via pode ser expresso então como 3° IV (A0/VIsup). Isto é, a via é de 3° grau, o crux é de VIsup e caso este seja feito em artificial A0 o novo crux (grau obrigatório) passa a ser IV. O termo entre parêntesis (A0/VIsup) significa "ou você faz um A0 ou faz um VIsup".
Outra aplicação para esta forma de graduação está em vias conquistadas com trechos em artificial e que com o passar dos anos foram feitas em livre, mas que conservam a grampeação original do antigo artificial.
Notação e uso:
- O "novo crux" é colocado depois do grau geral, em substituição ao crux real;
- A seguir coloca-se entre parêntesis o grau do artificial, uma barra e o grau do crux real, sem espaçamento entre eles;
- Uso opcional.
3.6- O Grau do Artificial (A)
Entende-se por artificial o uso de meios não naturais (ou pontos de apoio artificiais) para progressão numa escalada.
O grau adotado aqui segue o sistema internacionalmente mais utilizado, indo de A0 a A5, e possuindo subdivisões ("+"). Apenas o A0 recebe uma definição um pouco diferente em relação a outros países. Quanto ao grau reservado para (futuras) escaladas mais difíceis do que A5, adota-se aqui o A5+ em vez de A6, para se manter uma lógica sequencial, a exemplo de algumas publicações como o já citado "Mountaineering – the freedom of the hills".
O grau do artificial de uma via é o grau da sua enfiada mais difícil, e não uma média dos diferentes trechos em artificial.
Quando o artificial possui poucos pontos de apoio, pode-se desejar mencionar a quantidade destes pontos. Neste caso, coloca-se o número de pontos de apoio entre parêntesis, logo depois do grau. Ex: 4° V A1(3) ou 4° V A2+(2).
Quanto a via possui trecho em cabo de aço, adiciona-se a letra "C" ao final. Ex: 4° V C.
Convém comentar que a graduação de artificiais leva em conta principalmente a qualidade das colocações que seguram o escalador e o tamanho da queda em potencial. Assim sendo, é possível a existência de artificiais com poucas passadas mas de graus elevados. Por exemplo: uma sequência de 4 ou 5 copperheads e rurps fragilmente colocados após um longo lance de escalada em livre sem proteção pode vir a receber um grau alto, apesar de ser um trecho curto.
Artificiais fixos podem ser A0 ou A1, conforme sua extensão. Artificiais de cliff são sempre maiores do que A1, variando conforme a distância da última proteção sólida e a dificuldade de progressão. Estes fatores também se aplicam ao material móvel em geral.
Notação e uso:
- Letra A maiúscula seguida de numeração de 0 a 5, em arábicos, sem espaçamento entre a letra e o número;
- Subdivisões: "+", colocado após o número sem espaçamento;
- Posicionado depois do grau do lance mais difícil e antes do grau de exposição (E), caso exista;
- No caso de cabos de aço, letra C maiúscula, posicionada depois do lance mais difícil ou do artificial (A), caso este exista, e antes do grau de exposição (E), caso exista;
- O número de pontos de apoio vem em arábicos, colocado entre parêntesis logo após o grau do artificial, sem espaçamento. Seu uso não é obrigatório;
- O grau do artificial é de uso obrigatório;
Escala:
A0: Pontos de apoio sólidos ("à prova de bomba") isolados ou em uma curta sequência, com pouca exposição; pêndulos; uso da proteção para equilíbrio ou descanso; e tensionamento da corda para auxílio na progressão;
A1: Peças fixas ou colocações sólidas de material móvel, todas elas fáceis e seguras, em uma seqüência razoavelmente longa;
A2: Colocações de material móvel geralmente sólidas porém mais difíceis. Algumas colocações podem não ser sólidas, mas estarão logo acima de uma boa peça. Não há quedas perigosas.
A2+: Como o A2, mas com possibilidade de mais colocações ruins acima de uma boa. Potencial de queda aproximado de 6 a 9 metros, mas sem atingir platôs. Pode ser necessária uma certa experiência para encontrar a trajetória correta da escalada.
A3: Artificial difícil. Possui várias colocações frágeis em seqüência, com poucas proteções sólidas. O potencial de queda é de até 15 metros, equivalente ao arrancamento de 6 a 8 peças, mas geralmente não causa acidentes graves. Geralmente são necessárias varias horas para guiar uma enfiada, devido à complexidade das colocações.
A3+: Como o A3, mas com maior potencial de quedas perigosas. Colocações frágeis, como cliffs de agarra em arestas em decomposição, depois de longos trechos com proteções que agüentam somente o peso do corpo. É comum que escaladores experientes levem mais de três horas para guiar uma enfiada.
A4: Escaladas muito perigosas. Quedas potenciais de 18 a 30 metros, com perigo de se atingir platôs ou lacas de pedra. Peças que agüentam somente o peso do corpo.
