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Uso das costuras expressas na escalada (proteção fixa e móvel)

Por Davi Marski, setembro de 2013

Quando a gente compra a primeira “costura” (aquele conjunto composto por um anel de fita, fechado com várias costuras, e dois mosquetões sem trava nas extremidades), na maior parte das vezes somos tão iniciantes no universo da escalada que no máximo sabemos que o mosquetão de gatilho “reto” deve ir na chapeleta (ou grampo “P”) e o mosquetão de gatilho curvo deve ficar na parte de baixo, onde iremos passar a corda.

Certo ?

E quanto à orientação dos mosquetões ? devem ficar de lados opostos ou ambos virados para o mesmo lado ? E a fita ? se repararem, a fita tem um lado no qual o mosquetão fica mais “solto” e outro lado no qual o mosquetão fica mais “firme”.  Qual é o lado da fita que deve ficar no mosquetão que irá passar na proteção (fixa ou móvel) utilizada ? Qual é o lado da fita que fica no mosquetão de gatilho curvo ?

E por falar em proteção móvel, devemos usar as mesmas “costuras” utilizadas para vias esportivas ou não ?

A intenção com esse breve artigo é abordar estas e outras questões. (vamos usar a palavra “costura” como sinônimo para o conjunto composto de fita fechada em anel e dois mosquetões sem trava)

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típicas costuras utilizadas em escalada tradicional (costura de cima) e escalada esportiva (as duas de baixo).

Notem que ambos os gatilhos ficam virados para o mesmo lado (já abordaremos essa questão), o mosquetão com gatilho reto é o mosquetão que irá ser utilizado na proteção fixa (chapeleta ou grampo “P”), a fita costurada possui um lado no qual o mosquetão é passado de forma mais livre, frouxa. Esse lado é utilizado com o mosquetão de gatilho reto. O outro lado da fita é utilizado com o mosquetão da corda, que possui normalmente o gatilho curvo.

O gatilho curvo facilita a passagem da corda para dentro do mosquetão, no momento da clipagem.

O mosquetão utilizado na proteção fixa, como está passado “frouxo” na fita costurada, possui um certo grau de liberdade, de movimento, evitando que aconteça um “self-unclipping”, e por sua vez, o mosquetão da corda está firmemente passado dentro da fita costurada, garantindo assim uma maior facilidade para o escalador “costurar”.

É por isso que o eventual uso das borrachinhas para manter o mosquetão no lugar só devem ser utilizadas no mosquetão que recebe a passagem da corda. O outro mosquetão precisa ter liberdade de movimento.

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Ilustração da Petzl a respeito do uso incorreto da costura / borracha

Mas o que é esse “self-unclipping”?

É quanto o mosquetão sai sozinho da chapeleta ou quando a corda sai sozinha de dentro do mosquetão.... ele pode acontecer das seguintes maneiras:

Corda passada de “fora para dentro” no mosquetão (z-clipping) ou então, mosquetão virado para o mesmo lado de uma eventual queda     

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Corda passada errada na costura (a corda está passada erroneamente de “fora para dentro”)

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Mosquetão no mesmo sentido da escalada e corda passada de forma correta, ou seja, “de dentro para fora” 

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Ilustração da Petzl mostrando como pode acontecer o “self-unclipping”

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Corda passada de “fora para dentro”, forçando a costura a rotacionar e sair da chapeleta

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Mosquetão passado “de fora para dentro”, forçando a costura a rotacionar e eventualmente desclipar o mosquetão da chapeleta (por isso é importante o mosquetão da proteção fixa possuir um bom grau de liberdade/movimento).Ilustração da Petzl.

Os mosquetões devem ficar  virados para o mesmo lado, na costura:

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Sempre vai ter alguém preferindo que os gatilhos fiquem virados de lados opostos... acontece que quando os gatilhos estão virados de lados opostos isso propicia um cenário no qual a costura pode sair sozinha da chapeleta.

Isso acontece de duas formas:

Quando a costura gira para uma nova direção (seja porque o mosquetão de “cima” está muito justo na costura, seja porque a corda foi passada de forma incorreta e está puxando o conjunto para cima), a parte de cima do mosquetão pode bater na chapeleta e o gatilho pode simplesmente abrir, tirando o mosquetão completamente de dentro da chapeleta.

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Outra forma disso acontecer é quando a costura é puxada para cima (pelos mesmos motivos anteriores) e o gatilho é aberto ao entrar em contato com a cabeça do parafuso/parabolt que prende a chapeleta:

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Não são todas as costuras que possuem mosquetão curvo (para o lado da corda). Com esse tipo de costura é muito importante definir qual é o lado que será utilizado para passar na chapeleta e qual é o lado que será utilizado para passar a corda. Sempre.

Use sempre o mesmo mosquetão para clipar à chapeleta ! Não use esse mosquetão para clipar a corda !

Isso é importante pois cada vez que acontece uma queda, o mosquetão que está na chapeleta sofre pequenos danos em sua superfície, em virtude do atrito gerado entre os metais. Esse atrito pode gerar pequenas “lascas”...  Se você inverte a posição da costura, e sofre uma queda, a corda irá atritar com estas eventuais “lascas”, causando grandes danos à capa da corda.