A4+: Como o A4, mas são necessárias várias horas para cada enfiada de corda. Cada movimento do escalador deve ser calculado para que a peça onde ele se encontra não seja arrancada apenas com o peso do seu corpo. Longos períodos de pressão psicológica.
A5: Este é o extremo, sob o ponto de vista técnico e psicológico. Nenhuma das peças colocadas em toda a enfiada é capaz de segurar mais do que o peso do corpo, quando muito. As enfiadas não podem possuir proteções fixas nem buracos de cliff.
A5+: Como um A5 em que as paradas não são sólidas. Qualquer queda é fatal para todos os componentes da cordada. Até o presente (2002) não se conhece nenhuma via de escalada com essa graduação.
3.7- O Grau de Duração (D)
Expressa o tempo de duração da via quando repetida à vista por uma cordada que tenha prática nas técnicas exigidas e que tenha segurança no grau da via. A escala utilizada é a internacional, tendo a notação sido modificada para maior clareza, já que aquela escala utiliza os mesmos algarismos romanos que aqui utilizamos para o lance mais difícil da via. Assim sendo, os graus I, II, III, etc utilizados no exterior equivalerão no sistema brasileiro aos graus D1, D2, D3, etc, sendo o D de "duração".
O grau de duração da via só considera a ascenção, não incluindo o tempo de retorno, seja ele feito por rapel ou caminhada.
Notação e uso:
- Letra D maiúscula seguida de numeração (de 1 a 7), em arábicos, sem espaçamento entre a letra e o número;
- Posicionado no início do grau da via, antes de todos os outros fatores;
- Utilização opcional.
Escala:
D1: Poucas horas de escalada
D2: Meio dia de escalada.
D3: Um dia quase inteiro de escalada.
D4: Um longo dia de escalada.
D5: Requer uma noite na parede. Cordadas muito velozes podem repeti-la em um dia.
D6: Dois dias inteiros ou mais de escalada. Normalmente inclui longos e complicados trechos de escalada artificial.
D7: Expedições a locais de acesso remoto com longa aproximação e muitos dias de escalada.
3.8- O Grau de Exposição (E)
O grau de exposição de uma via procura expressar seu o grau de comprometimento psicológico. Como visto anteriormente, a exposicao está incluída, junto com outros fatores, no grau geral da escalada. No entanto, a sua menção específica em separado é uma informação muitas vezes importante, principalmente em se tratando de escaladas em ambiente de montanha, e muitos escaladores optam por utilizá-lo na graduação das vias.
A primeira vez que um termo que expressasse exclusivamente o grau de exposição foi utilizado ocorreu com o lançamento do Guia de Escaladas dos Três Picos (1998), por Alexandre Portela, Sérgio Tartari e Isabela de Paoli. Os autores criaram um sistema fechado com 5 subdivisões, e que teve repercussão bastante positiva por parte da grande maioria dos escaladores que utilizaram aquela publicação como fonte de informações sobre as escaladas de Salinas (Friburgo), região incluída no guia. Como resultado, decidiu-se nos seminários incluir este grau no sistema.
Os fatores considerados aqui são principalmente a distância e a qualidade das proteções e o risco de vida em caso de queda, mas também a dificuldade técnica dos lances (embora este fator tenha menor peso).
Este grau diz respeito apenas à parte de escalada livre da via. A exposição dos trechos em artificial está incluída no grau do artificial.
Notação e uso:
- Letra E maiúscula, seguida de numeração de 1 a 5, em arábicos, sem espaçamento entre a letra e o número;
- Posicionado ao final do grau da via, depois de todos os outros fatores;
- Sua utilização é opcional.
Escala:
E1: Vias bem protegidas (ex: a maior parte das vias do Anhangava/PR, Cuscuzeiro/SP, Lapinha/MG e Coloridos, Urca/RJ);
E2: Vias com proteção regular (ex: vias do Morro da Babilônia, na Urca/RJ e Serra do Lenheiro/MG);
E3: Proteção regular com trechos perigosos (ex: vias na Serra dos Órgãos/RJ e Pedra do Baú/SP);
E4: Vias perigosas (em caso de queda) (ex: algumas vias de Salinas/RJ e Marumbi/PR); e
E5: Vias muito perigosas (em caso de queda) (ex: algumas vias de Salinas/RJ e Cinco Pontões/ES).
4. Exemplos de aplicação do Sistema:
Suponhamos que uma determinada via seja curta (uma enfiada de corda ou mesmo um boulder), e a sequência mais difícil seja VIIb. O grau da via é então VIIb.
Suponhamos agora que essa via tenha na verdade duas ou mais enfiadas. Então o grau médio dos lances da via deve ser aferido, e ajustado um pouco para cima (ou não) conforme a exposição, exigência física e outros fatores subjetivos. Suponhamos que esse grau seja 5° . Então o grau da via é 5° VIIb.
Mas no meio da via há um artificial de cliffs graduado em A2. Grau: 5° VIIb A2.
Se esse artificial constituir de apenas três pontos de apoio, você pode querer explicitar isso. Solução: 5° VIIb A2 (3).
Suponhamos que a via não tenha artificial nenhum, pois é feita em livre. Como vimos acima, seu grau é então 5° VIIb. Mas o crux (VIIb) tem a possibilidade de ser feito em artificial segurando em um ou dois dos grampos de proteção (um A0, portanto), e aí o lance mais difícil passa a ser um Vsup. Você pode informar isso na graduação da seguinte forma: 5° Vsup (A0/VIIb).
Bem, acontece que esta via é particularmente exposta (um E4), e embora isto já tenha influenciado o grau geral você pode querer dar a informação em separado. Então o grau da via é 5° VIIb E4. E se houver o artificial A2, 5° VIIb A2 E4.
E finalmente a via em questão é tão longa e trabalhosa que se trata de um big wall, e uma cordada normal levará dois dias para repetir. O grau é então: D5 5° VIIb A2 E4.
Em suma: o grau pode ser expresso de maneira tão simples como VIIb ou tão extensa como D5 5° VIIb A2 E4, conforme as características da via e os objetivos de quem a gradua. Mas na prática, a maioria das vias só requer mesmo o uso de dois termos: o grau geral e o crux.
Seguem abaixo outros exemplos:
VIsup - via de uma enfiada, boulder ou falésia cujo crux é VIsup.
D2 4° VIsup A2 E2 – Via de grau médio (geral) 4° , crux VIsup e artificial A2 cujo grau de exposição é E2 (grampeação regular) e a duração é D2 (meio dia de escalada).
IV E3 - Via curta de crux IV grau e exposição regular com trechos perigosos (E3).
3° IVsup (A0/VI) – Via de 3° grau com crux de VI, mas cujo crux obrigatório é IVsup.
D6 7° VIIb A3+ E4 – Via de 7° grau com crux de VIIb e artificial A3+ que tem grau de exposição E4 (via perigosa) e duração de alguns dias.
5° IV – Via de 5° grau cujo crux é de IV grau.
5° IV E4 – Pode ser a mesma via anterior, mas decidiu-se tornar explícito o grau de exposição. Notar que o alto grau de exposição desta via faz com que o grau geral seja maior do que o do crux.
5. Graduação de algumas vias pelo Brasil (implantando o sistema)
Entre o Sol e a Lua (Casa de Pedra, Bagé / RS) - 5° V
O Dia da Marmota (P. do Cuscuzeiro, Analândia / SP) - 5° VIsup
Tragados pelo tempo (Corcovado / RJ) – D5 6° VIsup A3+
Ópera Selvagem (Sa. Do Lenheiro, S. J. del Rei / MG) - 4° V
Infarto Neurológico (Ibitirati / PR) - 6° VIsup A2 E4
Agulha do Diabo (Serra dos Órgãos / RJ) - 3° IIIsup A1 C
Universo Paralelo (Pa. do Pântano, Andradas / MG) – VIIa
Los Encardidos (Marumbi / PR) – D5 6° VI A2
Tente Outra Vez (Torres / RS) - VI
Alcatraz (Serra Caiada / RN) - 6º VIIa E2
Face Leste do Pico Maior (Friburgo / RJ) - 5° IVsup E3
6. Considerações Finais
Como dito anteriormente, o novo sistema vem sendo testado na prática desde o início do ano 2000 em diferentes regiões do país, e após este período já é possível fazer algumas observações:
A mudança de notação existente entre o sexto e o sétimo grau foi bem assimilada pelos escaladores na linguagem oral – parece estar bem difundido que depois do "sexto sup" vem o "sete a", "sete b", etc, e não mais os "sétimo" e "sétimo sup". Mas, na escrita, ainda se usa muito os arábicos para estes graus ("7a", "7b", etc), quando o correto é "VIIa", "VIIb", etc.
Outro equívoco ainda comum é o uso de subdivisões no grau geral e o uso de arábicos na classificação de lances ("5° sup"), em vez dos romanos.
O uso do grau de exposição se tornou rapidamente popular, e embora tenha por vocação maior utilidade nas regiões de "vias de montanha", vem sendo usado corriqueiramente em escaladas urbanas. Alguns escaladores sugeriram que este fator passe a ser de uso obrigatório.
7. Bibliografia
- Documentos técnicos da extinta FMERJ, 1974 e 1975;
- Catálogo de Escaladas do Estado do Rio de Janeiro – André Ilha e Lúcia Duarte, 1984;
- Guia de Escaladas da Urca – Flávio Daflon e Delson Queiroz, 1996;
- Guia de Escaladas dos Três Picos – Alexandre Portela, Sérgio Tartari e Isabela de Paoli, 1998;
- Guia de Escaladas de Guaratiba – André Ilha, 1999;
- Notas dos seminários de graduação – Fórum Interclubes, 1999;
- Mountaineering – The Freedom of the Hills – 6a edição - The Mountaineers, 1996.