Quando os mosquetões são do mesmo tipo, por exemplo, com gatilhos “retos” de arame, uma estratégia comum é utilizar um mosquetão polido (ou de uma cor específica) para o lado da “chapeleta” e o outro mosquetão (colorido, por exemplo) para a corda. Isso evita erros na hora de clipar a costura.

O vídeo da DMM Climbing mostra bem como é que isso acontece: http://dmmclimbing.com/knowledge/carabiners-and-potential-rope-damage/

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O que acontece com apenas algumas quedas utilizando um mosquetão levemente danificado por uma chapeleta (Foto da DMM)

Nem é necessário dizer que os mosquetões (de qualquer tipo) não devem sofrer forças tri-axiais, ou seja, não devem ser tracionados em mais de um sentido (principalmente se o sentido for diferente do longitudinal).

Isso acontece na escalada principalmente quando o mosquetão “bate” em uma quina de rocha, quando ele fica apoiado em uma saliência, etc...

Para evitar esses cenários,  tenha com vocês costuras de diferentes comprimentos, ou até mesmo carregue com você algumas fitas longas (de 60cm, por exemplo) para poder montar uma costura quando necessário.

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 Posicionamentos incorretos de mosquetões sobre quinas ou saliências

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... e os trágicos resultados quando sobrem quedas nessa situação

 

Costuras na Escalada Tradicional (Proteções Móveis)

E na escalada tradicional, com uso de proteções móveis (friends, nuts, etc..) ? Usamos as mesmas costuras da escalada esportiva ?

Pois bem… costuras esportivas costumam ter entre 10 a 30cm de comprimento.

Eu particularmente prefiro fitas de 25 a 30cm de comprimento pois com esse tamanho, eu posso na maior parte das vezes, usar elas também nas proteções móveis.

A colocação perfeita ou ideal de uma proteção móvel deve ser pensada de forma a prever a direção de seu tracionamento em uma eventual queda (para que a peça não se movimente ou não saia da posição prevista).

Entre as diversas estratégias para garantir que peça móvel fique em seu devido lugar, uma das mais importantes é garantir que o movimento da corda não desestabilize sua colocação.

Isso é feito utilizando-se fitas longas (60cm ou até mais) e mosquetões soltos (ou no máximo, o mosquetão da corda preso à esta fita longa).

E antes de qualquer coisa, é preciso dizer para nunca passar uma fita (principalmente se for de dyneema) diretamente na alça de um nut ou no cabo de um friend, isso é extremamente perigoso e em caso de queda, apenas irá destruir seu friend ou cortar a fita (no caso do nut).

Se isso for necessário de ser feito, o correto é sempre utilizar um mosquetão para clipar uma fita ao friend ou nut.

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Há alguns móveis que possuem um cabo de aço flexível e usam uma fita de dyneema, fechada em anel com costura. Muitas vezes essa fita de dyneema inclusive é montada de forma a permitir uma “regulagem” ou seu uso em dois comprimentos diferentes:

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Notem que praticamente não há diferença no comprimento entre o modo “curto” e o modo “longo” no caso da fita de dyneema.

Olhando de lado, veja a diferença entre a fita que acompanha um “camalot” da Black Diamond e uma fita de dyneema regulável (no exemplo é um “robot” da Rock Empire):

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Mas qual seria a importância disso ? Pois bem, as fitas estreitas (como as de  dyneema) quando utilizadas em  friends com  cabo de aço flexível, podem deformar e até mesmo romper com relativamente pouca força.

A Black Diamond fez alguns testes que demonstram porque isso não é uma boa idéia:

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Deformação no cabo de aço de um Camalot (Friend) com fita de dyneema (mais estreita) e com a fita original de nylon (mais grossa), forças de apenas 3 a 4 kN.  (Foto da Black Diamond)

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Destruição de um anel de dyneema em uma alça de cabo de aço de um camalot (friend), com apenas 9 a 10kN de força. (Foto da Black Diamond)

Claro, existem peças móveis que foram projetadas desde o início para serem utilizadas assim, como o DMM Dragon, que possui um olhal metálico rígido na extremidade de seu cabo:

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Móvel projetado para trabalhar com fita estreita (e ajustável) (foto de Robert Beno)

Mas esse não é o caso dos populares (por aqui no Brasil) friends da Rock Empire (e alguns outros) que usam fitas extensíveis de dyneema. (Eu particularmente uso elas sempre na posição mais curta, ou seja, com suas duas voltas, ou então utilizo uma costura longa, passando o mosquetão diretamente na alça do cabo de aço).

Nem é preciso dizer também para nunca laçar com um nó “boca de lobo” o cabo de um friend ou de um nut (pelos mesmos motivos já abordados).

Na escalada tradicional, com o uso de fitas longas, não é tão importante o sentido do gatilho do mosquetão, isso porque devido ao comprimento da fita, há um grande grau de liberdade/movimento em todo o sistema.

Como as fitas são longas, muita gente utiliza a seguinte técnica para encurtar as fitas de 60, 90 ou 120cm (esse tipo de costura é chamado também de “alpine quick draw”):

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Isso nos leva a um outro problema: usar ou não usar elásticos/borrachinhas para prender o mosquetão que será utilizado na corda, em uma posição melhor “clipável” na costura longa ?

O problema é que nesse cenário, como o anel de fita é aberto, uma das alças da fita pode acidentalmente passar por dentro do mosquetão que tem a borrachinha/elástico e acontecer o seguinte:

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Em outras palavras, a recomendação é para que não seja utilizada nenhum tipo de borracha ou elástrico para manter um mosquetão em seu devido lugar quando se tratar de fitas fechadas em anel abertas:

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Ilustração da Petzl mostrando o risco de utilizar borrachas/elásticos para manter o mosquetão no lugar em fitas fechadas em anel (abertas)

Para entender de forma definitiva como isso acontece, veja o vídeo:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=LFNyls4UCXY

 

Mas como fazer então para manter o mosquetão no lugar (se isso realmente for necessário, claro) ?

Uma dica é simplesmente dar um nó “volta de fiel” no mosquetão que irá receber a corda, garantindo assim que ele fique posicionado da forma desejada e sem o risco inerente dos elásticos/borrachinhas:

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Note que apesar do nó reduzir a resistência integral da fita utilizada, ele ainda assim pode ser vantajoso, visto que na maior parte das vezes a força de impacto na última costura (devido ao “efeito polia) é inferior a 10kN.

Por último, para finalizar esse artigo, o engenheiro mecânico (e responsável por boa parte dos testes na Black Diamond) Chris Harmston diz o seguinte (em maio de 1999, tradução livre, original em http://www.fishproducts.com/tech/webbing.html ):

texto BD

Eu discordo das recomendação a respeito de ter os mosquetões virados para o mesmo lado ou não. Cada situação é única e pode requerer diferentes técnicas. Eu recomendo montar as costuras com diferentes comprimentos, e com mosquetões virados para o mesmo lado e também para lados opostos. A única coisa que realmente recomendo é manter o mosquetão de baixo “preso” na costura. As minhas razões em ordem de importância (na minha opinião) são as seguintes:

Eu penso que estes itens devem ser checados CADA VEZ que for clipar uma peça de proteção em qualquer rota. Aprenda a fazer isso de forma rápida. Sempre avalie cada proteção utilizada. Não acredito que haja uma única técnica que funcione para qualquer situação.

O mosquetão de baixo jamais deve ficar sobre uma quina ou saliência. Utilize diferentes comprimentos de costura para evitar que isso aconteça. Se isso não por possível, utilize um mosquetão com rosca. Preste atenção a efeitos rotacionais: a quina ou saliência pode não estar localizada diretamente abaixo da chapeleta, ela pode estar um pouco para os lados. Lembre-se que em caso de queda, essa costura pode rotacionar e mosquetão pode chocar-se contra essa saliência ou quina lateral.

O mosquetão de cima nunca deve ficar apoiado sobre uma saliência ou quina. Em vias esportivas com chapeletas isso acontece com bastante frequência. Utilize um  mosquetão com rosca nesses casos, ou dois mosquetões, utilize um backup com uma fita, ou melhor ainda, se você acha que pode cair nessa seção da via, com essa chapeleta-bomba, estapeie o conquistador da via repetidamente até que ele resolva ou autorize a mudança dessa chapeleta e arrume essa porcaria mal-feita. Frequentemente basta rotacionar o mosquetão de cima para que uma eventual saliência não abra acidentalmente o gatilho do mosquetão. De forma geral eu tento manter os gatilhos do lado aposto da cabeça da chapeleta. Isso me atrapalha com o mosquetão poucas vezes. O mosquetão de cima dificilmente sai da chapeleta acidentalmente (desque que não esteja muito apertado na costura). É importante manter o mosquetão de cima livre para se movimentar na costura.

O mosquetão de baixo não deve ser clipado de forma errada (com a corda entrando por cima)

O mosquetão de baixo deve ficar sempre com o gatilho virado para o lado oposto do sentido ao qual você está escalando.

A orientação dos mosquetões é independente de onde você está clipando. Elas são dependentes para onde você está indo e das considerações anteriores. Seja capaz de clipar com qualquer uma das mãos, em qualquer uma das direções. Preferir clipar suas costuras apenas de um jeito é apenas uma desculpa ruim para piores consequências em determinadas situações. Aprenda a clipar usando os dedos, a palma da mão e o polegar. Seja eficiente em qualquer tipo de situação! Quanto estiver escalando no seu limite, você pode ser forçado a usar uma determinada técnica de clipagem para conseguir clipar, esteja atento que às vezes esse não é o melhor cenário para cair.

Leve uma ou duas fitas com mosquetões de trava em ambas as pontas para evitar os cenários que interagem com quinas ou saliências, em um crux bem definido ou onde a falha de uma proteção pode ser perigosa.

Essas são minhas opiniões pessoais, baseadas apenas em minha experiência e sobre as quais eu não fiz qualquer tipo de teste.

É isso! Boas escaladas !

Davi Marski – Agosto de 2013

 

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